Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir que as Terapias Baseadas em Processos (Process-Based Therapies) representam uma evolução na prática baseada em evidências. Em algumas discussões, chega-se a sugerir que protocolos manualizados teriam se tornado excessivamente rígidos, enquanto o futuro da psicoterapia estaria na individualização dos processos psicológicos. Essa narrativa, embora atraente, simplifica excessivamente a história da psicoterapia baseada em evidências.
Talvez o problema esteja na própria pergunta. Afinal, será que terapias empiricamente sustentadas e terapias baseadas em processos realmente competem entre si?
Uma breve mudança de perspectiva
Ao longo das últimas décadas, diferentes movimentos responderam a perguntas distintas. Os Tratamentos Empiricamente Sustentados (TES) perguntavam: “Este tratamento funciona para este transtorno?”
A preocupação central era demonstrar eficácia por meio de ensaios clínicos randomizados, utilizando protocolos manualizados e critérios diagnósticos bem definidos. Esse movimento representou um avanço importante para a psicoterapia ao aproximá-la dos padrões metodológicos utilizados em outras áreas da saúde.
Posteriormente, a Prática Baseada em Evidências em Psicologia ampliou essa discussão ao propor que decisões clínicas não deveriam depender apenas dos resultados de pesquisas, mas também da expertise do terapeuta e das características, cultura, valores e preferências do paciente. A pergunta passou a ser outra: “Como tomar a melhor decisão clínica utilizando ciência?”
Mais recentemente, as Terapias Baseadas em Processos deslocaram novamente o foco. Em vez de perguntar qual modelo terapêutico funciona para determinado diagnóstico, passaram a investigar: “Quais processos psicológicos produzem mudança para esta pessoa, neste contexto e neste momento?”
Observe que essas perguntas não são excludentes. Elas respondem a níveis diferentes de organização da prática clínica.

A DBT ocupa um lugar singular nessa história
A Terapia Comportamental Dialética (DBT), desenvolvida por Marsha Linehan no final da década de 1980, surgiu exatamente no período em que os Tratamentos Empiricamente Sustentados (TES) começavam a ganhar força.
Por essa razão, a DBT foi construída de maneira altamente compatível com o paradigma científico dominante da época. Desde o início, apresentou uma estrutura claramente manualizada, definiu populações-alvo específicas, organizou seus diferentes componentes de tratamento e investiu fortemente em pesquisas controladas. Não por acaso, tornou-se uma das primeiras psicoterapias reconhecidas como tratamento bem estabelecido para indivíduos com comportamento suicida e transtorno de personalidade borderline.
Sob esse aspecto, a DBT é um excelente exemplo de TES que deve ser considerada dentro de uma prática baseada em evidências. Entretanto, limitar a DBT a essa descrição significa ignorar parte importante de sua arquitetura clínica.
Muito além do protocolo
Embora frequentemente lembrada por seus manuais e módulos de habilidades, a DBT nunca foi simplesmente um conjunto de técnicas.
Desde sua formulação original, Linehan organizou a intervenção em torno de processos psicológicos claramente identificáveis: desregulação emocional, vulnerabilidade biológica, invalidação ambiental, análise funcional do comportamento, aprendizagem de habilidades, validação, generalização do repertório e monitoramento contínuo do progresso terapêutico.
Em outras palavras, a lógica da intervenção sempre esteve menos centrada no diagnóstico e muito mais na identificação dos mecanismos que mantêm o sofrimento e na modulação desses mecanismos ao longo do tratamento.
Essa organização antecede em muitos anos o próprio movimento das Terapias Baseadas em Processos. Mas isso não significa afirmar que a DBT tenha sido originalmente concebida como uma terapia baseada em processos — historicamente, essa categoria sequer existia. Significa, entretanto, que a arquitetura da DBT pode ser reinterpretada, à luz do desenvolvimento contemporâneo da psicoterapia, como um modelo fortemente orientado por processos de mudança.
O detalhe que talvez explique tudo
Existe um aspecto da DBT que ilustra essa aproximação de maneira particularmente elegante: sua forma de monitorar o tratamento. Na prática clínica tradicional, registros costumam ser vistos como documentação. Na DBT, eles desempenham outra função.
Os diários de habilidades, as análises em cadeia, o monitoramento de comportamentos-alvo e a revisão contínua das intervenções não são atividades burocráticas. Eles constituem um sistema permanente de rastreamento de processos clinicamente relevantes.

O terapeuta acompanha, sessão após sessão, como variáveis como vulnerabilidade emocional, utilização de habilidades, eventos precipitantes, padrões contextuais e respostas comportamentais evoluem ao longo do tratamento. Assim, a tomada de decisão clínica deixa de depender apenas do protocolo e passa a ser continuamente informada pelos processos que estão, de fato, operando naquele caso.
Talvez seja justamente nesse ponto que a DBT revele sua atualidade. Da evidência aos processos. Sob a perspectiva contemporânea, a contribuição da DBT não está apenas em demonstrar que um tratamento funciona. Ela mostra que é possível integrar diferentes níveis de evidência em uma mesma prática clínica.
A melhor evidência científica continua sendo indispensável. A expertise clínica permanece fundamental. As características e preferências do paciente continuam orientando as decisões terapêuticas. Mas tudo isso é articulado por meio do acompanhamento sistemático dos processos psicológicos que sustentam a mudança.
Talvez esse seja o principal ensinamento da DBT para a psicoterapia contemporânea.
As terapias baseadas em processos não precisam substituir as práticas baseadas em evidências. Elas podem representar um refinamento do próprio conceito de evidência, deslocando o foco dos protocolos para os mecanismos de mudança, sem abandonar o rigor científico que permitiu à psicoterapia consolidar-se como prática baseada em evidências.
Nesse sentido, a DBT ocupa um lugar singular na história da psicoterapia. Ela pode ser compreendida como uma ponte entre dois momentos do campo: o paradigma dos tratamentos empiricamente sustentados e a atual busca por uma ciência clínica organizada em torno dos processos que efetivamente produzem mudança.
Referências
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Como citar este artigo (APA):
Lopes, J. (2026, 7 de agosto). Quando evidência e processos deixam de competir: o que a DBT tem a nos ensinar. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/quando-evidencia-e-processos-deixam-de-competir-o-que-a-dbt-tem-a-nos-ensinar/
Escrito por:

Joseuda Lopes
Psicóloga, mestra, professora, supervisora clínica, coordenadora da Pós-graduação em Terapias Comportamentais Contextuais e dos cursos de Formação em DBT, FAP e CFT do IBAC. Instrutora de Mindfulness formada pelo método MBHP.
