O segredo do chuveiro e a sorte que a gente cria

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O acaso só favorece a mente preparada

Louis Pasteur

Existe uma coisa muito brasileira que é explicar como funciona o chuveiro da casa. Toda vez que algum brasileiro recebe um hóspede, ou é hóspede na casa de alguém, a primeira pergunta é: tem algum segredo no chuveiro? Há sempre um certo briefing: gira meia volta, espera esquentar e depois gira de novo; liga primeiro a fria, depois a quente, ou vice-versa, como se fosse algo muito científico e especial, como se apenas certos iniciados pudessem alcançar o prazer da água quente. 

Com frequência estabelecemos regras quando precisamos contar como as coisas funcionam. Às vezes acreditamos que algo que fazemos produz um efeito, quando na verdade esse efeito é resultado do acaso ou de contingências que não estão sob nosso controle.

Isso também é chamado de “ilusão de controle”, que lembra um pouco o comportamento supersticioso que Skinner já via em pombos, lá em 1948. Um dos primeiros estudos na área, na década de 1970, avaliou como as pessoas julgavam as circunstâncias e agiam com base nesse julgamento. Por exemplo: quando o oponente do jogo era considerado desajeitado ou nervoso, as pessoas apostavam mais contra ele, pois acreditam que poderiam vencê-lo, mesmo antes de jogar. Já quando o oponente parecia elegante e seguro, elas achavam que poderiam perder.

Em outro experimento, havia bilhetes de loteria com letras e números e outros com símbolos aleatórios e desconhecidos. Os bilhetes com letras e números eram mais familiares e, portanto, mais escolhidos. Quem que os escolhia também ficava menos propenso a trocá-los mais tarde, por acreditar mais na sorte daquela combinação. Nessas e em outras ocasiões, o que estava em jogo era a ilusão de controle, pois um bilhete de loteria, com símbolos, números ou rabiscos tem a mesma sorte que qualquer outro, a depender da probabilidade real que ele tenha de ser sorteado. Mas se ele tiver o número da sua casa ou as iniciais do seu nome, é fácil acreditar que ele carrega um pouco mais de sorte, um destino abençoado e escolhido especialmente para você, do que um número aleatório. Quem já comprou ou vendeu uma rifa sabe que números “bons” são vendidos primeiro.

Um comercial fofinho de 2011 que mostra a ilusão do controle do mini Darth Vader. Fonte: Greatest Ads.

Na ilusão do controle, ou nos comportamentos supersticiosos, o reforçamento é acidental. Nós atribuímos uma causa onde não há nenhuma. Muitos casos chegam na clínica baseados exatamente nisso. No TOC esse padrão é bastante frequente. Mas há outras situações sutis, como quando o cliente traz regras rígidas, nunca comprovadas que seguem controlando o comportamento: “tenho certeza que meu colega está contra mim, tudo que ele faz é para me derrubar”, “eu só consegui dormir porque tomei um chá de camomila e chequei a porta 3 vezes”, “não posso chegar atrasado porque meu funcionário vai pensar mal de mim”.  

Às vezes também o acaso favorece. Alguma coisa acontece e uma descoberta nova, que ninguém estava buscando, aparece quase sem querer. Surge uma nova descoberta. A ciência chama isso de serendipidade.

Alexander Flemming e a penicilina.

Alexander Fleming, por exemplo, descobriu a penicilina em um processo de serendipidade. Ele estava pesquisando bactérias, saiu de férias e deixou algumas bandejas em cima da bancada do laboratório. Por descuido mesmo, ou por pressa, ou por falta de atenção. Quando voltou, algumas bandejas estavam mofadas e nessas, não havia mais bactérias. Aí ele se perguntou: será que o mofo matou as bactérias? Assim nasceu a penicilina, algo fundamental para o ser humano.

Skinner também descobriu os esquemas intermitentes porque a máquina quebrou e passou a liberar as pelotas de alimento de forma intercalada. Ele percebeu que isso também gerava um efeito curioso no comportamento dos animais, aumentando a frequência das respostas.

O reforçamento também é acidental aqui, mas há passos que o indivíduo dá que o aproximam do resultado valioso. Tanto Skinner quanto Flemming foram até metade do caminho. O resto foi a vida que cuidou. Serenpididade é estar no lugar certo, na hora certa, aberto para observar os eventos e as relações entre eles.

Só que a serendipidade tem um oposto, a zemblanidade. São as descobertas infelizes, azaradas, mas perfeitamente previsíveis (exceto para quem não estava olhando). É estar no lugar errado na hora errada, por erro ou por teimosia. Na minha experiência casos de zemblanidade aparecem bastante na clínica.

Por exemplo, você sabe que precisa ir para a faculdade fazer a prova no primeiro horário. Mas opta por dormir tarde no dia anterior, vendo um jogo do seu time ou jogando videogame, e “acontece” de perder a hora. Você acorda atrasado, culpa o despertador, corre no trânsito, xinga o professor que marcou a prova cedo. Você só esquece de um detalhe: foi você mesmo que provocou esse “azar”.

É como quando o cliente acredita que nada vai acontecer se beber e dirigir, mas se irrita e se revolta quando é parado na blitz. Que reclama da multa que recebeu por estacionar o carro no lugar proibido. Que se afasta dos filhos porque prioriza outras coisas, mas quer resgatar a relação quando o filho já é adolescente. Que pula os treinos ou os estudos para o concurso e não se conforma com o mau resultado.

Também é quando não estamos querendo ver a contingência que se forma diante das nossas ações. E atribuímos tudo à má sorte, ao acaso, aos outros, nunca aos eventos que nós mesmos ajudamos a construir.  

Penso em outras cenas comuns de consultório. A cliente que evita conversar sobre coisas difíceis com o parceiro, para não estragar o clima, e se surpreende quando o relacionamento afunda em ressentimento anos ou meses depois. O paciente que cancela terapia sempre que a semana está muito corrida, e depois reclama que nunca melhora nada e a terapia não funciona. O executivo que não delega nenhuma tarefa porque ninguém faz do jeito certo, e culpa a equipe por estar sempre sobrecarregado. Em todos esses casos, o desfecho é previsível, só quem não discrimina é quem está dentro da história, ocupado demais atribuindo a causa a outra coisa.

Muito do nosso trabalho clínico é ajudar o cliente a discriminar seu próprio papel na cadeia de eventos e a se comprometer com as variáveis que controlaram a resposta, seja de se atrasar para a prova, seja de ficar sobrecarregado, em vez de questionar “por que isso só acontece comigo?”. Podemos ajudar o cliente a perceber e reconhecer os padrões de zemblanidade que ele próprio estabelece. Não adianta também convencer o cliente de que tudo está sob seu controle, porque isso seria apenas uma outra forma de ilusão de controle. Tampouco de atribuir a ele a responsabilidade por tudo o que lhe acontece. Trata-se de ajudá-lo a distinguir o que é acaso, o que é contingência e, principalmente, quais variáveis de seu próprio comportamento podem ser modificadas.

Nós, seres humanos, temos uma queda pelo pensamento mágico. Queremos acreditar que existe uma relação entre nossos comportamentos e os eventos que acontecem depois deles, mesmo quando essa relação é apenas coincidência. Ao mesmo tempo, curiosa e incongruentemente, fazemos o movimento inverso quando o resultado é desagradável. Para essas situações preferimos colocar a culpa em outras variáveis, ao azar, ao destino ou ao comportamento dos outros a reconhecer as contingências das quais também participamos.

E talvez seja por isso que seguimos buscando o segredo do chuveiro, girando a torneira do jeito que sempre giramos, sem questionar, assim como em outras áreas da nossa vida. A mudança importante para qual podemos conduzir nossos clientes não é parar de dar explicações. Mas, entre acreditar em milagres ou atribuir tudo ao destino, continuar curioso o suficiente para prestar atenção ao que realmente está acontecendo. Às vezes o chuveiro esquenta porque aprendemos o jeito certo. Às vezes esquenta apesar do jeito que fazemos. Às vezes não esquenta porque a resistência queimou. E, de vez em quando, vale a pena se perguntar: será que fui eu quem fez a água esquentar? Será que ela esfriou porque eu sou azarado? Será que eu paguei a conta? Ou será que girei para o lado errado hoje?

Para saber mais:

Busch, C. (2026, março). Zemblanity: When bad luck is built in. Psychology Today, blog Connect the Dots. https://www.psychologytoday.com/us/blog/connect-the-dots/202603/zemblanity-when-bad-luck-is-built-in

Griffiths, O., Shehabi, N., Murphy, R. A., & Le Pelley, M. E. (2019). Superstition predicts perception of illusory control. British Journal of Psychology, 110(3), 499-518. https://doi.org/10.1111/bjop.12344

Langer, E. J. (1975). The illusion of control. Journal of Personality and Social Psychology, 32(2), 311–328. https://doi.org/10.1037/0022-3514.32.2.311

Como citar este artigo (APA):

Luque, P. (2026, 28 de agosto). O segredo do chuveiro e a sorte que a gente cria. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/o-segredo-do-chuveiro-e-a-sorte-que-a-gente-cria/

Escrito por:

Patrícia Luque

Supervisora de Estágio no IBAC. Psicóloga clínica. Doutora em Ciências do Comportamento e Mestre em Psicologia pela UnB

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