Durante muitos anos, a pergunta que organizou grande parte da pesquisa em psicoterapia foi relativamente simples: qual tratamento funciona para qual transtorno? Essa forma de produzir conhecimento permitiu avanços importantes. Os chamados Tratamentos Empiricamente Sustentados (Empirically Supported Treatments – ESTs) estabeleceram critérios rigorosos para avaliar intervenções, aproximando a psicoterapia dos padrões metodológicos utilizados em outras áreas da saúde.
Com o tempo, entretanto, ficou evidente que essa pergunta não respondia a todos os desafios encontrados na clínica. Pessoas com o mesmo diagnóstico evoluíam de maneiras diferentes. Tratamentos distintos produziam resultados semelhantes. Clientes raramente chegavam ao consultório com um único problema claramente delimitado. Aos poucos, a atenção começou a se deslocar dos protocolos para os mecanismos responsáveis pela mudança clínica. Foi nesse contexto que ganharam força as chamadas Terapias Baseadas em Processos (Process-Based Therapies), cujo foco deixa de ser o diagnóstico e passa a ser a identificação dos processos psicológicos que mantêm ou transformam o sofrimento.
À primeira vista, essa pode parecer uma mudança recente. No entanto, quando olhamos para a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), percebemos que sua lógica clínica sempre esteve organizada exatamente dessa maneira.

Uma mudança de pergunta
A FAP surge no final da década de 1980, dentro da análise comportamental clínica, a partir de uma observação bastante simples, mas profundamente transformadora. Robert Kohlenberg e Mavis Tsai perceberam que muitos clientes descreviam dificuldades interpessoais importantes — esquiva, submissão, agressividade, distanciamento emocional — e que esses mesmos padrões apareciam na relação estabelecida com o terapeuta durante a sessão. A pergunta deixou de ser apenas “como ensinar novos comportamentos fora do consultório?” e passou a ser: se o problema acontece nas relações, por que não utilizar a própria relação terapêutica como contexto de mudança?
Essa mudança não representou um abandono da Análise do Comportamento. Ao contrário, ela consistiu em uma aplicação particularmente elegante de seus princípios clássicos. Aprendizagem operante, contingências e reforçamento diferencial permaneceram como fundamento da intervenção. O que mudou foi o lugar onde esses princípios passaram a ser observados e utilizados: a interação, ao vivo, entre terapeuta e cliente.
Processos, e não protocolos
Sob a perspectiva contemporânea, é possível compreender a FAP como uma abordagem cuja unidade central de análise nunca foi o diagnóstico, mas o comportamento em contexto.
Na FAP, o terapeuta procura identificar processos interpessoais clinicamente relevantes que emergem na sessão, evocar esses comportamentos quando necessário e responder a eles de forma contingente, favorecendo novas formas de interação. A mudança clínica é compreendida como resultado da transformação desses processos interpessoais, e não simplesmente da aplicação de um conjunto padronizado de técnicas.
É justamente por isso que a FAP dialoga tão naturalmente com o movimento contemporâneo das Terapias Baseadas em Processos. Quando hoje falamos em selecionar processos-alvo, formular funcionalmente um caso, monitorar mecanismos de mudança e ajustar continuamente a intervenção ao contexto do cliente, estamos utilizando uma linguagem que descreve com precisão aquilo que a FAP já fazia desde sua origem.

E onde entram as evidências?
Essa leitura não elimina uma pergunta importante: afinal, qual é o estado atual das evidências científicas da FAP?
A resposta exige nuance.
Ao longo dos últimos vinte anos, a pesquisa sobre FAP cresceu de forma consistente. Revisões sistemáticas mostraram um aumento progressivo na diversidade metodológica dos estudos, incluindo pesquisas qualitativas, delineamentos de caso único, estudos de processos, ensaios clínicos e investigações sobre treinamento de terapeutas.
A revisão abrangente conduzida por Kanter e colaboradores (2017) foi particularmente importante por reconhecer dois aspectos simultaneamente: de um lado, as evidências apontavam resultados promissores e um mecanismo de mudança coerente com a teoria da FAP; de outro, ainda existiam limitações metodológicas que impediam classificá-la, naquele momento, como um tratamento empiricamente sustentado nos critérios clássicos.
Mais recentemente, uma meta-análise publicada por López-Pinar e colaboradores (2025), reunindo ensaios clínicos randomizados e delineamentos de caso único, fortaleceu esse cenário ao encontrar melhorias consistentes em comportamentos interpessoais clinicamente relevantes e reduções em sintomas de ansiedade e depressão, embora também tenha identificado heterogeneidade entre os estudos e limitações metodológicas que ainda precisam ser superadas.
Uma forma diferente de compreender a FAP
Talvez a contribuição mais interessante da FAP para a psicoterapia contemporânea não esteja apenas em seus resultados clínicos, mas na forma como organiza a própria prática clínica.
Muito antes de o movimento das Terapias Baseadas em Processos propor que o foco da intervenção deveria recair sobre mecanismos de mudança, a FAP já colocava no centro da clínica processos comportamentais interpessoais que emergem na relação terapêutica.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante hoje não seja simplesmente se a FAP é ou não uma prática baseada em evidências. Essa discussão continua aberta e depende, em parte, da definição de evidência adotada.
A pergunta talvez seja outra: o que a FAP nos ensina sobre como compreender a mudança clínica?
Sua resposta permanece surpreendentemente atual: a mudança acontece em processos vivos, contextualizados e observáveis na relação entre terapeuta e cliente. E é justamente essa forma de pensar que aproxima a FAP, de maneira tão natural, das discussões mais contemporâneas sobre ciência e psicoterapia.
Escrito por:

Joseuda Lopes
Psicóloga, mestra, professora, supervisora clínica, coordenadora da Pós-graduação em Terapias Comportamentais Contextuais e dos cursos de Formação em FAP, DBT e CFT do IBAC. Instrutora de Mindfulness formada pelo método MBHP.
