
A autenticidade tornou-se um dos valores mais celebrados da cultura contemporânea. Frequentemente ouvimos que devemos “ser nós mesmos”, expressar livremente nossos sentimentos e agir de acordo com quem realmente somos. Embora essa valorização represente um importante contraponto às pressões sociais por conformidade, ela também pode simplificar excessivamente uma questão complexa.
A Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) propõe uma perspectiva interessante sobre esse tema. Para a abordagem, a relevância de um comportamento não pode ser avaliada apenas pelo fato de ele ser genuíno ou coerente com a experiência interna da pessoa. É igualmente importante considerar a função que esse comportamento exerce nos relacionamentos e as consequências que produz sobre eles (Kohlenberg & Tsai, 2001).
Em outras palavras, ser autêntico não garante necessariamente que uma interação será construtiva, íntima ou saudável.
A autenticidade sob uma perspectiva contextual
Na FAP, comportamentos são compreendidos a partir de sua relação com o contexto. Por isso, além de perguntar se uma pessoa está sendo sincera, é importante investigar o que seu comportamento produz na interação com os outros.
Considere, por exemplo, duas pessoas que dizem: “Estou magoado com você”. Embora a frase seja a mesma, ela pode ter funções muito diferentes. Em um caso, pode representar uma tentativa genuína de aproximação. Em outro, pode funcionar como uma crítica, uma acusação ou uma forma indireta de controle. O conteúdo da fala é semelhante, mas seus efeitos relacionais podem ser completamente distintos.
Essa distinção ajuda a compreender por que a FAP não se interessa apenas pelo que as pessoas dizem, mas também pela maneira como seus comportamentos afetam as relações.
Quando a autenticidade afasta em vez de aproximar
Um equívoco comum é supor que autenticidade signifique simplesmente dizer tudo o que se pensa ou sente. Na prática, isso nem sempre favorece a construção de vínculos.
Afirmações como “eu sou assim mesmo” ou “apenas falo a verdade” podem expressar honestidade, mas também podem funcionar como formas de evitar diálogo, negociação ou vulnerabilidade. Em alguns casos, a aparente autenticidade pode servir para proteger a pessoa de experiências interpessoais difíceis.
Sob uma perspectiva funcional, a questão central não é determinar se alguém está sendo sincero, mas compreender se o comportamento contribui para aproximar ou afastar as pessoas envolvidas.
A diferença entre sinceridade e vulnerabilidade
A FAP destaca que expressar emoções e ser vulnerável não são exatamente a mesma coisa. Muitas vezes, comportamentos genuinamente transformadores envolvem não apenas dizer o que se sente, mas compartilhar aspectos de si que carregam risco interpessoal.
Considere a diferença entre estas duas falas:
“Você nunca se importa comigo.”
e
“Quando isso aconteceu, eu me senti pouco importante para você e fiquei com receio de dizer isso.”
Ambas podem ser sinceras. Entretanto, a segunda tende a criar mais oportunidades para compreensão mútua e conexão. Ela envolve exposição pessoal e permite que o outro tenha acesso a uma experiência interna que talvez permanecesse oculta.
Por essa razão, a FAP valoriza especialmente comportamentos que aumentam a probabilidade de intimidade e contato interpessoal significativo (Tsai et al., 2011).
O papel da terapia
Na Psicoterapia Analítica Funcional, a autenticidade não é vista como uma característica fixa da personalidade, mas como um repertório que pode ser desenvolvido. A relação terapêutica oferece um contexto privilegiado para esse aprendizado porque permite que novas formas de expressão emocional sejam experimentadas em uma interação real.
Quando um cliente diz ao terapeuta algo como: “Estou receoso de falar isso porque tenho medo da sua reação”, está fazendo mais do que simplesmente relatar um sentimento. Está assumindo um risco interpessoal. Ao responder de forma acolhedora e contingente, o terapeuta ajuda a fortalecer esse repertório, aumentando a probabilidade de que ele seja utilizado em outros relacionamentos importantes.
Considerações finais
A FAP nos convida a uma compreensão mais sofisticada da autenticidade. Ser autêntico não significa apenas expressar pensamentos e emoções de forma espontânea, mas desenvolver maneiras de fazê-lo que favoreçam conexão, compreensão e intimidade.
Nesse sentido, a autenticidade deixa de ser apenas uma questão de fidelidade à própria experiência interna e passa a ser também uma habilidade relacional. Uma habilidade que envolve consciência, coragem e sensibilidade aos efeitos que nossos comportamentos produzem sobre as pessoas com quem nos relacionamos.
Referências
Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (2001). Psicoterapia Analítica Funcional: criando relações terapêuticas intensas e curativas. Santo André: ESETec.
Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follette, W. C., & Callaghan, G. M. (2011). Psicoterapia Analítica Funcional: consciência, coragem e amor. Santo André: ESETec.
Como citar este artigo (APA):
Xavier, R. N. (2026, 19 de junho). O mito da autenticidade: Porquê ser você mesmo é mais complexo do que parece. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/o-mito-da-autenticidade-porque-ser-voce-mesmo-e-mais-complexo-do-que-parece/

