Além do diagnóstico: o foco da FAP nos padrões de relacionamento

Compartilhe este post

A Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) não ignora diagnósticos psiquiátricos nem se opõe à sua utilização clínica ou científica. A abordagem pode ser aplicada a diferentes quadros diagnósticos e tem sido investigada empiricamente em populações específicas. No entanto, ela tende a organizar a compreensão e a intervenção terapêutica em torno de padrões relacionais e processos comportamentais que se manifestam nas interações do cliente, especialmente na relação terapêutica.

Essa diferença pode parecer sutil, mas ela altera profundamente o modo como o processo terapêutico é conduzido.

O diagnóstico descreve; o padrão relacional explica

Os diagnósticos psiquiátricos são úteis para comunicação entre profissionais, planejamento de tratamento e pesquisa. No entanto, eles descrevem conjuntos de sintomas e não explicam, por si só, como o sofrimento é mantido nas interações cotidianas.

Duas pessoas com o mesmo diagnóstico de depressão podem apresentar padrões interpessoais completamente diferentes. Uma pode se isolar e evitar contato emocional; outra pode buscar aprovação constantemente e sentir-se devastada diante de pequenas críticas. Embora compartilhem sintomas semelhantes, os processos relacionais envolvidos são distintos.

A FAP se interessa justamente por esses processos. O foco recai sobre comportamentos que aparecem nas relações e que contribuem para a manutenção do sofrimento ou para a construção de vínculos mais saudáveis (Kohlenberg & Tsai, 2001).

O que são padrões relacionais?

Padrões relacionais são formas recorrentes de agir, sentir e responder na presença de outras pessoas. Muitas vezes, eles foram aprendidos ao longo da história de vida e se tornam tão automáticos que deixam de ser percebidos conscientemente.

Alguns exemplos frequentes incluem:

  • evitar demonstrar necessidade;
  • tentar agradar para evitar rejeição;
  • interpretar ambiguidades como críticas;
  • afastar-se quando se sente vulnerável;
  • controlar excessivamente as interações;
  • minimizar as próprias emoções.

Na FAP, esses padrões são observados não apenas nos relatos do cliente, mas também na própria relação terapêutica.

Fonte: unsplash.com

A sessão como uma amostra da vida

Um dos aspectos mais característicos da FAP é a ideia de que os comportamentos relevantes tendem a aparecer ao vivo, durante a interação com o terapeuta. Se uma pessoa costuma evitar conflitos fora da terapia, pode também evitar discordar do terapeuta. Se teme ser um peso para os outros, talvez hesite em pedir esclarecimentos ou apoio na sessão.

Esses comportamentos são chamados de Comportamentos Clinicamente Relevantes (CCRs). Quando representam padrões problemáticos, são denominados CCR1s; quando representam mudanças desejadas, CCR2s; e quando o cliente demonstra que desenvolve consciência sobre esses processos, CCR3s (Tsai et al., 2011).

Essa conceituação permite que a terapia deixe de ser apenas um espaço de conversa sobre a vida e se torne um contexto em que novas formas de relacionamento podem ser experimentadas.

Um exemplo clínico

Imagine uma cliente que relata sentir-se constantemente rejeitada pelos amigos. Ela descreve situações em que demora a responder mensagens, evita convidar pessoas para sair e interpreta respostas curtas como sinais de desinteresse.

Durante a terapia, o terapeuta percebe que ela frequentemente diz frases como:

“Talvez isso nem seja importante para falar aqui.”

ou

“Desculpa estar tomando seu tempo com isso.”

Nesse momento, o foco da FAP não é apenas explorar cognitivamente a crença de rejeição. O terapeuta observa que o mesmo padrão de minimizar necessidades e antecipar rejeição está ocorrendo na relação terapêutica.

O terapeuta pode tentar arranjar contingências que ajudem a cliente conseguir dizer algo como:

“Na verdade, eu queria continuar falando disso, mas fiquei com medo de parecer exagerada.”

teríamos, então, um exemplo de CCR2: um comportamento mais autêntico, vulnerável e potencialmente transformador. Uma resposta acolhedora e contingente do terapeuta pode reforçar esse novo repertório, aumentando a probabilidade de que ele ocorra novamente na relação terapêutica e também fora da sessão.

Por que isso é relevante clinicamente?

A FAP considera que muitos sofrimentos psicológicos são, em grande parte, sofrimentos relacionais. Mesmo sintomas intensos costumam ser influenciados por padrões de conexão, afastamento, dependência, controle, vergonha ou medo de intimidade.

Por isso, a abordagem não se organiza primariamente em torno de categorias diagnósticas, mas em torno de funções comportamentais. O objetivo não é apenas reduzir sintomas, e sim ampliar a capacidade da pessoa de construir relações mais conscientes, corajosas e responsivas.

Essa perspectiva é especialmente útil em casos em que o sofrimento persiste apesar de boa compreensão intelectual do problema. Muitas pessoas sabem explicar por que agem de determinada maneira, mas ainda não tiveram a oportunidade de experimentar, em uma relação real, uma forma diferente de agir e receber consequências diferentes.

A mudança acontece na relação

A contribuição central da FAP é mostrar que a relação terapêutica pode funcionar como um ambiente de aprendizagem interpessoal. O terapeuta não atua apenas como observador ou intérprete, mas como alguém que participa de contingências reais, respondendo aos comportamentos do cliente de maneira sensível e funcional.

Quando novos comportamentos são reforçados no contexto da terapia, eles podem gradualmente se generalizar para outros relacionamentos importantes. Assim, a mudança não depende apenas de insight, mas de experiências relacionais concretas.

Considerações finais

A FAP não rejeita diagnósticos, mas convida a olhar além deles. O diagnóstico pode nomear o sofrimento; os padrões relacionais ajudam a compreender como ele é vivido e mantido no cotidiano.

Ao focalizar o que acontece entre as pessoas — especialmente entre terapeuta e cliente — a FAP oferece uma perspectiva profundamente contextual e humana da psicoterapia. Em vez de tratar apenas categorias clínicas, ela busca transformar as formas pelas quais as pessoas se aproximam, se afastam, pedem ajuda, se protegem e constroem intimidade.

E, muitas vezes, é justamente nessa transformação relacional que mudanças mais duradouras começam a acontecer.

Referências

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (2001). Psicoterapia Analítica Funcional: criando relações terapêuticas intensas e curativas. Santo André: ESETec.

Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follette, W. C., & Callaghan, G. M. (2011). Um Guia para a Psicoterapia Analítica Funcional: consciência, coragem, amor e behaviorismo. Santo André: ESETec.

Como citar este artigo (APA):

Xavier, R. N. (2026, 11 de setembro). Além do diagnóstico: o foco da FAP nos padrões de relacionamento Blog do IBAC. https://ibac.com.br/alem-do-diagnostico-o-foco-da-fap-nos-padroes-de-relacionamento/

Escrito por:

Rodrigo Xavier

Psicólogo (UFMS) e psicoterapeuta, Doutor em Psicologia Clinica (USP) com estágio sanduíche na University of Washington sob os cuidados dos Ph.D. Robert Kohlenberg, Mavis Tsai e Johnatan Kanter. Treinador certificado de FAP desde 2021. Líder de encontros do Projeto Global Viva com Consciência, Coragem e Amor desde 2018. Professor nos cursos de Formação em FAP e Terapia Analítico-Comportamental Infantil do IBAC.

Inscreva-se em nossa Newsletter

Receba nossas atualizações

Comentários

Posts recentes

análise comportamental do dia a dia

O segredo do chuveiro e a sorte que a gente cria

O acaso só favorece a mente preparada Louis Pasteur Existe uma coisa muito brasileira que é explicar como funciona o chuveiro da casa. Toda vez

Sem categoria

FAP: antes dos processos receberem esse nome

Durante muitos anos, a pergunta que organizou grande parte da pesquisa em psicoterapia foi relativamente simples: qual tratamento funciona para qual transtorno? Essa forma de

Obrigado pelo feedback

Sua opnião é muito importante para nós!