Verdades que precisam ser ditas e a ilusão da transparência

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Muita infelicidade veio ao mundo por causa de confusões e coisas não ditas.

Fyodor Dostoyevsky

Sara chega no meu consultório, reclamando do marido:

– Eu estava aborrecida naquele dia. Meu chefe me cobrou uma atividade que eu estava atrasada. Eu também fiquei chateada com a Lia que devia ter concluído a etapa do trabalho e não terminou. Aí eu chego em casa enfurecida, e o Marcelo me diz: Você quer pegar um cinema hoje? Foi demais para mim!

Como que o marido de Sara não descobriu que ela estava chateada com o dia? Como que ele não leu no olhar dela e na “mente” que nada tinha dado certo?

No outro dia, foi a vez do Fabiano falar sobre uma apresentação que fez na faculdade:

– Eu estava super nervoso, apresentando para a turma. Acho que todo mundo estava me olhando e tenho certeza de que eles perceberam que eu estava tremendo. Isso me deixou mais nervoso ainda.

Você já deve ter se sentido assim: tomado/a por um sentimento e achando que as pessoas estão entendendo o que você não está dizendo.

Todos nós temos em alguma medida a ilusão da transparência. É uma falácia descrita por Gilovich, Savitsky e Medvec como a tendência de superestimar a forma como as outras pessoas podem discriminar os nossos eventos privados. Só nós sabemos como estamos nos sentindo, mas às vezes achamos que os outros conseguem perceber. E esperamos que eles sejam capazes de entender que quando a gente diz “tudo bem”, não tem nada bem nessa história.

Fonte: @siberianlizard

Por exemplo, você pode achar que mente muito mal, e que todos vão descobrir se você mentir. Será?

Os três autores investigaram experimentalmente a ilusão da transparência em 1998. Em um dos experimentos, o foco foi avaliar a habilidade de mentir e disfarçar. No estudo, os participantes interagiam entre si e precisavam mentir sobre questões bem simples, como shampoo preferido ou um país que tivessem visitado. No final de 8 sessões, os participantes que mentiram acharam que 48,8% dos outros foram capazes de identificá-los como mentirosos. Mas na verdade, apenas 25,6% acertaram quem eram os mentirosos. Ou seja, os mentirosos acharam que seus sentimentos de nervosismo durante a mentira ficariam evidentes e eles seriam facilmente descobertos. Não foi bem assim.

Agora imagine outra situação: você está morrendo de fome na casa de um amigo. Porém, lá pelas tantas, chega uma comida que você considera horrível, incomível. Será que você conseguiria disfarçar?

Em outro experimento dos mesmos autores, participantes tinham que experimentar 5 copinhos de água colorida, sendo que um deles era preparado com um gosto muito ruim (nada prejudicial, mas envolvia uma mistura de vinagre e corante). Os participantes eram filmados em suas expressões faciais e precisavam disfarçar sua sensação. Depois, eles estimavam sua habilidade em disfarçar e quantos dos 10 observadores que assistiriam ao vídeo seriam capazes de identificar o copinho ruim. Na estimativa, os participantes acharam que seriam descobertos em média por 4,91 observadores, mas na realidade apenas 3,56 dos observadores foram capazes de identificar acuradamente.

Tipicamente, somos menos transparentes do que achamos.

Na análise do comportamento, não entendemos a ilusão da transparência como uma causa de comportamento. É mais como o nome que damos a uma situação em que achamos que somos identificados em nossos sentimentos, em razão de experimentarmos os eventos privados de forma única.

Cada pessoa está em contato especial com uma pequena parte do universo

contido dentro da sua própria pele

B.F. Skinner

Na nossa própria experiência, estamos no centro das nossas atenções, debaixo na nossa própria pele, como diria Skinner. Sabemos o que sentimos, embora às vezes não saibamos o nome daquele sentimento. Pelo lado de fora, no entanto, passamos algumas dicas para as pessoas, como o tom de voz, a expressão facial e alguns gestos. Mas isso não significa que sejamos capazes de demonstrar nosso sentimento na realidade.

Por acharmos que é óbvio, deixamos de dizer certas coisas, esperando que o outro entenda ou descubra sozinho.

O fato é que as pessoas não conseguem discriminar nossos pensamentos e sentimentos, a menos que nós falemos aos outros. Se eu falo A e sinto B, talvez a outra pessoa fique sob controle do A e não do B, porque o B está acessível apenas ao falante, mas não ao ouvinte.

Cada palavra tem a sua consequência, cada silêncio também.

Jean Paul Sartre

Isso faz lembrar dos estudos de correspondência verbal-não verbal, uma linha de pesquisa conhecida da Análise do Comportamento desde a década de 1960, que avaliava o quanto as pessoas diziam que iriam fazer uma coisa e o quanto elas efetivamente emitiam esse comportamento.

O fazer e o dizer são duas classes de resposta distintas e, portanto, cada classe fica sob controle de um conjunto diferente de estímulos. Ou seja, eu posso dizer uma coisa, e fazer outra completamente diferente, ou demonstrar por meio de expressões faciais e gestos incompatíveis com o sentimento que tentamos disfarçar. E somos bons nisso. Nossa poker face pode ser melhor que imaginamos.

Imagine como isso é importante por exemplo em negociações. Quais são os comportamentos verbais e não verbais de um funcionário que vai pedir aumento para o chefe? Ou de alguém que quer vender uma mercadoria e está negociando o valor?

Como terapeutas, às vezes achamos que os nossos sentimentos transparecem para os clientes, inclusive os sentimentos de apreço e empatia. Mas talvez não. Talvez a gente precise mesmo falar sobre isso em sessão e expor os nossos eventos privados de forma acolhedora e validante para o cliente.

Entender a ilusão da transparência pode ser uma forma de reduzir os sentimentos de ansiedade diante de uma interação, já que ninguém sabe ao certo o que se passa dentro de você.  

Para saber mais:

Beckert, M. E. (2005). Correspondência verbal/não-verbal: pesquisa básica e aplicações na clínica. Análise do comportamento: pesquisa, teoria e aplicação1, 229-244.

Garcia, S. M. (2002). Power and the illusion of transparency in negotiations. Journal of Business and Psychology17(1), 133-144.

Gilovich, T., & Savitsky, K. (1999). The spotlight effect and the illusion of transparency: Egocentric assessments of how we are seen by others. Current Directions in Psychological Science8(6), 165-168.

Gilovich, T., Savitsky, K., & Medvec, V. H. (1998). The illusion of transparency: biased assessments of others’ ability to read one’s emotional states. Journal of personality and social psychology75(2), 332.

Savitsky, K., & Gilovich, T. (2003). The illusion of transparency and the alleviation of speech anxiety. Journal of experimental social psychology39(6), 618-625.

Escrito por:

Patrícia Luque

Supervisora de Estágio no IBAC. Psicóloga clínica. Doutora em Ciências do Comportamento e Mestre em Psicologia pela UnB

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