Dependência de ChatGPT?

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Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude, Copilot e Perplexity já fazem parte da rotina de estudos, trabalho e vida pessoal. Elas podem aumentar produtividade, apoiar aprendizagem e organizar ideias, mas também exigem cuidado com dependência, privacidade, tomada de decisão e bem-estar digital.

Um estudo recente de Robayo-Pinzon, Rojas-Berrio, Camargo e Foxall (2025), publicado na Frontiers in Public Health, investigou o uso e a dependência percebida de ferramentas de GenAI em 420 estudantes universitários de Bogotá, na Colômbia. A pesquisa partiu de uma pergunta importante para a saúde pública e para o bem-estar digital: quando uma ferramenta útil começa a ocupar um espaço excessivo na vida da pessoa?

Os autores analisaram o tema pela ótica da economia comportamental, uma área que estuda como escolhemos entre diferentes fontes de reforço. Em termos simples, eles investigaram o quanto o uso de GenAI pode competir com outros reforçadores, como dinheiro, tempo livre, estudo autônomo ou outras atividades. Para isso, utilizaram um procedimento de escolha em que os participantes precisavam decidir entre continuar usando ferramentas de IA por determinado período ou receber valores em dinheiro em troca de ficar sem usar esses recursos por uma, duas ou quatro semanas.

Os resultados mostram um cenário equilibrado. A média de dependência percebida foi baixa, com pontuação média de 64,34 em uma escala cujo máximo possível era 160. Isso indica que, no grupo estudado, a maior parte dos participantes ainda não percebia a IA como algo indispensável ou fora de controle. Mesmo assim, o tempo diário de uso se relacionou com níveis mais altos de dependência percebida. Pessoas que usavam IA entre duas e três horas por dia apresentaram pontuações significativamente maiores do que aquelas que usavam por menos de uma hora ou entre uma e duas horas.

Esse dado merece atenção. O problema não está simplesmente em usar GenAI. O ponto principal é observar como, quando e por que a pessoa usa. Uma ferramenta pode funcionar como apoio para aprendizagem e trabalho, mas também pode se tornar uma forma constante de evitar esforço, reduzir desconforto, fugir de tarefas difíceis ou buscar alívio imediato. Nesse caso, o uso passa a ter uma função semelhante à de outros comportamentos digitais problemáticos: ele entrega uma consequência rápida, prática e agradável, enquanto repertórios mais autônomos deixam de ser exercitados.

A pesquisa também encontrou um dado importante sobre privacidade. Em troca de uma assinatura premium por um ano, 65,7% dos participantes afirmaram que compartilhariam dados pessoais como e-mail, idade, gênero e número de celular. Além disso, 17,1% aceitariam compartilhar sua pegada digital, como endereço IP, sites acessados e aplicativos usados, e 12,1% compartilhariam dados biométricos, como escaneamento facial ou da íris. Esse achado mostra que o valor percebido da ferramenta pode levar pessoas a aceitar formas de troca que envolvem informações sensíveis.

Esse ponto é central para a saúde digital. O uso saudável de GenAI envolve mais do que controlar tempo de tela. Também envolve compreender que conversas com chatbots podem incluir informações pessoais, acadêmicas, clínicas, profissionais ou familiares. Muitas vezes, o usuário digita dados sensíveis sem perceber, como nomes de clientes, casos clínicos, conflitos familiares, documentos, informações de saúde, dados escolares ou estratégias de trabalho. Antes de enviar uma informação para uma IA, pergunte se ela poderia ser compartilhada em um espaço público ou institucional. Quando a resposta for negativa, a informação precisa ser removida, anonimizada ou protegida.

Outro cuidado importante é preservar a autonomia cognitiva. A GenAI pode ajudar a organizar ideias, explicar conceitos e revisar textos, mas o uso constante para iniciar, decidir e finalizar qualquer tarefa pode reduzir oportunidades de aprendizagem independente. Na prática, isso aparece quando a pessoa sente que não consegue mais escrever sem IA, estudar sem IA, planejar sem IA ou tomar decisões sem pedir uma resposta ao chatbot. A tecnologia vira uma espécie de mediador permanente entre a pessoa e suas próprias ações.

Também é necessário observar o vínculo emocional com a tecnologia. O artigo destaca que chatbots oferecem respostas personalizadas, linguagem assertiva, fluidez conversacional e até expressões de empatia ou opinião. Essas características podem aumentar a sensação de proximidade, principalmente quando a pessoa está sozinha, ansiosa, insegura ou buscando acolhimento imediato. Isso não significa que a tecnologia seja, por si só, prejudicial. Significa que seu uso precisa ser acompanhado quando começa a substituir vínculos humanos, apoio profissional, diálogo familiar ou experiências sociais presenciais.

Na prática clínica, educacional ou familiar, podemos observar alguns sinais de alerta: aumento progressivo do tempo de uso, irritação quando a ferramenta fica indisponível, dificuldade de realizar tarefas sem IA, uso da IA para evitar conversas difíceis, compartilhamento frequente de dados sensíveis, redução de sono, queda no desempenho acadêmico ou profissional, empobrecimento de atividades offline e sensação de incapacidade sem apoio do chatbot. Esses sinais indicam a necessidade de reorganizar o uso.

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Algumas ações simples podem ajudar. A primeira é criar horários e contextos de uso. Em vez de consultar a IA o dia todo, a pessoa pode definir blocos específicos para estudo, trabalho ou revisão. A segunda é usar diários de uso, registrando quando usa, por quanto tempo, com qual finalidade e como se sente depois. A terceira é diferenciar uso produtivo de uso evitativo. Uma pergunta prática é: “A IA está me ajudando a avançar na tarefa ou está adiando uma ação que eu preciso fazer?”. A quarta é manter atividades alternativas com valor real, como leitura, interação social, exercícios, hobbies, descanso e produção autoral.

Para profissionais de saúde e educação, a recomendação é tratar a GenAI como parte da anamnese digital. Perguntas simples podem abrir boas conversas: “Você usa ferramentas de IA?”, “Em quais situações?”, “Você sente que depende delas para estudar ou trabalhar?”, “Já compartilhou informações pessoais ou de outras pessoas?”, “O uso da IA tem ajudado ou atrapalhado sua autonomia?”. Essas perguntas não partem de julgamento, mas de cuidado.

Em resumo, o uso saudável de GenAI depende de equilíbrio entre produtividade e autonomia, praticidade e privacidade, apoio tecnológico e repertórios humanos. A pergunta central não é apenas “quanto tempo eu uso IA?”, mas “que função esse uso tem na minha vida?”. Quando essa pergunta guia o uso, a inteligência artificial pode ocupar um lugar mais seguro, ético e saudável no cotidiano.

Referência

Robayo-Pinzon, O., Rojas-Berrio, S., Camargo, J. E., & Foxall, G. R. (2025). Generative artificial intelligence (GenAI) use and dependence: An approach from behavioral economics. Frontiers in Public Health, 13, Article 1634121. https://doi.org/10.3389/fpubh.2025.1634121

Como citar este artigo (APA):

Fonseca, S. A. (2026, 12 de junho). Dependência de ChatGPT? Blog do IBAChttps://ibac.com.br/dependencia-de-chatgpt/

Escrito por:

Samuel Araujo

Psicólogo (UESPI), Especialista em Gestão do Comportamento nas Organizações (OBM; iContinuum), Mestre e Doutorando em Ciências do Comportamento (UnB). Atua profissionalmente com ABA e OBM na intervenção e supervisão clínicas direcionadas às neurodiversidades. Pesquisa impulsividade e autocontrole no uso de mídias sociais, economia comportamental e análise do comportamento do consumidor.

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