
Conviver com uma doença crônica – como diabetes, HIV, câncer ou outras condições de longo prazo – é um desafio diário e não só por causa dos sintomas físicos. O sofrimento que não passa, o cansaço e a preocupação constantes, as mudanças no corpo, as idas a consultas, autogerenciamento da condição… tudo isso vai ocupando espaço na vida.
É totalmente compreensível buscar tratamentos que prometem “acabar com a dor” ou “eliminar o desconforto”. Contudo, a ciência tem nos mostrado algo importante: Ao dedicarmos toda a nossa energia apenas para tentar controlar ou evitar o que é inevitável, muitas vezes acabamos vivendo de forma mais limitada e frustrada. É nesse cenário que a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem se destacado como uma abordagem promissora.
Mudando a rota: em vez de esperar a dor passar, viver a vida enquanto ela existe
Diferente de intervenções que se concentram apenas em reduzir sintomas, a ACT propõe uma ideia simples, mas transformadora: não é preciso esperar a dor ir embora para voltar a viver. Segundo a ACT (Hayes et al., 1999; Barbosa & Murta, 2015), quando tentamos controlar, suprimir ou fugir de experiências desagradáveis – como dor, pensamentos sobre incapacidade ou emoções difíceis – acabamos dando ainda mais poder a elas. É como tentar segurar uma bola debaixo d’água: isso exige uma energia imensa e, assim que soltamos, ela volta ainda mais forte.
Em vez disso, a proposta é ajudar a pessoa a desenvolver uma espécie de flexibilidade na relação com a própria experiência; ou seja, a capacidade de continuar vivendo de acordo com o que é importante, mesmo quando o sofrimento está presente. Para tal, diferentes habilidades podem ser desenvolvidas ou reforçadas. A primeira é aprender a estar mais presente no momento, percebendo o que acontece no corpo, no ambiente e nas próprias ações, em vez de ficar preso no “e se…” ou no “como era antes da doença”. A segunda é abrir espaço para sensações e emoções desagradáveis, sem precisar lutar contra elas o tempo todo. Isso não significa “gostar” ou “desistir”, mas deixar de gastar energia tentando controlar o que não está totalmente sob nosso controle.
Outra habilidade importante é mudar a forma como nos relacionamos com pensamentos difíceis. Em vez de tratá-los como verdades absolutas (“Se vou conviver com isso para sempre, nunca vou ser realmente feliz.” ou “Como minha condição não tem cura, não adianta tentar fazer planos.”), passamos a vê-los apenas como pensamentos (que podem ser produtivos ou não). Também faz parte desse conjunto aprender a observar a própria experiência sem se confundir com ela: não somos “a doença”, “a limitação” ou “o sofrimento”, mas as pessoas que têm essas experiências.
Além disso, é fundamental esclarecer o que realmente importa para cada um, identificando as direções de vida que valem a pena seguir, como cuidar de quem amamos, cultivar amizades, buscar aprendizado ou viver com autenticidade, dentre muitas outras. E, por fim, transformar tudo isso em ações possíveis no dia a dia: pequenos passos que nos aproximam da vida que queremos, mesmo com dor, mesmo com limitações.
Na prática, isso significa aprender a caminhar com a dor, em vez de caminhar apenas se não houver dor.

O que a ciência tem mostrado?
Um dos trabalhos que apresenta dados relevantes na área é a revisão da literatura feita por Graham e colaboradores (2016), que reuniu pesquisas publicadas até 2015 envolvendo pessoas com diferentes doenças crônicas (câncer, doenças autoimunes, lesões cerebrais etc). Os pesquisadores encontraram resultados mostrando que a ACT pode contribuir para a redução do sofrimento, melhora da parentalidade de crianças com doenças crônicas, melhora do autogerenciamento da condição e do estilo de vida, aumento na flexibilidade psicológica e melhorias encorajadoras na adesão ao tratamento.
Com isso, pergunta-se porquê a ACT funciona tão bem em relação às doenças crônicas. A resposta é: Porque quem convive com dor ou doença de longa duração sofre não só pelos sintomas físicos, mas também por medo de sentir dor no futuro, cobranças internas sobre produtividade, vergonha do corpo ou da própria condição, sensação de ter perdido a própria identidade, isolamento social e/ou medo de ser um fardo.
Assim, a ACT oferece ferramentas concretas para lidar com esses sofrimentos (muitas vezes invisíveis), auxiliando no desenvolvimento de uma relação mais gentil e compassiva com o próprio corpo, menos luta contra sensações inevitáveis, mais espaço para emoções, mais contato com aspectos significativos da vida e mais ações alinhadas com o que importa. Em outras palavras: ACT não trata a doença – trata a vida da pessoa que está com a doença.
Viver apesar da dor é possível
A mensagem central da ACT é profundamente humana: Mesmo que a dor esteja presente, ainda é possível viver uma vida cheia de significado. A ciência tem mostrado que essa mudança de perspectiva – do foco no controle dos sintomas para a reconexão com valores – produz efeitos reais e duradouros no bem-estar. Pessoas com doenças crônicas não precisam esperar pela ausência de dor ou sofrimento para viver. Com apoio adequado, podemos aprender a caminhar com a dor e, o mais importante, caminhar em direção ao que realmente importa.
Referências
Barbosa, L. M., & Murta, S. G. (2015). Terapia de aceitação e compromisso: história, fundamentos, modelo e evidências. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 16(3), 34–49. https://doi.org/10.31505/rbtcc.v16i3.711
Graham, C. D., Gouick, J., Krahé, C., & Gillanders, D. (2016). A systematic review of the use of Acceptance and Commitment Therapy (ACT) in chronic disease and long-term conditions. Clinical Psychology Review, 46, 46–58. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2016.04.009
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (1999). Acceptance and Commitment Therapy: An experiential approach to behavior change. Guilford Press.
Como citar este artigo (APA):
Ferreira, Y. V. A. (2026, 05 de junho). Para além do diagnóstico: como seguir em frente quando a doença não tem cura? Blog do IBAC. https://ibac.com.br/para-alem-do-diagnostico-como-seguir-em-frente-quando-a-doenca-nao-tem-cura/
Escrito por:

Yuri Ferreira
Psicólogo mestrando em Ciências do Comportamento na Universidade de Brasília. Pós-graduado em Análise Comportamental Clínica pelo IBAC. Formação em ACT, BAT, DBT e FAP (IBAC).

