Em Manchild, Sabrina Carpenter aparece no meio de uma estrada pedindo carona para vários carros que passam. Ela pega uma carona, depois outra e mais outra. Ao longo do clipe, ela entra em diferentes veículos – alguns desconfortáveis, outros absurdos, alguns claramente perigosos; todos conduzidos por motoristas mais duvidosos ainda.
A cada nova carona, uma nova situação estranha acontece. Ainda assim, ela continua aceitando e seguindo viagem.
Enquanto isso, a letra da música fala sobre algo bastante familiar: relacionamentos com homens imaturos, que não se responsabilizam, não se cuidam e sequer conseguem oferecer o mínimo necessário para uma relação amorosa saudável.
Assistindo ao clipe, um questionamento ficou comigo: será que os fins justificam os meios? Será que vale a pena pegar qualquer carona, a qualquer custo?

Olhando com mais atenção, parece existir uma urgência em não ficar ali. Não importa muito o tipo de veículo, nem para onde exatamente ele está indo – desde que esteja em movimento, parece servir. Sabrina aceita carona em um carrinho de mercado, um jetski, um caminhão improvisado… e, em vários momentos, paga um preço alto por isso.
Não fica tão claro qual é o destino final. Mas fica muito claro que permanecer onde está não parece uma opção.
Você já passou por uma situação assim? De estar em um lugar tão ruim que qualquer alternativa parecia melhor do que ficar?
Isso até pode fazer sentido. Mas também levanta uma outra pergunta: o que está guiando essas escolhas?
Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), nós chamamos isso de valores. Eles funcionam como uma direção, uma bússola. Não dizem apenas onde queremos chegar, mas também como queremos viver enquanto estamos indo. Porque, no fim das contas, não é simplesmente sobre chegar em algum lugar, mas sim quem a gente se torna nesse caminho.
Voltando para a metáfora do clipe: se eu quero chegar em algum lugar, será que vale a pena aceitar qualquer carona e chegar lá suja, cansada, dolorida, machucada? Ou será que, às vezes, esperar um pouco mais pode significar pegar uma carona melhor?
Se eu quiser chegar com segurança, eu realmente vou querer entrar em uma poltrona sobre rodas?

Esse tipo de situação aparece em vários contextos da nossa vida. Alguém pode dizer que quer um relacionamento amoroso. Mas como esse relacionamento acontece? Com conversas maduras, leveza e troca? Ou com ciúmes, instabilidade e migalhas de afeto?
Se o objetivo for simplesmente “ter um relacionamento”, qualquer uma dessas opções serve. Agora, se o que é importante é construir algo saudável, respeitoso e recíproco, então talvez não faça sentido aceitar qualquer tipo de dinâmica – por mais disponível que ela esteja.
O clipe mostra bem esse padrão: a carona aparece, ela aceita, algo dá errado… e, ainda assim, na próxima oportunidade, o ciclo se repete.
Se nós olharmos para isso a partir de uma análise funcional, conseguimos entender um pouco melhor por que esse comportamento se mantém. Existe o contexto em que um veículo para e oferece carona. Dentro desse contexto tem uma condição importante: estar há algum tempo na estrada, possivelmente cansada, desconfortável, sozinha – o que pode significar até uma certa privação de afeto ou de movimento.
Diante disso, ela aceita a carona. No curto prazo, isso funciona. Ela sai do lugar, entra em movimento, ganha companhia, recebe algum tipo de atenção. Existe um alívio imediato em não estar mais parada. Ou seja, ela está sendo reforçada tanto positiva quanto negativamente.
Mas as consequências não param por aí. Em vários momentos, essas escolhas levam a situações difíceis: acidentes, desconforto, ambientes insalubres e experiências negativas. Mesmo com custos a longo prazo, existem ganhos imediatos. Esses ganhos aumentam a probabilidade de a cantora continuar aceitando novas caronas.
Em alguma medida, permanecer na estrada parece mais aversivo do que entrar em um carro ruim. E é aí que esse padrão pode começar a funcionar como uma forma de esquiva: evitar o desconforto de ficar, mesmo que isso leve a situações que, depois, também trazem sofrimento.

Tem um trecho da música que também chama a minha atenção:
“I like my boys playing hard to get / Eu gosto de garotos que se fazem de difícil,
And I like my men all incompetent, / E eu gosto que meus homens sejam incompetentes
And I swear they choose me, I’m not chosing them” / E eu juro que são eles que me escolhem, eu não escolho eles”
[tradução minha]
À primeira vista, até pode parecer que ela não tem responsabilidade sobre essas escolhas e que esses são os homens/caronas que aparecem na vida dela. Mas a própria frase carrega uma contradição: existe sim uma percepção de que ela também participa desse processo.
Porque, mesmo quando alguém oferece pouco, ainda existe um momento em que a gente decide se quer aceitar ou não.
E é nesse ponto que os valores fazem diferença. Eles funcionam como uma bússola que orienta a direção: isso que está sendo oferecido combina com o tipo de vida que eu quero construir? Isso também implica reconhecer algo difícil: nós participamos das escolhas que fazemos, mesmo quando escolhemos não escolher.
Quando a urgência de sair de um lugar é grande, pode ser que qualquer caminho comece a parecer suficiente – e é aí onde mora o perigo. Porque no fim, os meios que escolhemos são tão importantes quanto o destino em si.
Sugestão de Leitura
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: O processo e a prática da mudança consciente (2ª ed.). Porto Alegre: Artmed
Zilio, Diego. (2011). Algumas considerações sobre a terapia de aceitação e compromisso (ACT) e o problema dos valores. Perspectivas em Análise do Comportamento, 2(2), 159-165. https://doi.org/10.18761/perspectivas.v2i2.61
Como citar este artigo (APA):
Mendes, G. (2026, 22 de maio). Os fins justificam os meios? Uma leitura da música Manchild. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/os-fins-justificam-os-meios-uma-leitura-da-musica-manchild/

