Segurança digital também é cuidado em saúde mental. Crianças, adolescentes, adultos, idosos e famílias vivem parte importante da vida em ambientes online, e o contexto clínico precisa incluir conversas sobre privacidade, exposição, golpes, relacionamentos digitais, reputação e equilíbrio no uso das tecnologias.

A vida digital deixou de ser um espaço separado da vida cotidiana. Hoje, amizades, estudos, trabalho, lazer, compras, namoro, jogos, consumo de informações e busca por pertencimento acontecem em aplicativos, redes sociais, jogos online e grupos de mensagens. Por isso, quando um cliente chega à clínica falando de ansiedade, conflitos familiares, isolamento, irritabilidade, dificuldades escolares, impulsividade ou baixa autoestima, pode haver uma parte importante dessa história acontecendo nas telas.
Falar sobre segurança digital na prática clínica significa ajudar pessoas a desenvolverem comportamentos mais seguros nos ambientes digitais. Isso inclui proteger informações pessoais, reconhecer golpes, escolher conteúdos com mais cuidado, pedir ajuda diante de situações desconfortáveis, respeitar a privacidade dos outros, lidar com cyberbullying, organizar o tempo de uso e construir relações online mais saudáveis. A matriz da iKeepSafe organiza esse campo em competências como equilíbrio entre atividades online e offline, uso ético, privacidade, relacionamentos seguros, reputação online e segurança de dispositivos e softwares (Internet Keep Safe Coalition, 2015).
Na Análise do Comportamento, essa conversa ganha um olhar prático. O uso de tecnologias acontece em contextos com muitos estímulos e consequências: notificações chamam atenção, curtidas reforçam publicações, jogos entregam consequências imediatas e preferidas, vídeos curtos reduzem tédio, mensagens aliviam solidão e compras online podem funcionar como alívio emocional. Em vez de tratar segurança digital apenas como “orientação”, o clínico pode entendê-la como repertório: um conjunto de habilidades que precisa ser ensinado, praticado, reforçado e ajustado à realidade de cada pessoa.
Com crianças, a conversa precisa ser concreta, simples e repetida em diferentes situações. Em vez de longas explicações sobre privacidade, vale usar histórias, desenhos, brincadeiras e cartões com exemplos do cotidiano. A criança pode aprender que nome completo, endereço, escola, localização, fotos íntimas e senhas são informações que exigem ajuda de um adulto antes de serem compartilhadas. Materiais educativos para crianças pequenas recomendam o ensino de escolhas seguras na internet, privacidade, ética digital e reconhecimento de riscos por meio de atividades acessíveis, vocabulário claro e práticas de sala ou casa (Internet Keep Safe Coalition, 2021).
Com adolescentes, a conversa precisa considerar autonomia, pertencimento e reputação digital. Muitos adolescentes conhecem os riscos em nível abstrato, mas respondem a consequências sociais imediatas, como ser aceito, receber curtidas, participar de grupos e evitar exclusão. Por isso, conversas moralizantes tendem a produzir defesa e segredo. Um caminho mais produtivo é perguntar: “Que aplicativos fazem parte da sua rotina?”, “Que tipo de conteúdo te faz bem?”, “Que tipo de conteúdo te deixa pior depois?”, “O que você faria se alguém publicasse algo seu sem autorização?”. O guia da iKeepSafe para jovens do 6º ao 12º ano destaca que escolhas saudáveis de conteúdo online precisam ser ensinadas, inclusive porque a exposição a conteúdos violentos ou sexuais pode ocorrer de forma acidental ou intencional durante a adolescência (Internet Keep Safe Coalition, 2019).
Com adultos, segurança digital se conecta com trabalho, intimidade, finanças, parentalidade e saúde mental. Muitos adultos usam senhas repetidas, clicam em links com pressa, expõem conflitos nas redes, enviam documentos por aplicativos, respondem mensagens de trabalho até tarde ou fazem compras online em momentos de ansiedade. A conversa clínica pode começar por perguntas funcionais: “O que costuma acontecer antes de você passar muito tempo online?”, “Quais aplicativos aumentam comparação social ou ansiedade?”, “Você se sente seguro com suas senhas e dados bancários?”, “Que limites digitais ajudariam seus relacionamentos?”. A intervenção pode envolver revisão de privacidade, autenticação em duas etapas, organização de horários de resposta, pausa antes de postagens impulsivas e construção de alternativas offline reforçadoras.
Com idosos, o tema precisa ser tratado com respeito e sem infantilização. Muitos idosos usam WhatsApp, bancos digitais, videochamadas, redes sociais e aplicativos de compras para manter autonomia e vínculo social. O trabalho clínico pode apoiar esse repertório com treino prático: conferir pedidos financeiros por ligação, desconfiar de mensagens urgentes, evitar links suspeitos, pedir ajuda antes de enviar documentos, salvar canais oficiais de bancos e serviços, bloquear contatos suspeitos e usar autenticação em duas etapas. A meta é ampliar independência com segurança.

Com famílias, a conversa precisa sair da disputa entre liberar tudo ou proibir tudo. O Guia sobre usos de dispositivos digitais do Governo Federal destaca que o cuidado com telas deve considerar qualidade do conteúdo, contexto de uso, mediação familiar e proteção integral de crianças e adolescentes (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, 2025). Na prática, isso significa construir combinados claros: quando usar, onde usar, o que acessar e o que fazer diante de problemas. Por exemplo: celulares carregam fora do quarto à noite, refeições são momentos de conversa, jogos acontecem após atividades combinadas e qualquer conteúdo assustador, sexual, violento ou humilhante pode ser levado aos adultos sem punição automática.
A literatura sobre dependência de internet em crianças e adolescentes também enfatiza a importância da comunicação familiar, da regulação emocional e da construção de habilidades de enfrentamento. Young e Abreu (2019) apontam que conflitos familiares, baixa comunicação e dificuldades de regulação podem se relacionar ao uso problemático de internet. O programa PROTECT, voltado à prevenção e tratamento do uso problemático de internet em adolescentes, também destaca o papel de habilidades de enfrentamento, solução de problemas e regulação emocional para reduzir padrões excessivos de uso online (Lindenberg et al., 2020).
Segurança digital deve entrar na clínica como parte do cuidado integral. A pergunta clínica não é apenas “quanto tempo você fica online?”, mas também “o que acontece com você nesse ambiente?”, “quais consequências mantêm esse uso?”, “quais riscos aparecem?”, “quais habilidades precisam ser ensinadas?” e “quem pode ajudar?”. Quando essas perguntas entram no cuidado, a tecnologia deixa de ser tratada apenas como problema e passa a ser compreendida como parte concreta da vida, com riscos, possibilidades e repertórios que podem ser construídos.
Referências
Internet Keep Safe Coalition. (2015). Privacy Curriculum Matrix K-12 BEaPRO™. https://ikeepsafe.org/content/uploads/2017/08/2017iKeepSafe-Privacy-Curriculum-Matrix-K-12-BEaPRO.pdf
Internet Keep Safe Coalition. (2019). Teaching Healthy Content Choices to 6-12th Grade Youth: Leader Guide. https://ikeepsafe.org/content/uploads/2019/05/Healthy-Content-Choices-6-12-Leader-Guide.pdf
Internet Keep Safe Coalition. (2021). Faux Paw’s Cybersecurity Superstars Curriculum: Internet Safety & Online Privacy Lesson Plans Grades 1-4. https://ikeepsafe.org/faux-paws-cybersecurity-superstars-curriculum/
Lindenberg, K., Kindt, S., & Szász-Janocha, C. (2020). Internet addiction in adolescents: The PROTECT program for evidence-based prevention and treatment. Springer.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. (2025). Crianças, adolescentes e telas: Guia sobre usos de dispositivos digitais. https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/uso-de-telas-por-criancas-e-adolescentes/guia/guia-de-telas_sobre-usos-de-dispositivos-digitais_versaoweb.pdf
Young, K. S., & Abreu, C. N. de. (Orgs.). (2019). Dependência de internet em crianças e adolescentes: Fatores de risco, avaliação e tratamento. Artmed.
Como citar este artigo (APA):
Fonseca, S. A. (2026, 15 de maio). Precisamos conversar com nossos clientes sobre segurança digital. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/precisamos-conversar-com-nossos-clientes-sobre-seguranca-digital/

