Em 1984, no livro “Psicologia Social: O Homem em Movimento”, Silvia Lane fez uma precisa provocação à Análise do Comportamento: Não obstante o grande sucesso na compreensão do comportamento humano em nível individual, a teoria comportamental pouco tem a dizer sobre o porquê de, culturalmente, certas contingências de reforço serem favorecidas em detrimento de outras. Em outras palavras, não sabemos porquê um estímulo é estabelecido socialmente como reforçador. Diante dessa provocação, é necessário reconhecer que Silvia detectou um problema real, ainda que seus alvos tenham se deslocado à luz da atualidade. A limitação apontada não diz mais respeito à Análise do Comportamento enquanto teoria, mas sim aos seus grandes representantes, os behavioristas radicais.
“Não há teoria sem uma comunidade científica para elaborá-la”, poderiam argumentar leitores atentos. Diante da possível confusão que a presente argumentação pode gerar, convém uma explicação: a Análise do Comportamento não apenas possui potencial para realizar o trabalho apontado por Silvia, como isso já foi (e está sendo) feito de maneira crítica, conforme pode ser observado nos desenvolvimentos de Sigrid Glenn, B. Guerin e J. G. Holland. Por outro lado, esses trabalhos se localizam às margens da produção acadêmica. A pouca ênfase em análise cultural, em contraste com a grande produção científica focada na clínica individual, indica um baixo engajamento na comunidade analítico-comportamental. O resultado já foi apontado por Silvia: pouco se tem a dizer.

Ao pensarmos em neutralidade científica, a importância do problema se torna evidente. Quando behavioristas reconhecem a impossibilidade de neutralidade, tal desconfiança costuma se limitar ao comportamento do cientista em sua produção. O ponto cego se esconde nas contingências culturais das quais o comportamento é função: preocupados em responder perguntas, deixam escapar o porquê de perguntarem. E essas perguntas, como deveríamos já ter entendido, não surgem do vácuo. Se queremos responder Silvia com precisão e honestidade, os fatores sociais que direcionam o empreendimento científico da Análise do Comportamento deverão ser expostos.
Subindo os degraus da seleção por consequências, podemos observar coisas importantes: se a seleção de práticas culturais é estabelecida por consequências de nível também cultural, como propõe Glenn, não há razão alguma para sugerir que essa seleção seja democrática. A tensão entre grupos dominantes e dominados também faz parte do jogo das contingências sociais, de forma que os primeiros, ao terem mais recurso e capacidade de modificação contextual, impõem-se aos segundos.
Tal imposição se reflete em nossas categorias e objetivos. O caráter social do sofrimento humano dá lugar à individualização do sofrer. A Análise Funcional, uma ferramenta que poderia denunciar aquilo que há de mais adoecedor na sociedade – a exploração, o racismo, o machismo, entre outros fatores igualmente relevantes -, se tornou a base de uma tecnologia de modificação de comportamento para adaptação individual. Enquanto silenciamos nosso sofrimento, que refletem a concretude das contingências sociais aversivas, essas mesmas contingências permanecem intactas.
Em “Sobre o Behaviorismo”, B. F. Skinner afirma: “Os maiores problemas enfrentados hoje pelo mundo só poderão ser resolvidos se melhorarmos nossa compreensão sobre o comportamento humano”. Concordando com o autor, pode-se complementar: Nossa compreensão só poderá ser melhorada se assumirmos uma postura socialmente crítica. Uma Análise do Comportamento acrítica, ao acobertar as verdadeiras contingências por trás dos “maiores problemas” enfrentados pela humanidade, servirá apenas para sua manutenção.
Bibliografia
Glenn, S. S. (1988). Contingencies and metacontingencies: Toward a synthesis of behavior analysis and cultural materialism.
Guerin, B. (2020). Turning psychology into a social science.
Holland, J. G. (1978). Behaviorism: Part of the problem or part of the solution.
Lane, S. T. M., & Codo, W. (Orgs.). (1984). Psicologia social: O homem em movimento.
Martín-Baró, I. (2017). Crítica e libertação na psicologia: estudos psicossociais.
Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior.
Skinner, B. F. (1974). About behaviorism.
Como citar este artigo (APA):
Neves, G. (2026, 17 de abril). Contingências sociais críticas. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/contingencias-sociais-criticas/

