Os Mandamentos do Terapeuta Comportamental

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  • No setting terapêutico, o comportamento estará em sua complexidade: assumirá inúmeras topografias, e você precisará ir além dessas formas.
  • Analisará o contexto, o aqui e agora, mas também os eventos passados que se esvaneceram; no entanto, outros, por similaridade funcional ou física, continuarão evocando os mesmos infortúnios na vida dos clientes.
  • Ao mesmo tempo, você precisará diversificar o seu repertório, construir habilidades ou mesmo diminuir os seus déficits comportamentais, que poderão moldar o curso da terapia.
  • Se interessará pelo aquilo que é reforçador para o cliente, mesmo que seja aversivo para si mesmo.
  • O seu vocabulário, modos ou a harmonia da sua fala bailarão conforme a cena (o seu cliente). Você necessitará metamorfosear-se a cada contingência que lhe tocará.
  • Dominará diferentes tópicos e entenderá inúmeros arranjos socioculturais para tecer uma intervenção afinada às nuances culturais.
  • Compreenderá que a psicoterapia transcende o tecnicismo, pois sempre se esbarrará na vida, e isto, em nenhum tempo, se reduzirá a uma mera técnica.
  • Fará perguntas que funcionem como um excelente estímulo discriminativo, alterará estados de privação e modificará respostas para produzir novas consequências.
  • Irá arquitetar a autonomia de cada cliente que chegou até você.
  • Dará a cada um que lhe encontrar a possibilidade de escolher os seus próprios controladores, de sentir, saborear e encontrar-se na sua existência.
  • Por último, terá clareza sobre o processo terapêutico, erguerá a Ética com cada cliente que confia no seu trabalho e, principalmente, firmará um comprometimento com a ciência.

Apesar da escrita ter se iniciado em um tom poético, nela contém alguns nortes que guiarão o terapeuta comportamental em sua jornada clínica. E, ainda que o conhecimento aprofundado nos conceitos e técnicas seja basilar, precisaremos ir além dessas dimensões no setting terapêutico.

Nesses arranjos complexos de interação organismo-ambiente, define-se o comportamento através da multideterminação em seus três níveis de seleção: (1) filogênese, que se refere aos comportamentos selecionados nos ambientes ancestrais durante a evolução de uma espécie; (2) ontogênese, que são comportamentos selecionados durante as interações de um organismo com seu ambiente ao longo de sua vida; e (3) cultura, que concerne ao ambiente social em que o indivíduo está inserido e à seleção de práticas culturais ao longo da história de uma cultura (Catania, 1998; Farias, Fonseca & Nery, 2018).

No entanto, no consultório e na vida humana, esses três níveis não estarão nessa divisão didática como apresentada aqui. Fora da teoria, eles estarão mesclados, misturados e unidos em um só organismo. Seu cliente, você, nós, seremos produtos dos três níveis de seleção. Estes se manifestarão em padrões comportamentais unidos e entrelaçados entre si, indo além de uma cultura unicamente, ou da filogenia e ontogênese. A divisão didática não estará na clínica nem na vida fora da teoria.

Em meio à complexa interação entre condições genéticas e ambientais, nosso papel como terapeutas será descrever contingências e propor alternativas aos déficits e/ou excessos comportamentais que se mantêm ao longo do tempo. Para isso, precisamos ir além da aparência do comportamento, sua forma ou topografia, e nos concentrar nas variáveis que o mantêm e o controlam.

Seja um pedido de abraço durante a sessão ou uma mensagem enviada fora do horário terapêutico, não haverá respostas universais ou imutáveis sobre a adequação desses comportamentos. A análise dependerá sempre das condições que os evocam e das funções que desempenham na vida do cliente.

Estaríamos diante de alguém inassertivo, que tem dificuldades em formar vínculos, pedir ajuda ou confiar no outro? Ou de alguém cuja história de aprendizagem reforçou um padrão de esquiva por meio da demonstração de afeto? A resposta clínica, ou seja, o modo como o terapeuta deve agir, dependerá da função do comportamento, não apenas da sua forma.  

E, em meio à busca por uma compreensão, também iremos lidar com nosso próprio repertório. Temos a responsabilidade de construir um setting terapêutico em que o comportamento se manifeste, ao vivo e em cores. Os eventos passados se esvaneceram e fogem dos nossos olhos, mas os eventos presentes – o comportamento do cliente na sessão, seus relatos, suas esquivas diante de uma pergunta ou mesmo seu atraso depois de um determinado tema discutido na sessão anterior – estarão sob a nossa visão. Sobre estes, poderemos criar condições e estratégias que permitam delinear, conduzir e ofertar uma intervenção efetiva.

Ao mesmo tempo, traçaremos estratégias, como a psicoeducação, que terão inúmeras formas, como ajudar na conscientização de regras nos relacionamentos sociais, ou mitos de práticas culturais machistas que fazem parte de um relacionamento afetivo. Não importa sua forma, mas seu papel, desenvolvimento e função terapêutica. No entanto, mesmo seguindo essas colocações, sem o vínculo terapêutico não haverá espaço para a efetividade de uma intervenção.

“A relação terapêutica é, antes de tudo, uma relação pessoal. Trata-se do cliente, como pessoa, interagindo com a pessoa do profissional” (Otero, 2012, p. 200). Se esperamos mudanças em nossos clientes, invariavelmente, a aprendizagem de novos repertórios passará por experiências genuínas na relação terapêutica. Seu cliente, sua história, a confiança ou desconfiança se esbarrarão e somente serão conhecidos através da relação autêntica entre psicoterapeuta e cliente.

Nesse contexto, teremos inúmeras possibilidades interventivas na psicoterapia, que poderão assumir diversos contornos, dependendo da biografia de cada cliente. Teremos autonomia para delinear as intervenções, desde que possamos fundamentá-las na ciência. Afinal, a psicoterapia é um processo complexo que emerge de um contexto interpessoal, no qual cliente e terapeuta interagem entre si. A ausência de evidências que sustentem o nosso trabalho pode resultar em uma ação antiética, contraproducente e prejudicial à psicoterapia.

Assim, diante do que foi apresentado nos mandamentos do terapeuta comportamental, que possamos utilizar a Análise do Comportamento sob o manto da ética e da ciência, que atravessemos as barreiras da mera reprodução de protocolos clínicos. Mas que saibamos moldar intervenções que abranjam a complexidade da vida humana. E que, em cada ato terapêutico, possamos ir além de um diagnóstico topográfico, mas que sejamos instrumentos de modificação das contingências que perpetuam o sofrimento humano.

Sejamos terapeutas que enxerguem o sujeito em sua complexidade, atravessado por contextos históricos, culturais e sociais, e que, ao invés de apenas adaptar indivíduos a sistemas muitas vezes opressores, se comprometa ativamente com a construção de uma sociedade mais justa, acolhedora e saudável para todos. Afinal, não tratamos doenças, e sim pessoas – e pessoas são sempre maiores do que qualquer diagnóstico.

Leituras sugeridas:

Banaco, R. A. (1993). O impacto do atendimento sobre a pessoa do terapeuta. Temas em Psicologia. Recuperado em 26 de março de 2025, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X1993000200010&lng=pt&tlng=pt.

Otero, V. R. L. (2012). Considerações sobre valores pessoais e a prática do psicólogo clínico. Clínica analítico-comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed.

Luoma, J. B., Hayes, S. C., & Walser, R. D. (2022). Aprendendo ACT – Manual de habilidades da terapia de aceitação e compromisso para terapeutas. Novo Hamburgo: Sinopsys Editora.

Como citar este artigo (APA):

Carmo, P. H., & Nascimento, L. S. (2025, 28 de março). Os mandamentos do terapeuta comportamental. Blog do IBAChttps://ibac.com.br/os-mandamentos-do-terapeuta-comportamental/

Artigo escrito em colaboração com:

Paulo Henrique B. do Carmo

Psicólogo clínico (CRP 03/3583), supervisor clínico, professor universtário e escritor.

Escrito por:

Luana Nascimento

Graduada em Psicologia (FAT); Pós-graduanda em Análise Comportamental Clínica (IBAC); Formação em Análise do Comportamento Aplicada (FAT); Formanda em Sexualidade Clínica (CRESCER); e Integrou a participação na Revista Poliglosa sobre práticas culturais feministas (Nuremberg, Alemanha).

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