O papel do terapeuta branco em atendimentos inter-raciais

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Nos últimos anos, a influência das variáveis culturais na prática clínica tem sido cada vez mais discutida na Análise do Comportamento. O terceiro nível de seleção, o nível cultural, tornou-se um ponto central quando se pensa na atuação ética de analistas do comportamento na clínica. Por exemplo, no primeiro livro da Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) Kohlenberg e Tsai (1991) fazem um breve apontamento de como variáveis culturais, como o machismo e o racismo, podem impactar no desenvolvimento de repertórios de comportamentos interpessoais do cliente, bem como podem impactar na própria ação de terapeutas dentro da prática clínica. Ainda que a discussão seja levantada, os autores não apresentaram como essas variáveis sociais poderiam ser levadas em consideração nas análises funcionais, ou quais cuidados um terapeuta deveria ter ao atender pessoas que fazem partes de minorias sociais.

Anos depois, no livro “A Prática da Terapia Analítica Funcional” (Kanter, Tsai, & Kohlenberg, 2010), esse tema foi aprofundado, com capítulos que discutem sobre como a FAP deve ser aplicada a minorias sexuais ou sobre a integração da FAP com terapias feministas.

Ainda que esforços estejam sendo feitos nesse sentido, o “Manifesto por uma Prática Clínica Socialmente Comprometida nas Ciências do Comportamento” (Neves e cols., 2023) aponta que, na Análise Comportamental Clínica e nas Terapias Contextuais de modo geral, há pouca discussão sobre como práticas culturais influenciam o desenrolar de um caso clínico. Os autores sugerem que essa discussão deveria caminhar no sentido de operacionalizar e dar ferramentas para que as variáveis culturais possam ser incluídas nas análises individuais para gerar intervenções mais efetivas. Essa análise é desafiadora, tendo em vista que a ontogenia do cliente é de mais fácil acesso ao terapeuta do que as variáveis culturais, embora sejam os comportamentos dos indivíduos que construam as práticas culturais.

Dentre as variáveis culturais, o racismo é de grande relevância no contexto brasileiro atual. Embora a maior parte da população brasileira seja negra, Mizael e cols. (2021) apresentam indicadores que demonstram que, mesmo em condições socioeconômicas e educacionais semelhantes, pessoas negras possuem acesso mais restrito a reforçadores que pessoas brancas. O racismo no Brasil é marcado por práticas veladas, isto é, muitas vezes as contingências verbais não têm correspondência com as contingências não verbais. Ainda que se afirmem que “o racismo acabou” ou que não há qualquer tipo de diferenciação entre negros e brancos, os indicadores econômicos e sociais não deixam dúvidas que o racismo existe. Isso significa que as práticas culturais de discriminação com base na cor estão presentes no contexto brasileiro e são fruto de uma história de anos de escravização e discriminação – o que é denominado como racismo estrutural. O racismo estruturam se refere a contingências presentes em diferentes situações de poder que estruturam a sociedade de modo a preterir as pessoas negras. Dada a discrepância entre as contingências verbais e não verbais, pode ser muito difícil identificar contingências de racismo, especialmente para pessoas brancas. Isso se reflete também na clínica, onde terapeutas brancos podem não perceber o impacto do racismo na vida de seus clientes.

Como uma mulher branca, cabe a mim refletir sobre qual o meu papel quando atendo uma pessoa negra na clínica comportamental. O objetivo deste texto é provocar essa reflexão, levando em consideração o manifesto citado anteriormente: em um atendimento interracial é importante considerar como esta variável pode impactar o processo clínico, sendo que o terapeuta deve garantir uma prática antirracista.

A necessidade dessa discussão fica evidente no estudo de Gouveia e Zanello (2019). As pesquisadoras tinham como objetivo entender a visão de pessoas negras sobre processos psicoterapêuticos que haviam feito com psicólogos. Foram realizadas entrevistas com sete mulheres negras, com perguntas voltadas para a compreensão de como as questões raciais permearam o processo terapêutico.

Para as participantes, as questões ligadas à sua cor tiveram impactos de diferentes formas no processo terapêutico. É marcante como muitas das entrevistadas preferem não abordar temas relacionados a sua cor, por receio de que as terapeutas não fossem compreender as suas vivências. Para elas, apenas o fato de a terapeuta ser branca, já diminuía a chance de que assuntos relacionados a cor fossem levantados. Dessa forma, boa parte da experiência dessas mulheres ficou de fora do contexto terapêutico, até um ponto que para muitas delas foi necessária a interrupção do processo terapêutico. É importante ressaltar que as participantes relatam que os psicólogos nunca trouxeram por iniciativa própria o tema de raça para o processo terapêutico.

Uma paciente relata sobre a necessidade de ter que explicar para o terapeuta sobre situações que vivenciou que estavam relacionadas a sua raça, o que deixava a terapia cansativa, uma vez que se via no papel de ensinar e não de ter suas dores validadas e amparadas. Há o relato também de uma participante que mostra que suas tentativas de ensinar a terapeuta eram extremamente frustrantes, porque a terapeuta não demonstrava compreensão ou interesse no que ela estava dizendo.

Outros relatos indicam que as terapeutas universalizaram a experiência relatada, isto é, minimizaram o impacto que a cor das participantes tinha nas situações vividas. As terapeutas agiam como se fosse uma experiência comum a pessoas de qualquer cor ou que as experiências de racismo eram apenas imaginadas pelas suas pacientes, até mesmo inferindo “mania de perseguição”.

Para as mulheres do estudo, a terapia não foi um lugar de profundo acolhimento. Elas encontraram essa rede de apoio em grupos de roda de discussão sobre a negritude, em religiões afrocentradas ou mesmo no próprio ativismo. As participantes avaliaram todos os psicólogos despreparados para trabalhar com questões raciais, até por conta das próprias teorias psicológicas, eurocentradas, que não levam raça em consideração.

Depreende-se dessa pesquisa que cabe ao terapeuta branco, quando atender uma pessoa negra, demonstrar que a terapia é um espaço de acolhimento e validação para as vivências de racismo e violências raciais. As dificuldades do cliente em trazer voluntariamente o assunto podem ser facilmente compreendidas, tendo em vista o racismo estrutural.

Em uma análise funcional, podemos entender que o terapeuta branco assume a função de estímulo delta (que diminui a probabilidade de ocorrência de uma resposta ao sinalizar que a mesma não produzirá reforço) para relatos de vivências de racismo ou qualquer aspecto relacionado à cor. Possivelmente, na história de vida de pessoas negras houve punição ou extinção para esses relatos na presença de pessoas brancas. Em um processo de generalização operante, o terapeuta branco sinaliza a história de opressão.

É possível inferir, inclusive, que o terapeuta branco possa também eliciar respondentes aversivos no cliente. O terapeuta apresenta similaridades físicas com outras pessoas brancas que possam ter cometidos atos racistas contra o cliente, que na ocasião podem ter tido respostas respondentes de medo, tremores, ansiedade.

A extinção ou punição de relatos relacionados à cor ocorre, por exemplo, quando a terapeuta universaliza a experiência relatada e desconsidera o impacto do racismo. Isso pode ocorrer quando desconsidera a cor como um fator determinante na reprovação de um cliente em um processo seletivo. Em vez disso, busca justificativas no repertório de habilidades sociais, ignorando as possíveis barreiras raciais. Em uma situação em que uma mulher negra se queixe de que não costuma ser assumida socialmente pelos homens com quem se envolve afetivamente, o terapeuta procurar no repertório comportamental da cliente alguma explicação. Ou quando uma cliente adolescente conta que sofre bullying na escola por conta do seu cabelo ou outras características fenotípicas da negritude, pode considerar que são apenas piadas. Veja que, nesses exemplos, a terapeuta pode até tentar validar a frustração da reprovação, o sentimento de rejeição por não ser assumida ou a raiva gerada pelo bullying, mas quando o aspecto da cor é deixado de fora ocorre a universalização da experiência. Por não considerar as variáveis culturais presentes nessas contingências, acaba por invalidar o sofrimento da cliente, visto que a sua cor é uma variável determinante para os tipos de experiência que vive (Mizael e cols., 2021). Além de ser uma atitude racista, porque reproduz as contingências de racismo que o cliente sofre fora da clínica, mantendo a discrepância entre a contingência vivida e a contingência verbal.

Nesse sentido, para que o terapeuta transforme a sua função para estímulo discriminativo para os relatos relacionados a cor, pode-se abordar diretamente o assunto da cor, como perguntando ao cliente como é para ele estar em uma relação terapêutica inter-racial. É fundamental que a terapeuta reforce os relatos do cliente que tragam as experiências de racismo, reconhecendo como a cor pode ser uma variável determinante nas experiências de sofrimento relatadas.

Além disso, é dever do terapeuta compreender como o racismo estrutural permeia a saúde mental de pessoas negras. Já que a/o profissional branco jamais irá vivenciar uma experiência de discriminação racial, não será por identificação que essa empatia irá surgir. Para não repetir o erro dos terapeutas relatados na pesquisa, não se pode esperar que as clientes ensinem sobre racismo e negritude. Essa atitude transforma o espaço da terapia que deveria ser de validação e acolhimento em um espaço que irá eliciar dores e evocar comportamentos de luta. Cada terapeuta deve busca ativamente compreender o racismo na sociedade brasileira e também conhecer movimentos de valorização da cultura negra para que possa auxiliar o processo terapêutico.

Longe de esgotar esse assunto, este texto teve o objetivo de alertar terapeutas brancos sobre o risco de reproduzir contingências racistas na prática clínica e incentivar uma revisão contínua de sua atuação. A responsabilidade de construir um espaço terapêutico acolhedor e validante é do terapeuta, e isso exige comprometimento ativo no combate ao racismo estrutural.

Referências

Gouveia, M., & Zanello, V. (2019). Psicoterapia, raça e racismo no contexto brasileiro: experiências e percepções de mulheres negras. Psicologia Em Estudo, 24, e42738. https://doi.org/10.4025/psicolestud.v24i0.42738

Kanter, J. W., Tsai, M., & Kohlenberg, R. J. (2010). The Practice of Functional Analytic Psychotherapy. Springer.

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (1991). Functional Analytic Psychotherapy: Creating Intense and Curative Therapeutic Relationships. Springer.

Mizael, T. M., Bezerra de Castro, M. S. L., & Dittrich, A. (2021). Uma interpretação analítico-comportamental do colorismo e de suas implicações clínicas. Acta Comportamentalia: Revista Latina de Análisis de Comportamiento, 29(4), 65-90. https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=274571372005

Neves, A. B. V. S., Amorim, V. C., Borba, A. ., Souza, F. de ., Silveira, J. M. da, Passos, J. A. F., Nicoldi, L., & Cihon, T. (2023). Manifesto por uma Prática Clínica Socialmente Comprometida nas Ciências do Comportamento. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 053–058. https://doi.org/10.18761/vecc117122022

Como citar este artigo (APA):

Ferreira, F. F. H. (2025, 28 de fevereiro). O papel do terapeuta branco em atendimentos inter-raciais. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/o-papel-do-terapeuta-branco-em-atendimentos-inter-raciais

Escrito por:

Flávia Hauck

Supervisora em terapias comportamentais. Psicóloga e Mestre em Ciências do Comportamento pela UnB. @flaviahauckpsi

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