E se…? Os universos paralelos e o pensamento contrafactual

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O livro “O homem do castelo alto” (Man in the high castle), de Philip K. Dick, mostra como seria o mundo se a Segunda Guerra Mundial tivesse tido outros vencedores. Como seria o mundo se a Alemanha de Hitler tivesse ganho a guerra? O período de Guerra Fria teria acontecido não entre Estados Unidos e União Soviética, mas sim entre Alemanha e Japão, que simbolizariam a polarização política. Em vez de dividirem a Alemanha, é os Estados Unidos que ficaria dividido. O escritor dessa ficção, que virou uma série disponível no streaming Amazon Prime, está acostumado a pensar sobre universos distópicos. Ele também é autor de livros que inspiraram sucessos do cinema, como Minority Report e Blade Runner. Se quiser ver o trailer, ele está disponível aqui.

Cartaz da série O homem do castelo alto (Divulgação Amazon)

O que é interessante nessa e em outras distopias é a habilidade humana de imaginar como seria a vida, caso um evento se modificasse. Muitos dos nossos clientes chegam na clínica desejando terem feito algo diferente em suas vidas. Eles se perguntam com frequência “e se…?”

– E se eu não tivesse feito a faculdade de Direito (ou de Engenharia ou de Nutrição ou de Contabilidade)?

– E se eu tivesse casado com a Juliana (ou com a Mariana ou com a Cristiana)?

– E se eu tivesse ido para São Paulo (ou para a festa ou para a casa da minha mãe ou para o supermercado)?

Esse e-se assombra muita gente. É uma pergunta para a qual não se tem resposta. Porque quando as coisas mudam, todos os demais elementos mudam também. No entanto, há um sentimento de arrependimento envolvido na situação, já que a hipótese do e-se em algum momento pode ter sido considerada, mas não foi executada. Talvez essa cliente tenha, sim, pensado em fazer Engenharia, mas no final foi para a Nutrição; ou ia se casar com a Mariana, mas acabou com a Cristiana. E nessa dúvida, o e-se aparece. Como em um universo paralelo, em que podemos chegar a considerar a fantasia de viver uma vida diferente da que efetivamente aconteceu.

Esse é o chamado pensamento contrafactual, que foi estudado por muitos pesquisadores, entre os quais, Daniel Kahneman, psicólogo laureado com o Nobel de Economia em 2002. O pensamento contrafactual tenta analisar as implicações que a mudança em um dos eventos traria para os demais eventos na sequência.

Normalmente, as pessoas que se envolvem no e-se acabam considerando apenas os eventos controláveis, que parecem ser mais confortáveis ao se fazer uma avaliação. Imagine que o Sr. Souza, em um determinado dia, passou por quatro eventos que o impediram de chegar mais cedo. Uma árvore bloqueou a pista, ele esqueceu os óculos no trabalho e precisou voltar, ele teve um ataque de asma e ele parou para uma cerveja no bar antes de ir para casa. Ao chegar em casa, sua esposa estava caída no chão, vítima de um ataque cardíaco. Caso o Sr. Souza tivesse a oportunidade de refazer um dos eventos, a resposta mais provável seria a “e se eu não tivesse parado no bar?”.

Porém, um dos aspectos mais interessantes é o pensamento quase contrafactual. Eu quase me casei com a Mariana, terminei o relacionamento uma semana antes do casamento. Eu quase passei em Contabilidade, faltou um pontinho no vestibular. O Sr. Souza quase chegou a tempo de salvar a esposa. Meu time quase ganhou o jogo, mas no último minuto, o outro time fez um gol. Entramos em um universo paralelo, em que as coisas acontecem quase conforme imaginamos.

Há muitos “quases” nessa vida. E alguns clientes ficam presos no quase, imaginando todas as possibilidades em diferentes probabilidades que ocorrem. É bastante comum nós ficarmos sensibilizados quando um evento interrompe uma situação por pouco. Como com aquela pessoa que no último dia antes da aposentadoria sofre um acidente fatal, ou com a família que perdeu o voo, que acabou caindo depois.

Um dos momentos que isso também ocorre é no esporte. Se você já viu um pódio olímpico, talvez você tenha reparado que o terceiro lugar sempre está comemorando, talvez mais do que o medalhista de ouro. Mas o segundo lugar parece demonstrar sentimentos de contrariedade, de raiva ou de tristeza. Sim, porque a pessoa “quase” ganhou. E se ele/ela tivesse se esforçado/a um pouquinho mais? E se ele/ela não tivesse cometido aquele errinho mínimo?

Nas Olimpíadas de 2012, a ginasta norte-americana McKayla Maroney ficou bem chateada com a sua medalha de prata. Provavelmente não com a medalha em si, mas com seu próprio desempenho. Ela deve ter pensado em vários “e se” e vários “quases”. A imagem da McKayla no podium viralizou e ela talvez tenha ficado mais famosa que a campeã.

Imagem de Welcome to All ! ツ por Pixabay

Das muitas questões que poderiam ser trabalhadas em consultório sobre o pensamento contrafactual, uma das possibilidades é a de que não sabemos o que vem pela frente. É como um filme de suspense, que depois que chega ao final, o assassino se torna óbvio. Porém, não há como saber na primeira cena. A vida é meio vivida no escuro e o universo paralelo não existe.

Voltar ao presente, lidando com a aceitação do momento e da nossa própria falibilidade, parece ser fundamental.

Para complementar, veja o resumo que o canal Minutos Psíquicos faz sobre o tema:

Para saber mais:

Epstude, K., & Roese, N. J. (2008). The functional theory of counterfactual thinking. Personality and social psychology review12(2), 168-192.

Kahneman, D., & Varey, C. A. (1990). Propensities and counterfactuals: The loser that almost won. Journal of Personality and Social Psychology, 59(6), 1101.

McCloy, R., & Byrne, R. M. (2000). Counterfactual thinking about controllable events. Memory & Cognition, 28(6), 1071-1078.

Medvec, V. H., Madey, S. F., & Gilovich, T. (1995). When less is more: counterfactual thinking and satisfaction among Olympic medalists. Journal of personality and social psychology, 69(4), 603.

Roese, N. J., & Epstude, K. (2017). The functional theory of counterfactual thinking: New evidence, new challenges, new insights. In Advances in experimental social psychology (Vol. 56, pp. 1-79). Academic Press.

Escrito por:

Patrícia Luque

Supervisora de Estágio no IBAC. Psicóloga clínica. Doutora em Ciências do Comportamento e Mestre em Psicologia pela UnB

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