“Meu pensamento causa o que acabei de fazer?” Uma conversa sobre inferência de causalidade e suas limitações

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Em conversas cotidianas muito facilmente tendemos a justificar nossas ações com base no que estávamos pensando no exato momento da ação: “Ah, pensei em você e resolvi te ligar”, “Não consegui parar de pensar em tomar algo gelado, nesse dia ensolarado, e acabei correndo para comprar um sorvete no mercado mais próximo”, “penso constantemente em comprar, não consigo parar de pensar … por isso vivo endividado e ainda comprando bastante”.  Essas e outras verbalizações podem ser ouvidas com certa constância, porém, não significa que se tratam de descrições precisas da relação funcional que possa haver entre os eventos destacados nelas.

Talvez um dos primeiros pontos que explicita a restrição da avaliação nesses casos é a referência aos pensamentos como se constituíssem um evento de natureza distinta das demais ações emitidas pelos indivíduos. Uma importante contribuição do Behaviorismo Radical consiste na apresentação de uma visão de mundo que não faz distinção ontológica (sobre a constituição e natureza do que existe no mundo) entre pensamento e demais comportamentos publicamente observáveis (Skinner, 1953). Nessa visão, nossos pensamentos (ou especificamente, o pensar) são comportamentos, assim como o são os demais comportamentos ocorridos ao longo do dia, sejam esses comportamentos qualificados como público ou como privado.

Dentro da lógica do paradigma operante, tratar pensamentos como operantes significa que também avaliamos sua ocorrência “em função” do que ocorre no ambiente. Fiz um destaque na função para direcionar os holofotes para o tópico central da pergunta que está no título. O pensar, operante como qualquer outro, ocorre em função de determinados eventos que, historicamente, selecionaram sistematicamente sua emissão. Quero portanto deixar claro que parto da proposta de Skinner ao considerar o pensar como comportamento verbal (portanto, um operante). O autor afirma que “…pensamento é simplesmente comportamento” (Skinner, 1957, p.449) e, com isso, demarca uma forma de abordagem desse fenômeno que social e historicamente nomeamos como pensamento, para ser lido sob viés da ciência comportamental.

A partir dessa proposta, abre-se espaço, por exemplo, para identificar os diferentes casos em que relatamos (ou não) o pensar e sua correspondência (ou não) com o que estamos realizando ao longo do dia, tentando destacar qual a função (evento ambiental) que controla a frequência do pensar e de sua correspondência entre o que estamos fazendo. O pensar não é visto como causa iniciadora, embora possa estar sob função de estímulos antecedentes, assim como pode fazer parte do controle discriminativo estabelecido, junto de outras respostas, ao longo de uma cadeia comportamental (Moore, 2000). Curiosamente, esse tem sido o interesse de alguns pesquisadores da área de estudo sobre o comportamento verbal ao tentarem identificar quão correspondentes são os comportamentos de dizer-fazer e as mais diferentes relações entre comportamento não verbal e verbal, em que o pensar, como relato, possa ser um dos elos da cadeia (Beckert, 2005; Lima & Abreu-Rodrigues, 2010; Serrador-Diez e cols., 2021).  

Sem considerar que pode haver eventos que controlam a ocorrência do pensar, um operante verbal, a identificação de coincidência temporal entre o pensar e outros comportamentos pode ser contígua o suficiente para supormos errônea e antecipadamente uma relação de dependência entre esses comportamentos. Quantas vezes tivemos a impressão que parece haver relação causal necessária entre eventos pela simples proximidade entre eles? Seria esse o mesmo erro que incorremos quando pensamos na possibilidade do pensamento determinar outras respostas? Além dessas indagações prévias, seria interessante considerar também que frequentemente pensamos e não necessariamente emitimos alguma resposta publicamente observável condizente com o pensamento. Eu arriscaria dizer que na maior parte do dia é exatamente isso que está ocorrendo. Dessa forma, o que nos faz imaginar que um dado pensar, por ocorrer próximo de uma outra ação realizada, adquire status de evento determinante?

A falácia da causalidade foi explicitada por David Hume, um filósofo britânico, que implantou a dúvida sobre a inferência causal necessária quando observamos a simples contiguidade entre dois eventos na natureza (Gomes, 2019). Essa crítica do filósofo, no contexto do que estamos discutindo sobre a relação entre operantes (pensamento, comportamento verbal e outros operantes) nos coloca, mais uma vez, diante da avaliação errônea e limitada ao atribuir relação causal entre dois eventos quando não há esse tipo de relação entre eles.

O fato de dois eventos ocorrerem próximos no tempo, e o fato de serem correlacionados (ligados temporalmente), não significa que um causa o outro. Apenas imagine o tanto de coisas  que ocorrem de maneira temporalmente (e até fisicamente) próxima ao que você está fazendo nesse exato momento em que você está lendo esse texto (e.g., um vizinho tocando saxofone, alguém colocando o carro na vaga do estacionamento do prédio, o som de crianças brincando no pátio, o cheiro peculiar do jantar sendo preparado na cozinha). Possivelmente, nenhum desses eventos tem relação direta com seu comportamento atual e dificilmente diríamos que esses eventos causam seu comportamento pelo simples fato de ocorrerem próximos no tempo.

Indo mais além na análise, uma infinidade de pensamentos podem ocorrer durante e ao longo da leitura. Tais pensamentos podem ser os mais variados possíveis, dentro e fora do tema do que estamos aqui discutindo e, não necessariamente tais pensamentos estão causando seu comportamento de ler. Com isso, parece que seria mais coerente considerar que tanto o comportamento de leitura, como os outros operantes verbais que chamamos de pensamento,  são função das contingências em vigor. Portanto, podemos arriscar um pouco mais e relembrar que correlações não exibem causas, muito menos relações funcionais.

O físico Leonard Mlodinow, no livro “O andar do bêbado”, apresenta de forma descontraída o que seria uma revisão contemporânea da crítica humeana à inferência de causalidade. Ele faz isso discutindo teorias sobre aleatoriedade, usando uma linguagem acessível para apresentar leis matemáticas da probabilidade. Nessa obra, o autor tenta explicitar sua visão sobre como nós (humanidade) ainda somos pouco preparados para lidar com a ampla variabilidade dos eventos. Eu entendo a crítica de Mlodinow como uma forma moderna de sugerir que, por termos uma (suposta) tendência a inferir causalidade entre eventos meramente próximos, dificilmente compreenderemos que, em uma boa parcela da nossa história, não estaremos atentamos para quão errôneas são tais conclusões.

Mlodinow (2011) destaca um evento que agrupou diferentes respostas, explicitadas nas grandes mídias, que traduzem isso que estamos enfatizando sobre as limitações da inferência de causalidade. Ele destaca a trajetória de Sherry Lansing, ex-diretora da Paramount, uma grande produtora internacional de filmes. Lansing esteve à frente do estúdio em uma época de ouro da empresa, reconhecida pela publicação de obras cinematográficas clássicas, como Forrest Gump, Coração Valente e Titanic. Logo após, nos últimos 6 anos de diretoria da Lasing, a Paramount passou por um período com seguidas baixas da parcela do mercado ocupado pela empresa. Isso resultou na demissão de Lansing e na contratação de um novo diretor (B). Na temporada seguinte, após a entrada do novo diretor, o estúdio teve o período mais lucrativo da década e voltou a ocupar a fatia de mercado dos “tempos áureos” de Lansing.

Olhando de perto esse episódio destacado por Mlodinow (2011), temos uma sequência interessante de eventos que nos levaria a conclusão de que o novo diretor (B), com sua ocupação do cargo e medidas de gestão, houve a produção de um resultado importante de recuperação econômica da Paramount. Um resultado que foi amplamente comentado por críticos de diferentes áreas, ressaltadas em programas de TV e em revistas da época. Essa mesma inferência de causalidade, diretor B -> sucesso econômico, seria plausível se, tal como destacou o autor, as obras publicadas no versão de sucesso após a saída de Lansing já não estivessem “no forno” e prontas para sair na próxima temporada de filmes, com ou sem a saída de Lansing do cargo. Ou seja, o resultado observado na gestão do diretor B não parece ter uma relação causal importante, tal como vista, superficialmente.

Saindo um pouco da apreciação de eventos no mundo hollywoodiano e retornando as limitações da inferência de causalidade, ao tomar como base todas as considerações em destaque até aqui, acho que podemos responder à pergunta do título informando que “não”, nossos comportamentos não são causados pelos pensamentos, embora eu concorde que seja uma análise intensamente tentadora. Cotidianamente, em uma conversa de bar, em qualquer ambiente que não seja profissional, atribuição de causa ao pensamento (uma tendência tradicionalmente mentalista) é frequente e comum pelo simples fato de estarmos inseridos em uma cultura e de fazermos uso de dialetos na nossa comunidade verbal que são amplamente mentalistas. Quando aciono uma análise contextual e histórica sobre esse aspecto eu faço com o objetivo de destacar o quão comum é a ocorrência desse tipo de inferência causal e, ao mesmo tempo, de enfatizar o árduo trabalho que temos ao longo da realização de nossas ‘análises funcionais de cada dia’. 

Referências

Beckert, M. E. (2005). Correspondência verbal-não verbal: Pesquisa básica e aplicações na clínica. In J. Abreu-Rodrigues & M. R. Ribeiro (Organizadores), Análise do comportamento: Pesquisa, teoria e aplicação (229–244). Porto Alegre, Brasil: Artmed.

Gomes, E. R. (2019). A contribuição do ocasionalismo de Nicolas Malebranche para a crítica à causalidade de David Hume. Dois pontos: Revista dos Departamentos de Filosofia da Universidade do Paraná e da Universidade Federal de São Carlos, 16(3), 1-19.

Lima, E. L. & Abreu-Rodrigues, J. A. (2010) Verbal Mediating Responses: effects of generalization of say-do correspondence and noncorrespondence. Journal of Applied Behavior Analysis, 43 (3),  411-424.

Moore, J. (2000). Thinking about thinking and feeling about feeling. The behavior analyst, 23(1), 45-56.

Mlodinow, L. O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

Serrador-Diez, C.; Rueda, C. O.; Froxán-Parga, M. X., & López, P. C. (2021). Time delay in the acquisition of verbal correspondence in adults: an exploratory study. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 17 (2), 219-228.

Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. New York: The MacMillan Company. 

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Escrito por:

Ítalo Teixeira

Bacharel em Filosofia e Psicologia. Mestre em Ciências do Comportamento

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