Você muda quando a relação muda

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Uma leitura analítico-comportamental da relação terapêutica como contexto de transformação na Psicoterapia Analítica Funcional.

Fonte: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/mulher-vestindo-jaqueta-cinza-F9DFuJoS9EU

A Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), desenvolvida por Robert Kohlenberg e Mavis Tsai nos anos 1990, propõe uma ampliação radical do papel da relação terapêutica na clínica analítico-comportamental. Em contraste com intervenções predominantemente descritivas, instrutivas ou psicoeducativas, a FAP concebe a relação entre terapeuta e cliente como um contexto privilegiado de ocorrência e modificação de comportamentos clinicamente relevantes. O que cura, segundo essa perspectiva, não é apenas o insight verbal, mas a contingência relacional vivida na sessão.

Do ponto de vista da análise funcional, os padrões de comportamento que o cliente apresenta no cotidiano — sejam eles de evitação, agressividade, submissão ou retraimento — tendem a emergir também na interação com o terapeuta. Essa recorrência não é vista como uma resistência ou obstáculo, mas como uma oportunidade clínica fundamental. Os terapeutas treinados em FAP são encorajados a observar com atenção os comportamentos que emergem na sessão, classificando-os funcionalmente como CCRs (comportamentos clinicamente relevantes), e a responder a eles de forma planejada, reforçando mudanças desejadas.

A FAP parte do princípio de que comportamentos interpessoais problemáticos não são apenas conteúdos verbais a serem discutidos, mas classes comportamentais que podem ser evocados, modelados e reforçados dentro da própria relação terapêutica. Em outras palavras, a sessão se torna um “microambiente social” em que o terapeuta observa os padrões relacionais do cliente à medida que estes ocorrem, intervindo diretamente neles com base em seus efeitos funcionais.

Esse enquadre técnico-clínico se ancora em dois conceitos fundamentais: os CCRs e os Ts.

  • CCR1 (comportamento clinicamente relevante do tipo 1): comportamentos-problema que ocorrem na sessão e que reproduzem padrões disfuncionais do cliente.
  • CCR2: instâncias de melhora ou aproximações de repertórios mais funcionais que também ocorrem na sessão.
  • T: comportamentos do terapeuta que têm como função evocar, reforçar ou modular os CRBs, promovendo novos padrões relacionais.

Um exemplo: um cliente com histórico de abandono pode relutar em se mostrar vulnerável com o terapeuta, evitando expressar desconfortos ou discordâncias. Ao observar esse padrão (CCR1), o terapeuta pode criar condições para evocar uma resposta nova (por exemplo, expressar uma necessidade de forma mais direta), e, quando isso ocorre, reforçá-la com responsividade, acolhimento e validação (CCR2). Esse processo, embora simples na forma, envolve um alto grau de sensibilidade clínica, discriminação funcional e manejo ético das próprias respostas do terapeuta (Ts).

A mudança, nesse contexto, é compreendida como o produto de um processo de reforçamento diferencial vivido na relação. O cliente aprende, por experiência direta, que agir de forma mais autêntica e vulnerável pode produzir consequências mais adaptativas — ao menos dentro da relação terapêutica. Com o tempo, mediante reforçamento sistemático e intervenções adicionais como interpretações e prescrição de tarefas de casa, essas novas formas de se comportar tendem a se generalizar para outros contextos.

Em termos conceituais, a FAP se fundamenta na análise de contingências em tempo real e na concepção do comportamento verbal como ação — e não apenas como representação. As palavras do cliente não são tratadas como descrições de uma verdade interior, mas como comportamentos que têm efeitos no ambiente, inclusive no terapeuta. Por isso, a resposta do terapeuta — com sua atenção, silêncio, perguntas ou expressões afetivas — é parte ativa da intervenção.

Além disso, a FAP se ancora na ideia de que a mudança clínica é facilitada pela intensidade emocional da relação. Quando o vínculo entre terapeuta e cliente é autêntico, recíproco e responsivo, cria-se um contexto relacional propício para a ocorrência de novos repertórios. Essa ideia é consistente com pesquisas contemporâneas sobre a importância dos fatores relacionais na psicoterapia, bem como com abordagens baseadas em mindfulness e consciência funcional.

Por fim, é importante sublinhar que a FAP não propõe uma “abertura emocional indiscriminada” por parte do terapeuta, nem confunde responsividade com informalidade. Pelo contrário: ela exige alto nível de precisão técnica, discriminação funcional e ética clínica. O terapeuta que trabalha com FAP não apenas sente, mas analisa suas próprias reações e as utiliza de maneira estratégica para favorecer o desenvolvimento do cliente.

Em síntese, na FAP, não é apenas o que se diz que importa, mas como se vive a relação. A mudança comportamental é promovida quando o cliente experimenta, de forma real, a possibilidade de se comportar de maneira diferente e, ainda assim, manter o vínculo. Como consequência, a relação terapêutica se torna não apenas um meio para falar sobre mudanças, mas um contexto ativo de transformação.

Bibliografia

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (1991). Functional Analytic Psychotherapy: A guide for creating intense and curative therapeutic relationships. Springer.

Como citar este artigo (APA):

Xavier, R. N. (2025, 13 de junho). Você muda quando a relação muda: Uma leitura analítico-comportamental da relação terapêutica como contexto de transformação na Psicoterapia Analítica Funcional. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/voce-muda-quando-a-relacao-muda/

Escrito por:

Rodrigo Xavier

Psicólogo (UFMS) e psicoterapeuta, Doutor em Psicologia Clinica (USP) com estágio sanduíche na University of Washington sob os cuidados dos Ph.D. Robert Kohlenberg, Mavis Tsai e Johnatan Kanter. Treinador certificado de FAP desde 2021. Líder de encontros do Projeto Global Viva com Consciência, Coragem e Amor desde 2018. Professor nos cursos de Formação em FAP e Terapia Analítico-Comportamental Infantil do IBAC.

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