Van Gogh e a junção de uma série de pequenas coisas

Compartilhe este post

Verger avec cyprès, 1888 (Trad: Orquidário com ciprestes). Fonte: Vincent van Gogh, domínio público, via Wikimedia Commons

Vincent van Gogh não pintava apenas o que via. Ele pintava o que sentia, de forma intensa, para transformar, com pinceladas breves e bruscas, uma tela em branco na paisagem que assistia diante de si. Assim como o tempo que passava rápido e transformava seu cenário a cada segundo, ele deixava sua marca na tela com euforia, com a necessidade urgente de pintar. Em seus curtos 37 anos de vida (1853-1890), ele deixou mais de 2000 obras. Dessas, vendeu apenas um quadro em vida. Após sua morte, veio o sucesso. Uma de suas obras (Verger avec cyprès,1888) foi vendida em 2022 por US$ 117 milhões, um recorde no mundo das artes.

Se ele estivesse vivo hoje, certamente ele estaria em terapia. Durante sua curta vida, ele foi internado no sanatório de Saint-Rémy por um ano, depois de diversas hospitalizações, em razão de sua saúde mental. Em 2020, um estudo analisou possíveis diagnósticos para ele, a partir das mais de 900 cartas que ele escreveu, principalmente para seu irmão Theo: transtorno afetivo bipolar, traços de personalidade borderline, desnutrição, abuso de substâncias como álcool e tabaco, episódios depressivos com características psicóticas, epilepsia. Ou seja, a vida não era fácil e van Gogh sofria.

E lá, da janela do seu quarto em Saint-Rémy, ele pintava. Talvez para passar o tempo mais rápido, talvez para congelar a duração daquele instante. Internado, isolado e depressivo, ele vivia e pintava cada momento, buscando dar sentido e beleza à vida, mesmo em meio à dor e sofrimento.

Campo de Trigo com ciprestes, 1889. Fonte: Vincent van Gogh, domínio público, via Wikimedia Commons

Cada um de seus quadros era feito por milhares de pinceladas densas, visíveis e expressivas. Uma pincelada por vez, que no todo, formavam um panorama vivo. Cores fortes se misturavam para dar textura e profundidade. A direção das pinceladas gerava movimento na tela. Van Gogh convidava o espectador a entrar no quadro e experimentar o que ele via quando concebeu aquela imagem.

Assim como as obras de van Gogh, a vida também é uma sequência de pinceladas, uma sequência de momentos significativos, que se juntam para formar um todo maior, mais interessante.

E podemos enxergar a vida sob a ótica das pinceladas ou sob a ótica do quadro completo.

Podemos ter essas duas perspectivas: uma molecular, que analisa cada pedaço, que avalia aquela resposta naquele ato momentâneo; ou podemos adotar uma análise global, molar, que analisa a vida e o comportamento em uma atividade contínua, na extensão no tempo. Digamos que o molecular é um passo, e o molar é a meia maratona que tanta gente está correndo ultimamente.

Imagem gerada no ChatGPT com prompt da autora

Para William Baum, nossa análise deveria se pautar no molar. Porque todo comportamento constitui uma escolha, com diversas alternativas disponíveis. E se avaliarmos apenas um fragmento, não teremos o todo.

Por exemplo, se uma pessoa está diante de uma porta fechada com a mão na maçaneta, você diria que ela está abrindo ou fechando a porta? Para responder essa pergunta, você precisará assistir um pouquinho dessa cena e esperar o que acontece depois. Se a pessoa se vira e vai embora ou se a porta se abre.

Imagem gerada no ChatGPT com prompt da autora

Parecido com Baum, D. Kahneman e J. Riis também defendem que podemos ter duas perspectivas sobre a vida, quase que dois selves. Temos um Eu Experiencial (parecido com o eu observador da ACT) e um Eu da Memória. O Eu Experiencial vive a vida a cada instante. Esse Eu observa, aprecia e se comporta em momentos, em uma sucessão de instantes que desaparecem. Nesse Eu fazemos análises moleculares, de respostas pontuais.

Já o Eu da Memória se lembra e avalia, faz julgamentos globais, em retrospecto, integra as vivências e fica, portanto, também mais sujeito a algumas distorções. Esse Eu não avalia tudo de uma única vez com um único peso. Ele também agrega textura e profundidade para certos eventos; ele pesa, reorganiza, seleciona alguns momentos para trazer à tona e descarta alguns outros. Por exemplo: um final ruim de um episódio pode arruinar toda a temporada da série; um último acorde desafinado de uma orquestra pode estragar a experiência da apresentação. Suas férias na praia podem ter sido ótimas, mas se chover no último dia, a frustração vai ser maior do que se chover no primeiro dia.

No quadro da nossa vida, nem todas as pinceladas terão o mesmo peso. Muitos traços da experiência real vão desaparecer na pintura final. O que permanece são alguns pontos chave, que darão sentido ao todo.

É isso que nossos clientes vão trazer na clínica. Às vezes muita ênfase nas pinceladas, e às vezes o quadro com uma avaliação global. Cabe a nós, analistas do comportamento, entender o padrão estendido no tempo, vendo a paisagem, mesmo que nossos clientes queiram enfatizar uma ou duas pinceladas que saíram do padrão. Nosso comportamento é maior que os momentos isolados, e envolve os padrões que se constroem, como eles se organizam, são observados e lembrados. E há muitas implicações para na clínica a partir desse ponto: autocontrole, disciplina, autoexigência e perfeccionismo….

Kahneman diz que cada momento é um intervalo que dura 3 segundos, suficientes para você se atentar ao que está acontecendo. No final de um dia você deve ter tido cerca de 20 mil momentos; no final de um ano, 7 milhões.

Agora que 2025 se encerrou, o que vai ter marcado sua jornada? Espero que você consiga ver tanto as pinceladas, quanto a paisagem mostrada no quadro maior.

Grandes coisas são feitas por uma série que pequenas coisas reunidas.

– Vincent Van Gogh

Autoretrato,1889. Fonte: Vincent van Gogh, domínio público via National Gallery of Arts

Para saber mais

Vincent van Gogh: my story: https://youtu.be/3q5fuVFWe0Q?si=Agf0md077i0pm78a

Obras de Vincent van Gogh: https://artsandculture.google.com/entity/vincent-van-gogh/m07_m2?hl=pt

Baum W. M. (2004). Molar and molecular views of choice. Behavioural processes66(3), 349–359. https://doi.org/10.1016/j.beproc.2004.03.013

Baum W. M. (2013). What Counts as Behavior? The Molar Multiscale View. The Behavior analyst36(2), 283–293. https://doi.org/10.1007/BF03392315

Kahneman, D. & Riis, J. (2005). Living and Thinking about It: Two Perspectives on Life. In The Science of Well-Being, edited by N. Baylis, Felicia A. Huppert, and B. Keverne, 285–301. Oxford University Press.

Nolen, W.A., van Meekeren, E., Voskuil, P. & van Tilburg W. (2020). New vision on the mental problems of Vincent van Gogh; results from a bottom-up approach using (semi-)structured diagnostic interviews. International Journal of Bipolar Disorders, 8, 30. https://doi.org/10.1186/s40345-020-00196-z

Como citar (APA):

Luque, P. (2026, 9 de janeiro). Van Gogh e a junção de uma série de pequenas coisas. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/van-gogh-e-a-juncao-de-uma-serie-de-pequenas-coisas

Escrito por:

Patrícia Luque

Supervisora de Estágio no IBAC. Psicóloga clínica. Doutora em Ciências do Comportamento e Mestre em Psicologia pela UnB

Inscreva-se em nossa Newsletter

Receba nossas atualizações

Comentários

Posts recentes

Atendimento via WhatsApp

Obrigado pelo feedback

Sua opnião é muito importante para nós!