
Vincent van Gogh não pintava apenas o que via. Ele pintava o que sentia, de forma intensa, para transformar, com pinceladas breves e bruscas, uma tela em branco na paisagem que assistia diante de si. Assim como o tempo que passava rápido e transformava seu cenário a cada segundo, ele deixava sua marca na tela com euforia, com a necessidade urgente de pintar. Em seus curtos 37 anos de vida (1853-1890), ele deixou mais de 2000 obras. Dessas, vendeu apenas um quadro em vida. Após sua morte, veio o sucesso. Uma de suas obras (Verger avec cyprès,1888) foi vendida em 2022 por US$ 117 milhões, um recorde no mundo das artes.
Se ele estivesse vivo hoje, certamente ele estaria em terapia. Durante sua curta vida, ele foi internado no sanatório de Saint-Rémy por um ano, depois de diversas hospitalizações, em razão de sua saúde mental. Em 2020, um estudo analisou possíveis diagnósticos para ele, a partir das mais de 900 cartas que ele escreveu, principalmente para seu irmão Theo: transtorno afetivo bipolar, traços de personalidade borderline, desnutrição, abuso de substâncias como álcool e tabaco, episódios depressivos com características psicóticas, epilepsia. Ou seja, a vida não era fácil e van Gogh sofria.
E lá, da janela do seu quarto em Saint-Rémy, ele pintava. Talvez para passar o tempo mais rápido, talvez para congelar a duração daquele instante. Internado, isolado e depressivo, ele vivia e pintava cada momento, buscando dar sentido e beleza à vida, mesmo em meio à dor e sofrimento.

Cada um de seus quadros era feito por milhares de pinceladas densas, visíveis e expressivas. Uma pincelada por vez, que no todo, formavam um panorama vivo. Cores fortes se misturavam para dar textura e profundidade. A direção das pinceladas gerava movimento na tela. Van Gogh convidava o espectador a entrar no quadro e experimentar o que ele via quando concebeu aquela imagem.
Assim como as obras de van Gogh, a vida também é uma sequência de pinceladas, uma sequência de momentos significativos, que se juntam para formar um todo maior, mais interessante.
E podemos enxergar a vida sob a ótica das pinceladas ou sob a ótica do quadro completo.
Podemos ter essas duas perspectivas: uma molecular, que analisa cada pedaço, que avalia aquela resposta naquele ato momentâneo; ou podemos adotar uma análise global, molar, que analisa a vida e o comportamento em uma atividade contínua, na extensão no tempo. Digamos que o molecular é um passo, e o molar é a meia maratona que tanta gente está correndo ultimamente.

Para William Baum, nossa análise deveria se pautar no molar. Porque todo comportamento constitui uma escolha, com diversas alternativas disponíveis. E se avaliarmos apenas um fragmento, não teremos o todo.
Por exemplo, se uma pessoa está diante de uma porta fechada com a mão na maçaneta, você diria que ela está abrindo ou fechando a porta? Para responder essa pergunta, você precisará assistir um pouquinho dessa cena e esperar o que acontece depois. Se a pessoa se vira e vai embora ou se a porta se abre.

Parecido com Baum, D. Kahneman e J. Riis também defendem que podemos ter duas perspectivas sobre a vida, quase que dois selves. Temos um Eu Experiencial (parecido com o eu observador da ACT) e um Eu da Memória. O Eu Experiencial vive a vida a cada instante. Esse Eu observa, aprecia e se comporta em momentos, em uma sucessão de instantes que desaparecem. Nesse Eu fazemos análises moleculares, de respostas pontuais.
Já o Eu da Memória se lembra e avalia, faz julgamentos globais, em retrospecto, integra as vivências e fica, portanto, também mais sujeito a algumas distorções. Esse Eu não avalia tudo de uma única vez com um único peso. Ele também agrega textura e profundidade para certos eventos; ele pesa, reorganiza, seleciona alguns momentos para trazer à tona e descarta alguns outros. Por exemplo: um final ruim de um episódio pode arruinar toda a temporada da série; um último acorde desafinado de uma orquestra pode estragar a experiência da apresentação. Suas férias na praia podem ter sido ótimas, mas se chover no último dia, a frustração vai ser maior do que se chover no primeiro dia.
No quadro da nossa vida, nem todas as pinceladas terão o mesmo peso. Muitos traços da experiência real vão desaparecer na pintura final. O que permanece são alguns pontos chave, que darão sentido ao todo.
É isso que nossos clientes vão trazer na clínica. Às vezes muita ênfase nas pinceladas, e às vezes o quadro com uma avaliação global. Cabe a nós, analistas do comportamento, entender o padrão estendido no tempo, vendo a paisagem, mesmo que nossos clientes queiram enfatizar uma ou duas pinceladas que saíram do padrão. Nosso comportamento é maior que os momentos isolados, e envolve os padrões que se constroem, como eles se organizam, são observados e lembrados. E há muitas implicações para na clínica a partir desse ponto: autocontrole, disciplina, autoexigência e perfeccionismo….
Kahneman diz que cada momento é um intervalo que dura 3 segundos, suficientes para você se atentar ao que está acontecendo. No final de um dia você deve ter tido cerca de 20 mil momentos; no final de um ano, 7 milhões.
Agora que 2025 se encerrou, o que vai ter marcado sua jornada? Espero que você consiga ver tanto as pinceladas, quanto a paisagem mostrada no quadro maior.
Grandes coisas são feitas por uma série que pequenas coisas reunidas.
– Vincent Van Gogh

Para saber mais
Vincent van Gogh: my story: https://youtu.be/3q5fuVFWe0Q?si=Agf0md077i0pm78a
Obras de Vincent van Gogh: https://artsandculture.google.com/entity/vincent-van-gogh/m07_m2?hl=pt
Baum W. M. (2004). Molar and molecular views of choice. Behavioural processes, 66(3), 349–359. https://doi.org/10.1016/j.beproc.2004.03.013
Baum W. M. (2013). What Counts as Behavior? The Molar Multiscale View. The Behavior analyst, 36(2), 283–293. https://doi.org/10.1007/BF03392315
Kahneman, D. & Riis, J. (2005). Living and Thinking about It: Two Perspectives on Life. In The Science of Well-Being, edited by N. Baylis, Felicia A. Huppert, and B. Keverne, 285–301. Oxford University Press.
Nolen, W.A., van Meekeren, E., Voskuil, P. & van Tilburg W. (2020). New vision on the mental problems of Vincent van Gogh; results from a bottom-up approach using (semi-)structured diagnostic interviews. International Journal of Bipolar Disorders, 8, 30. https://doi.org/10.1186/s40345-020-00196-z
Como citar (APA):
Luque, P. (2026, 9 de janeiro). Van Gogh e a junção de uma série de pequenas coisas. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/van-gogh-e-a-juncao-de-uma-serie-de-pequenas-coisas

