Como a Gestão do Comportamento nas Organizações (OBM) pode auxiliar nossa prática clínica?

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Se você atua em serviços clínicos de ABA e já enfrentou desafios com treinamento, supervisão, rotatividade de equipe ou implementação de protocolos, a OBM pode ser uma aliada essencial. Entenda como a Análise do Comportamento Organizacional pode transformar a qualidade e a consistência do cuidado prestado.

Quando falamos em Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis), é comum pensarmos em intervenções individuais para pessoas com autismo ou outras condições do neurodesenvolvimento. Mas, por trás de cada atendimento, existe uma equipe, uma rotina, processos, metas e desafios que exigem organização, supervisão e avaliação constante. É aqui que entra a OBM Organizational Behavior Management, ou Gestão do Comportamento nas Orgazanizações.

A OBM é uma subdisciplina da ABA que aplica os princípios da análise do comportamento à gestão de desempenho em organizações. Embora tenha nascido no setor industrial, hoje já é amplamente utilizada em serviços de saúde, educação e, especialmente, no atendimento a pessoas com deficiências intelectuais e do desenvolvimento (Gardner et al., 2022).

Por que isso importa para a prática clínica?

Serviços de ABA dependem da atuação coordenada de analistas do comportamento, técnicos, supervisores, cuidadores e gestores. Sem práticas organizacionais eficazes, é comum surgirem problemas como:

  • Equipes com necessidades de treinamento;
  • Baixa adesão a protocolos;
  • Rotatividade alta;
  • Falta de supervisão regular;
  • Baixa qualidade na coleta de dados;
  • Burnout e insatisfação profissional.

A OBM oferece ferramentas práticas e baseadas em evidência para enfrentar esses desafios.

Como a OBM pode ser aplicada na clínica?

1. Avaliação funcional do desempenho organizacional

Assim como avaliamos funções do comportamento dos clientes, também podemos avaliar funções do “comportamento organizacional”. Ferramentas como o PDC-HS (Performance Diagnostic Checklist – Human Services) ajudam a identificar obstáculos à performance da equipe: falhas no treinamento, supervisão insuficiente, barreiras ambientais, falta de reforço, etc.

2. Treinamento e supervisão eficientes

A OBM propõe intervenções sistemáticos para capacitar equipes com economia de tempo e recursos. Isso inclui:

  • Treinamento baseado no Behavioral Skills Trainning (BST; instruções, modelo, role-play, feedback);
  • Supervisão com feedback estruturado e positivo;
  • Uso de estratégias antecedentes (ex: cartazes, lembretes);
  • Autogerenciamento com metas e reforçadores.

3. Uso de incentivos e preferências da equipe

Antes de propor bonificações ou mudanças, a OBM recomenda avaliar preferências dos colaboradores: o que realmente é reforçador para aquela equipe? Pode ser horário flexível, tempo livre para planejamento, reconhecimento público ou até estacionamento reservado. O importante é alinhar as contingências às motivações reais da equipe.

4. Gestão da rotatividade

A alta rotatividade é um problema crônico em serviços de apoio a pessoas com deficiência. A OBM sugere estratégias como:

  • Redesenho de escalas de trabalho;
  • Reforçadores condicionados à permanência;
  • Avaliação das causas de saída (feedback, entrevistas de desligamento);
  • Planejamento de carreira.

5. Segurança, ética e padronização

A OBM também apoia a implementação segura de procedimentos críticos, como contenções físicas ou protocolos de higiene, inclusive em situações como a pandemia de COVID-19. Isso envolve:

  • Treinamento em segurança com checklist de competências;
  • Supervisão contínua;
  • Monitoramento de riscos;
  • Formação de comitês internos (de ética, revisão de casos, segurança).

OBM também avalia validade social

Outro ponto de destaque é o foco na validade social. A OBM recomenda que os serviços escutem ativamente seus colaboradores e usuários: os objetivos fazem sentido? Os métodos são viáveis? Os resultados são percebidos como úteis?

Essa escuta sistemática permite ajustes que aumentam o engajamento, a adesão e a eficácia das intervenções.

E agora?

Incorporar princípios da OBM à rotina da prática clínica não é um elemento acessível — é fator central que pode produzir diversas vantagens. A gestão comportamental organizacional fornece um conjunto robusto de ferramentas para melhorar a qualidade dos serviços, aumentar a satisfação da equipe e, principalmente, promover melhores resultados para os clientes.

Se sua equipe está enfrentando dificuldades de desempenho, comunicação ou adesão a procedimentos, talvez seja hora de aplicar a ciência do comportamento dentro da própria organização.

Referência

Gardner, R. M., Bird, F. L., Maguire, H., & Luiselli, J. K. (2022). Introduction to Organizational Behavior Management in Intellectual and Developmental Disabilities. In J. K. Luiselli, R. M. Gardner, F. L. Bird, & H. Maguire (Eds.), Organizational Behavior Management Approaches for Intellectual and Developmental Disabilities (pp. 3–13). Routledge.

Como citar este artigo (APA):

Fonseca, S. A. (2025, 20 de junho). Como a Gestão do Comportamento nas Organizações (OBM) pode auxiliar nossa prática clínica? Blog do IBAC. https://ibac.com.br/como-a-obm-pode-auxiliar-nossa-pratica-clinica/

Escrito por:

Samuel Araujo

Psicólogo (UESPI), Especialista em Gestão do Comportamento nas Organizações (OBM; iContinuum), Mestre e Doutorando em Ciências do Comportamento (UnB). Atua profissionalmente com ABA e OBM na intervenção e supervisão clínicas direcionadas às neurodiversidades. Pesquisa impulsividade e autocontrole no uso de mídias sociais, economia comportamental e análise do comportamento do consumidor.

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