Uma das ideias mais desafiadoras — e, ao mesmo tempo, mais potentes — da Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) é a noção de que a relação terapêutica não transforma apenas o cliente. Ao contrário do que modelos tradicionais costumam pressupor, a FAP reconhece explicitamente que o terapeuta também é afetado, modificado e moldado pela relação clínica (Follette, Naugle & Callaghan, 1996).
Esse princípio, que chamarei de bidirecionalidade da relação terapêutica, representa uma ruptura importante com concepções mais hierárquicas da prática clínica. Na FAP, a mudança ocorre em um campo relacional vivo, no qual duas pessoas interagem sob contingências reais, ainda que assimétricas em função dos papéis clínicos.
De onde vem essa ideia?
A FAP está profundamente enraizada na análise do comportamento contextual, que entende o comportamento como função das contingências presentes no ambiente. Se isso é verdadeiro para o cliente, também o é para o terapeuta (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001).

Assim, quando um cliente expressa vulnerabilidade, confiança ou proximidade emocional, essas respostas produzem efeitos no terapeuta — evocando empatia, cuidado, satisfação ou, por vezes, desconforto. Esses efeitos não são vistos como “ruído” ou interferência, mas como dados clínicos relevantes, que informam sobre os padrões interpessoais do cliente.
Ao reconhecer isso, a FAP legitima algo que muitos terapeutas já vivenciam, mas nem sempre sabem como usar clinicamente: suas próprias reações emocionais como instrumentos de compreensão e intervenção.
O terapeuta como parte do contexto de aprendizagem
Na FAP, o terapeuta não é um observador externo, mas parte integrante do contexto que seleciona comportamentos.
Isso significa que:
- O cliente aprende não apenas pelo que o terapeuta diz, mas pela forma como o terapeuta responde;
- A relação terapêutica funciona como um ambiente natural de reforçamento, mais próximo das relações reais do que contextos artificiais ou excessivamente técnicos;
- As reações do terapeuta podem ajudar a discriminar se um comportamento do cliente tende a aproximar ou afastar as pessoas em sua vida cotidiana.
Por exemplo, se o terapeuta percebe um impulso espontâneo de se afastar quando o cliente adota uma postura excessivamente defensiva, essa experiência pode ser usada, com cuidado e consciência, para ajudar o cliente a compreender o impacto de seus comportamentos nas relações.
Autenticidade com responsabilidade
Um equívoco comum ao ouvir falar de bidirecionalidade é imaginar que a FAP defenda uma relação sem limites ou excessivamente informal. Pelo contrário.
A bidirecionalidade na FAP é sustentada por consciência clínica e responsabilidade ética.
O terapeuta não expressa tudo o que sente, mas aprende a discriminar quais respostas são clinicamente úteis para promover mudança. Autenticidade, na FAP, não é impulsividade — é responder de forma sensível, contextualizada e funcional.
Essa postura exige do terapeuta:
- Alto nível de autoconsciência;
- Capacidade de refletir sobre suas próprias reações;
- Disposição para se engajar emocionalmente sem perder o enquadre clínico.
Por que isso é tão relevante?
A bidirecionalidade torna a terapia um espaço profundamente humano. Para muitos clientes, é a primeira vez que experimentam uma relação em que:
- Suas ações realmente afetam o outro;
- Essa afetação é reconhecida e usada de forma construtiva;
- A conexão não depende de desempenho, perfeição ou esquiva emocional.
Além disso, essa característica da FAP ajuda a explicar por que seus efeitos tendem a se generalizar para fora da sessão: o cliente aprende em um contexto relacional real, não apenas simbólico.
Implicações clínicas importantes
Reconhecer a bidirecionalidade da relação implica abandonar a ideia de neutralidade absoluta e assumir que a mudança acontece no encontro.
A sessão deixa de ser apenas um espaço de análise e passa a ser um espaço de experiência compartilhada, no qual novos repertórios interpessoais podem emergir, ser reforçados e consolidados.
Nesse sentido, a FAP propõe uma psicoterapia que não apenas trata sintomas, mas ensina a se relacionar de forma mais consciente, corajosa e amorosa — tanto para o cliente quanto para o terapeuta (Tsai et al., 2009/2011).
Considerações finais
A bidirecionalidade da relação terapêutica é um dos pilares mais profundos — e menos discutidos — da Psicoterapia Analítica Funcional.
Ela nos lembra que a mudança não acontece apesar da relação, mas por causa dela. Quando terapeuta e cliente se permitem estar presentes, afetados e atentos ao impacto mútuo de seus comportamentos, a terapia se transforma em um espaço genuíno de aprendizagem relacional.
Referências
Follette, W. C., Naugle, A. E., & Callaghan, G. M. (1996). A radical behavioral understanding of the therapeutic relationship in effecting change. Behavior therapy, 27(4), 623-641.
https://doi.org/10.1016/S0005-7894(96)80047-5
Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (1991/2001). Psicoterapia Analítica Funcional: criando relações terapêuticas intensas e curativas. Santo André: ESETec.
Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follette, W. C., & Callaghan, G. M. (2009/2011). Um Guia para a Psicoterapia Analítica Funcional: consciência, coragem, amor e behaviorismo. Santo André: ESETec.
Como citar este artigo (APA):
Xavier, R. N. (2026, 6 de fevereiro). Quando o terapeuta também é transformado: a bidirecionalidade da relação na Psicoterapia Analítica Funcional. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/quando-o-terapeuta-tambem-e-transformado-a-bidirecionalidade-da-relacao-na-psicoterapia-analitica-funcional/

