Você já percebeu como uma cena de filme ou um trecho de música explica exatamente o que estamos vivendo – mesmo quando faltam palavras? É comum ouvir alguém dizer “eu faço a mesma coisa que esse personagem!” ou “eu me sinto exatamente como essa música diz”. De repente, algo que parecia confuso ganha forma, emoção e sentido.

Aprendemos a nos relacionar com o mundo por meio da linguagem, porém nem tudo o que vivemos consegue ser explicado de maneira direta. Algumas experiências são grandes demais, dolorosas ou complexas demais para caber em frases bem organizadas. E tudo bem! A cultura entra justamente aí: como uma outra forma de linguagem, capaz de transmitir aquilo que ainda não conseguimos dizer.
Antes mesmo de qualquer teoria psicológica, já usamos metáforas para nos comunicar e vivenciar experiências.
Por que filmes e músicas ajudam tanto?
Filmes, séries e músicas ampliam enormemente esse repertório metafórico. Eles oferecem imagens, histórias e emoções prontas para serem usadas como referência, muitas vezes de forma muito mais próxima da vida real do que metáforas abstratas.
Alguns benefícios de usar esse tipo de recurso são (Oliva VHS, et al, 2010):
- Aproximação da experiência: referências culturais fazem parte do cotidiano e facilitam a identificação;
- Menos resistência: falar de um personagem costuma ser menos ameaçador do que falar diretamente de si;
- Ampliação do repertório verbal: novas formas de descrever experiências vividas (privadas ou não);
- Redução da esquiva experiencial: contato com emoções, memórias e sensações que vinham sendo evitadas;
- Facilitação do self como contexto: observar personagens ajuda a desenvolver um olhar mais distanciado sobre a própria experiência.
Além disso, quando a metáfora vem de algo que a pessoa já gosta ou já conhece, ela chega carregada de significado. Não exige tanto esforço imaginativo e já possui emoção e vínculo.
Isso costuma ser especialmente importante quando há rigidez, esquiva, excesso de fusão com regras internas ou dificuldade de descrever a própria experiência. A metáfora faz o trabalho que a explicação direta não consegue fazer.
Alguns exemplos de filmes e músicas
Um exemplo que costuma tocar profundamente, tanto crianças quanto adultos, é “Frozen”. A história da Elsa conversa com algo muito comum: aprender que pode ser perigoso expressar quem você realmente é.
Quanto mais a personagem tenta se controlar, mais se afasta das pessoas que ama – e isso não impede os seus poderes de continuarem crescendo. O afastamento aqui nasce muito mais do medo aprendido através das regras impostas pela família e cultura.
Esse filme ajuda a pensar sobre como tentativas de controle emocional podem aumentar ainda mais o sofrimento e como esconder partes importantes de si pode nos afastar justamente daquilo que mais importa. Quantas vezes, tentando evitar dor, medo ou rejeição, acabamos nos afastando das pessoas?

Outro exemplo é o filme ”I Feel Pretty”. Nele acompanhamos uma mulher que odeia o próprio corpo, mas que ao bater com a cabeça e se ver com o corpo dos sonhos, passa a mudar completamente o seu jeito de agir – mesmo sem saber que, na prática, nada havia mudado do lado de fora.
Aqui podemos falar de uma forma muito profunda sobre autoestima, comparações excessivas e fusão com autorregras.
Se filmes ajudam a olhar para a experiência, a música ajuda a senti-la. Talvez por isso ela seja tão presente quando falamos de sofrimento.
Não é raro que pessoas usem músicas para expressar dores que ainda não conseguem nomear: o fim de um relacionamento, ciclos repetidos, angústias persistentes e saudades.
A música não está interessada em se explicar – ela quer provocar sensação (de Souza, 2024). Ela pode dizer menos conceitos teóricos, porém pensamentos e linguagem são vividos diretamente no corpo.
Na prática, isso permite:
- contato com emoções difíceis sem necessidade de explicação imediata;
- diminuição da esquiva experiencial;
- ampliação do repertório de contato com sensações, memórias e afetos;
- fortalecimento do papel de observador da própria experiência.

Um exemplo disso está na canção “Maroon”, de Taylor Swift, onde ela utiliza diferentes tons de vermelho para demonstrar como um relacionamento foi se deteriorando e enferrujando:
“the rust that grew between telephones / The lips I used to call home, so scarlet, it was maroon”
Tradução livre: “a ferrugem que cresceu entre os telefones / os lábios que eu costumava chamar de lar, tão vermelhos… ficaram bordô”
Outro exemplo é a raiva feminina muito bem expressada na música “Messy”. Se você é mulher, é difícil ouvir essa música e não se identificar com o que Lola Young traz.
“’Cause I’m too messy, and then I’m too f* clean / You told me, “Get a job”, then you ask where the hell I’ve been / And I’m too perfect ‘til I open my big mouth / I want to be me, is that not allowed?”
Tradução livre: “Porque eu sou bagunçada demais, e depois sou certinha demais / você mandou eu arrumar um emprego, mas depois pergunta onde eu estive / eu sou perfeita demais até abrir minha boca grande / eu só quero ser eu, isso não é permitido?”
Fica claro então que a música também comunica, mas não no formato de explicação. Mesmo usando palavras, ela não pede compreensão lógica imediata: ela provoca sensações, memórias e afetos.
Metáforas fazem sentido porque são vividas
No fim das contas, a metáfora funciona quando a pessoa se identifica. Quando ela diz “isso fez sentido pra mim” – essa referência volta espontaneamente, vira linguagem comum e passa a ser usada fora daquele contexto inicial.
Por isso, referências trazidas pela própria pessoa costumam ser especialmente significativas: um filme marcante, uma música importante, uma série que acompanha uma fase da vida, um personagem específico que tem a mesma história.
Filmes e músicas não são apenas entretenimento. Quando usados como metáforas, deixam de ser só consumo cultural e passam a ser pontes para a experiência. Fica então o convite para refletir: qual obra já te ajudou a entender algo importante sobre você mesmo?
Referências e sugestões de leitura
Lima, A. C. R. de ., & Gomes, . C. . (2025). “O show de Truman” como uma metáfora terapêutica ao comprometimento com valores – uma análise de filme. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, Volume Especial sobre Terapia de Aceitação e Compromisso, 581–592. https://doi.org/10.18761/PAC.ACT.003
Monteiro, J., & Pereira, N. (2015). Terapia de Aceitação e Compromisso (act) e cinema: proposta de intervenção a partir de “Frozen” “Parcialmente Nublado/Partly Cloudy”. Revista Brasileira De Terapia Comportamental E Cognitiva, 17(2), 33–45. https://doi.org/10.31505/rbtcc.v17i2.748
Oliva, VHS, Vianna, A., & Neto, F. L. (2010). Cinematerapia como intervenção psicoterápica: características, aplicações e identificação de técnicas cognitivo-comportamentais. Revista de Psiquiatria Clínica, 37(3),138-44. https://doi.org/10.1590/S0101-60832010000300008
Souza , E. B. R. de. (2024). Art and language: is music a simple metaphor or an alternative way of speaking?. Caderno Pedagógico, 21(7), e5655. https://doi.org/10.54033/cadpedv21n7-112
Como citar este artigo (APA):
Mendes, G. (2026, 27 de fevereiro). Quando filmes e músicas dizem o que não conseguimos dizer. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/quando-filmes-e-musicas-dizem-o-que-nao-conseguimos-dizer/

