O que aprendemos com os Thunderbolts sobre a busca por valores?

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Em Thunderbolts, filme recente da Marvel, acompanhamos personagens que fogem completamente do molde tradicional dos heróis: eles são agentes treinados para matar, executar operações secretas e cumprir ordens sem questionar. Nenhum deles parece lutar por um propósito claro – apenas sobrevivem, seguem ordens e repetem padrões que, por muito tempo, fizeram sentido. Só que, com o passar dos anos, essas ações já não parecem mais sustentar nada por dentro. O que começa a surgir é um vazio silencioso e persistente, fruto dessa vida automática e desconectada.

O grupo protagonista carrega histórias de traumas profundos: Yelena Belova, que desde criança foi treinada para ser uma soldado fria e calculista; o Soldado Invernal, Bucky Barnes, que foi obrigado a tomar um soro de supersoldado e passou por controle mental; Ghost, que vive em constante dor física e emocional por uma anomalia genética que a torna intangível; o Agente Americano, que deveria substituir o Capitão América, mas se mostrou instável e violento; e, por fim, o Guardião Vermelho, que foi um “Capitão América Soviético” e vive tentando relembrar seus dias de glória.

Todos aprenderam a sobreviver através da força, da violência e da obediência cega, acreditando que essa era a única forma possível de seguir em frente. No entanto, nenhum deles se sente realizado com a própria vida – e esse incômodo crescente revela uma desconexão fundamental.

Esse é o ponto de partida para pensar sobre valores. Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), Steven C. Hayes defende que uma vida significativa é guiada por valores pessoais claros, entendidos não como metas externas, mas como direções escolhidas. E, de acordo com Wilson e DuFrene (2009, apud Hayes, 2021), valores são “consequências livremente escolhidas e verbalmente construídas de padrões de atividade contínuos, dinâmicos e progressivos”.

No universo de Thunderbolts, a desconexão com esses valores é muito clara. Considerando como exemplo a protagonista Yelena: ela cumpre seu trabalho, mas não se sente satisfeita com as tarefas que desempenha. Não foi ela quem escolheu aquele caminho – foi imposto durante toda sua vida. Hoje, a adrenalina das missões já não compensa e as relações são superficiais. Ela tenta buscar apoio no pai, mas não consegue se abrir sobre o que sente. E ainda há tentativas falhas de preencher esse buraco: com álcool, sarcasmo, violência e comportamentos impulsivos.

Um valor pessoal não é algo fixo, pronto ou revelado em um insight iluminado, mas sim algo que se descobre na ação, no movimento, no engajamento real com a vida. A própria ação é reforçadora – não há um ponto final, e sim um caminho.

Isso significa que não nascemos sabendo nossos valores. E o filme ilustra perfeitamente essa ideia: nenhum dos personagens tem clareza sobre o que realmente importa para si. Eles só começam a descobrir quando agem diferente do habitual. A virada começa a acontecer quando são obrigados a trabalhar em equipe – primeiro por sobrevivência, depois para impedir a destruição da cidade.

É nesse processo que entram em contato com novos padrões comportamentais: cooperação, vulnerabilidade, escuta, empatia e reconhecimento mútuo. Pela primeira vez, o reforço não vem da eficiência ou da obediência, mas da percepção de que suas ações podem ter impacto positivo, não apenas destrutivo. Isso gera um tipo diferente de sentido – e é justamente aí que os valores começam a aparecer.

Essa diferença entre agir por rotina e agir por sentido é o que a ACT chama de ação compromissada: comportamentos alinhados ao tipo de pessoa que queremos ser, mesmo diante de medo, dor ou incerteza. Para experimentar esse movimento, é necessário flexibilizar padrões rígidos aprendidos ao longo da vida – como isolamento, cinismo, impulsividade ou submissão – e se abrir para novas formas de agir.

E, tal como os Thunderbolts, só descobrimos os nossos valores quando nos arriscamos e escolhemos agir de formas diferentes.

Essa mudança começa, antes de tudo, por uma constatação importante: agir diferente é entrar em contato com novos reforçadores. É testar comportamentos que até então estavam fora do repertório e observar quais deles produzem consequências que fazem sentido. Na maior parte do tempo, seguimos regras antigas – regras que um dia foram funcionais, mas que se mantêm mesmo quando já não nos servem mais. No caso dos Thunderbolts, essas regras eram claras: “não confie em ninguém”, “não demonstre fraqueza”, “obedeça sem questionar”, “resolva tudo pela força”.

Só que regras rígidas limitam contato com novas contingências. Quando a única resposta possível é lutar, fugir ou se fechar, deixamos de experimentar situações que poderiam gerar outros tipos de reforço – conexão, colaboração, reconhecimento, segurança, cuidado. E é justamente isso que o filme mostra quando os personagens precisam trabalhar juntos: ao se exporem a relações diferentes, começam a acessar reforçadores que não existiam em seus contextos anteriores.

Não é uma mudança “interna” ou revelação súbita – é resultado direto do contato com um ambiente que oferece novas possibilidades de resposta.

É por isso que, na análise do comportamento, valores não são apenas uma reflexão abstrata, mas um processo de discriminação: perceber quando certos comportamentos estão funcionando apenas como esquiva da dor e quando estamos, de fato, nos aproximando de algo significativo. Identificar o que reforça nossas ações é parte fundamental desse processo. Muitas vezes, comportamentos que parecem “estáveis” estão apenas nos afastando de contextos mais ricos e mais alinhados ao que importa.

E aqui entra outro ponto essencial: ninguém descobre valores sozinho, no vácuo. Precisamos de ambientes que favoreçam essa descoberta. Ambientes que reforcem vulnerabilidade, abertura, colaboração e troca – exatamente como acontece com os Thunderbolts quando deixam de ser armas isoladas e passam a ser um grupo. É no ambiente certo que alguns valores têm espaço para se revelar.

Nunca é tarde para se reconectar com o que importa. Valores não são descobertos em silêncios introspectivos profundos, mas sim nas pequenas ações que fazemos todos os dias. Nas novas interações que revelam novas contingências e novos reforçadores.

Essa é a principal lição que os Thunderbolts oferecem: não importa de onde você veio ou o que fez até aqui – importa para onde você decide ir agora.

Referências

Thunderbolts: Novos Vingadores. Direção: Jake Schreier. Estados Unidos: Marvel Studios, 2025. Filme.

Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: O processo e a prática da mudança consciente (2ª ed.). Artmed.

Luoma, J. B., Hayes, S. C., & Walser, R. D. (2021). Aprendendo ACT: manual de habilidades da terapia de aceitação e compromisso para terapeutas. 2. ed. Artmed.

Como citar este artigo (APA):

Mendes, G. (2025, 12 de dezembro). O que aprendemos com os Thunderbolts sobre a busca por valores? Blog do IBAC. https://ibac.com.br/o-que-aprendemos-com-os-thunderbolts-sobre-a-busca-por-valores/

Escrito por:

Gabriela Mendes

Psicóloga (CRP 06/170910) e Pós-graduanda em Análise Comportamental Clínica (IBAC). Tutora online dos cursos de análise comportamental clínica do IBAC.

Escrito por:

Colaboração

Textos produzidos com autoria de colaborador(a) do IBAC

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