O que a clínica pode aprender com um pato?

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Há um ditado antigo que diz que alguns animais atravessam a tempestade sem se molhar, enquanto outros esperam ela passar, mas há quem entre na água, mergulhe fundo e, ao emergir, traga algo de volta. Na cosmovisão iorubá, o pato é um animal usado como referência de regulação emocional ligado à orixá Oxum. O pato mergulha nas águas e volta à superfície sem se afogar e esse fato é usado como metáfora para aprender a lidar com as próprias emoções. É simples e simbólico, né? Uma excelente maneira de falar sobre um tema cada vez mais presente na psicoterapia: o afogamento emocional.

Fonte: unsplash.com

A metáfora do pato não serve aqui para enaltecer a frieza ou a negação da dor, mas para destacar a possibilidade de presença plena em contextos de sofrimento: presença essa que não se confunde com descontrole, nem com passividade. Pelo contrário! O mergulho sem desgaste ou perigo aponta um excelente controle emocional: podemos ir fundo na exploração do que sentimos sem nos perdermos no caminho de volta à superfície. A questão não é se vamos mergulhar nas emoções, pois todos mergulham, em alguma medida. A questão é: o que acontece quando mergulhamos? Voltamos? Nos perdemos? Sabemos nadar ou fomos empurrados antes de aprender?

Na clínica, encontramos pessoas cuja história de vida ensinou que sentir demais é perigoso, mas inevitável. Gente que aprendeu, por reforço direto ou regras transmitidas, que precisa dar conta de tudo com intensidade máxima. Que não se permite flutuar ou descansar. Que, ao menor sinal de emoção, se atira para dentro dela como se a única alternativa fosse atravessar a dor no braço, na força, na urgência. São pacientes que não evitam o contato, ao contrário, se jogam. E afundam. Porque não sabem ainda como respirar no meio do processo.

Essa intensidade emocional, muitas vezes tratada como desvio, é na verdade produto de repertórios aprendidos. Quando uma criança aprende que só será ouvida se gritar, ela grita. Quando alguém descobre que só será acolhido se estiver em colapso, passa a colapsar como forma de pedir ajuda. O problema não está na emoção em si, mas nas contingências que ensinam a relação entre sentir e sobreviver. Em contextos onde o sofrimento é ignorado até transbordar, a regulação emocional não se desenvolve por espontaneidade. Ela precisa ser modelada, passo a passo, com contato gradual, reforço diferencial, treino de atenção, discriminação de sinais internos, validação contextual e estratégias eficazes de enfrentamento.

Na Terapia Comportamental Dialética (DBT), a regulação emocional não é ausência de emoção. É organização do repertório diante dela. O pato, aqui, não é símbolo de negação da dor, mas de competência para atravessá-la. Ele mergulha e volta. E é esse voltar que se torna foco do trabalho terapêutico.

A metáfora funciona porque revela a função do comportamento emocional: a emoção serve a um propósito, e se o repertório aprendido não inclui formas eficientes de lidar com esse propósito, a emoção se torna um oceano sem margem. Intervenções eficazes não visam eliminar a onda, mas ensinar a navegar. Não se trata de dizer “não chore” ou “não sofra”, mas de ensinar a chorar sem se perder, a sofrer com suporte, a identificar quando a resposta está sendo mantida por reforço intermitente ou por esquiva do que seria mais difícil tolerar.

Pedir que alguém sinta “só um pouco” é como pedir que alguém que não sabe nadar entre no mar e fique apenas na parte rasa. A resposta é o desenvolvimento de habilidades para que se possa ir e voltar. Mindfulness, validação, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal são mais do que técnicas: são formas de ensinar o corpo e a linguagem a reconhecerem que é possível sobreviver ao que antes parecia insuportável.

A metáfora do pato nos convida a parar de ver o mergulho como fracasso e a aflição como sinal de fraqueza. Nos lembra que é possível estar nas águas sem deixar de respirar. E que, com treino e cuidado, até mesmo quem está se afogando pode aprender a voltar à tona.

Sugestão de leitura

Linehan, M. M. (2017). Treinamento de habilidades em DBT: Manual de terapia comportamental dialética para o terapeuta (V. G. D. H. de Oliveira Guerra, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 2014).

Swenson, C. R. (2024). Princípios da terapia comportamental dialética em ação: aceitação, mudança e dialética na DBT (P. Alsina, Trad.; V. G. Dornelles, Rev. Téc.). Porto Alegre: Artmed.

Como citar (APA):

de Lima, I. (2025, 23 de dezembro). O que a clínica pode aprender com um pato?. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/o-que-a-clinica-pode-aprender-com-um-pato/

Escrito por:

Izabella de Lima

Psicóloga (UNESP), Especialista em Terapia Comportamental (ITCR), com Formação em Psicoterapia Analítica Funcional (IBAC). Pós-Graduanda em Neuropsicologia Clínica Comportamental (IBAC). Supervisora de estágio no Curso de Pós-Graduação em Análise Comportamental Clínica e Coordenadora do Núcleo de Ensino Personalizado (NEP) do IBAC. Supervisora clínica no IBAC.

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