O desamparo aprendido, o Demolidor, a depressão e você – O que têm em comum?

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O Demolidor. Imagem gerada por Inteligência Artificial

O heroi mais complexo do núcleo urbano da Marvel é, sem sombra de dúvidas, Matt Murdock, o Demolidor. 

Vamos à sua história: um garoto que perdeu a sua visão em um incidente que envolvia material radioativo e a tentativa de salvar uma pessoa de um atropelamento. Sua deficiência visual é compensada através dos seus outros sentidos, que são altamente aguçados. Filho de um boxeador assassinado pela máfia, Matt Murdock se torna um advogado que trabalha em Hell’s Kitchen, Manhattan, e que nas outras horas é um vigilante que se veste como um diabo vermelho, mesmo sendo um homem católico. 

A vida do Demolidor passa por imensas turbulências, como o descrito na história “A queda de Murdock”, onde sua ex-namorada, Karen Paige, em seu fracasso enquanto uma atriz, se envolveu com a indústria pornográfica para sobreviver e, com isso, se tornou uma usuária de heroína. Em uma tentativa de conseguir mais drogas, a mulher revela a identidade do Demolidor para o seu maior inimigo: o Rei do Crime, que tenta destruir toda a vida de Matt Murdock. 

Embora os planos do Rei do Crime acabem frustrados, o impacto dos acontecimentos na vida do Demolidor foram claros, o levando a trair seus princípios e lidar com uma espécie de desamparo aprendido. 

O desamparo aprendido é um modelo que explica comportamentos depressivos como produto de incontroláveis situações na vida. Isso foi explorado em um experimento com cães que foram divididos em três grupos (Maier & Seligman, 1976):

1. Cães que eram presos à uma coleira e soltos logo em seguida;

2. Cães que se mantinham em uma caixa que lhe desferia choques mas, ao realizar certo comando, conseguiam sair dessa condição;

3. Cães que se mantinham em uma caixa e que sofriam choques, mas apenas poderiam sair de lá quando o cão correspondente do grupo 2 o fizesse. Ou seja, não podiam fazer nada em relação ao seu sofrimento.

Rose M. Spielman, PhD – Psychology: OpenStax, p. 519, Fig 14.22

Em um segundo momento, os cães foram colocados sobre uma caixa onde de um lado sofriam choques e de outro não. Os cães do grupo 1 e 2, ao receber choque, pulavam para o lado que não recebiam. Porém os cães do grupo 3 não apresentavam o mesmo comportamento.

O que foi inferido com isso é que a existência de eventos incontroláveis que nos causam sofrimento podem interferir na forma como aprendemos a lidar com eles. 

A depressão seria, então, composta por comportamentos evitativos que dificultam ou impossibilitam a disponibilidade de acesso a reforçadores que possam gerar sentimentos de bem-estar emocional. Uma pessoa deprimida pode apresentar tristeza profunda ou não, assim como deixar de se interessar por coisas que anteriormente lhe eram prazerosas. Existem diferentes alterações comportamentais e metabólicas que também podem ser observadas, como variações no apetite, no funcionamento cognitivo e psicomotor, na líbido, entre outros.

A história de um super heroi que convive com a depressão também demonstra que ela nada tem a ver com fraqueza ou alguma falta de “vontade” ou “espiritualidade”. É estimado que cerca de 15,5% dos brasileiros convivam com a depressão em algum momento de suas vidas, um número expressivo. Por isso, se você um dia se perceber deprimido, não hesite em procurar ajuda. Existem tratamentos empiricamente validados, como a Terapia de Ativação Comportamental e a Terapia Interpessoal, além de outros pilares de tratamento como intervenções medicamentosas. 

Você não é fraco por precisar de ajuda. Seja o super heroi da sua história!

Para saber mais

Fester, C. B. (1973). A functional analysis of depression. American Psychologist, 28, 857-870. https://doi.org/10.1037/h0035605

Maier, S. F. & Seligman, M. E. P. (1976). Learned helplessness: Theory and evidence. Journal of Experimental Psychology: General, 105(1), 3-46. https://doi.org/10.1037/0096-3445.105.1.3

Como citar este artigo (APA):

Pereira, L. (2025, 21 de março). O desamparo aprendido, o Demolidor, a depressão e você – O que têm em comum? Blog do IBAC. https://ibac.com.br/o-desamparo-aprendido-o-demolidor-a-depressao-e-voce-o-que-tem-em-comum/

Escrito por:

Leonan Pereira

Psicólogo Clínico (PUCCAMP), especialista em Análise Comportamental Clínica (IBAC). Possui formação em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) e Psicologia dos Extremos. É Coordenador Pedagógico do Canal dos Berrekas e fundador do canal Na ACTividade. Membro do Grupo de Pesquisa Clínica em Análise do Comportamento do IBAC com projeto em andamento sobre Terapia de Ativação Comportamental (BAT).

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