
Eu vejo o futuro repetir o passado.
Eu vejo um museu de grandes novidades.
Cazuza
Experimento 1: Responda com atenção:
Hoje é um dia de festa para você e você decide celebrar. O que você escolhe?
- Um restaurante novo que abriu perto da sua casa, mas você não sabe nada a respeito
- Seu restaurante preferido
Vamos supor que você tenha escolhido B.
Agora você vai escolher seu prato. Você escolhe:
- O prato que o chef acabou de inventar, novidade do cardápio
- Seu prato favorito.
Você escolheu B de novo?
Há algo tão reconfortante em nossas escolhas passadas. É tão bom saber que haverá reforço para aquilo que escolhemos. Entre ter alguma chance de ser reforçado vs. ser reforçado com certeza, na maioria das vezes escolhemos a certeza.
Conheço algumas pessoas que sempre assistem a mesma série, mesmo já sabendo a história (algum fã de Friends, The Office, ou How I Met Your Mother aí?). Algumas pessoas ainda chamam o X de Twitter, quase 3 anos depois da mudança. Às vezes, a gente arruma o armário, troca a ordem das gavetas e continua abrindo a gaveta errada, ou a porta do armário com a qual você já tinha se acostumado. Já aconteceu comigo de ter mudado de local de trabalho ou de casa, e me pegar no meio do caminho dirigindo para o lugar antigo. Isso é familiar para você?
É para muita gente. Nós nos comportamos por padrão e tendemos a repeti-los. Não é apenas no transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que isso acontece. Aliás, alguns pesquisadores descrevem a repetição de padrão como parte de um espectro, sendo que alguns de nós tem um comportamento mais rígido de repetição, e outros são mais flexíveis e repetem alguns padrões, a depender de diferentes variáveis. A diferença entre um indivíduo que precisa organizar todas as coisas do armário por ordem de tamanho antes de dormir ou precisa checar a fechadura da porta dezenas de vezes não é necessariamente a natureza do comportamento mas sim a intensidade do padrão. O que muda é quanto esse padrão interfere na vida da pessoa, causando prejuízos ou rupturas no dia a dia. Nem sempre arrumar o armário ou ter uma foto “aesthetic” vai evidenciar um TOC, concorda?


Qual imagem traz mais paz ou seu coração?
Se repetir padrões é tão universal, o que exatamente está acontecendo com a gente quando repetimos? Essa resposta é fundamental para entender alguns aspectos da nossa vida diária, como relacionamentos tóxicos ou abusivos, transtornos alimentares, diferentes dependências comportamentais, que incluem vícios em jogos, descontrole financeiro, abuso de substâncias, entre tantos outros que evidenciam uma repetição.
Um grupo de pesquisadores liderados por S. Sookud estudou estratégias de tomada de decisão e cruzou essas informações com os padrões de comportamento dos participantes. Os participantes jogavam um jogo em que precisavam acertar aliens que se moviam pela tela com um canhão. Para maximizar a pontuação, o jogador precisava aprender, ao longo do jogo, qual canhão tinha maior chance de produzir bolas que acertassem o alvo.
Os achados mostraram que os indivíduos que pontuaram mais alto nos testes de compulsividade foram mais lentos para aprender a jogar e se apoiaram mais em suas escolhas passadas para decidirem seus movimentos seguintes no jogo. Como elas tinham mais incerteza sobre o resultado de longo prazo, elas tinham uma probabilidade maior de confiar nos hábitos e repetir padrões.
Outro estudo, dessa vez de pesquisadores alemães, também investigou nossa tendência de repetir comportamentos. Eles consideraram que os padrões de ação estão ligados a contextos específicos, e que tendemos a repetir nossa escolha quando o contexto se repete. Ou seja, sempre que você está com fome, você abre a geladeira? Então há uma grande probabilidade de abrir a geladeira novamente (não há muita novidade para quem conhece o conceito de Operação Motivadora). Mas o que os pesquisadores, que não são analistas do comportamento, enfatizam é que raramente consideramos prós e contras, raramente pensamos se há alguma coisa na geladeira que realmente nos interessa. Simplesmente repetimos o modelo anterior, porque queremos cortar caminho, economizar tempo sem precisar tomar grandes decisões. É como se o cérebro pegasse um atalho, para repetir o padrão anterior. Então, mesmo que você saiba que a geladeira está vazia, porque você não foi no mercado, há uma forte tendência a repetir esse ato. E um ponto interessante dessa pesquisa é que após a repetição do padrão, as pessoas passaram a categorizar a escolha não só como preferida, mas como melhor.
Isso ajuda a explicar por que, mesmo tendo planejado ir para a academia no fim do dia, a gente prefere voltar para a casa e assistir a boa e velha Netflix, sem nem pensar. Ou porque mesmo sabendo que uma comida saudável nos faria bem, voltamos para o sanduíche tão gostoso. Nossa opção mais frequente se torna uma opção mais simples. Por isso, pessoas com comportamentos compulsivos acabam repetindo seus hábitos em um loop infinito.

Se você não sabe o que o futuro vai trazer, é bem provável que você repita suas escolhas do passado, nesse museu de grandes novidades. Apenas cuidado, pois você pode repetir o mesmo erro.
Antes de terminar, vamos ao Experimento 2:
Imagine que amanhã você acorda e descobre que sua memória foi apagada. Você não se lembra de nada do que fez ontem, nem da semana passada, nem de nada. Sem histórico de escolhas, sem padrões registrados, sem atalhos disponíveis.
– O que você escolheria para o almoço?
– Em qual restaurante iria comemorar?
– Qual série assistiria à noite?
A resposta honesta é: você não saberia. E essa incerteza, que soa assustadora, é exatamente o que os pesquisadores estão descrevendo. Nós não escolhemos tanto quanto acreditamos que escolhemos. Grande parte do que chamamos de preferência é, na verdade, familiaridade disfarçada de gosto.
A boa notícia é que isso funciona nos dois sentidos. Assim como repetimos padrões que nos prendem, também podemos iniciar padrões que nos libertam. A questão não é eliminar os hábitos automáticos, mas talvez de vez em quando, pausar antes de abrir a geladeira, antes de ligar a Netflix, antes de tomar o caminho de sempre, e se perguntar: estou escolhendo, ou apenas repetindo?
Talvez o Museu de Grandes Novidades tenha uma porta de saída.
Para saber mais:
Sookud, S., Martin, I., Gillan, C. M., & Wise, T. (2026). Impaired goal-directed planning in transdiagnostic compulsivity is explained by uncertainty about learned task structure. Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging; 11:357–365. https://doi.org/10.1016/j.bpsc.2025.10.005
Wagner, B.J., Wolf, H.B. & Kiebel, S.J. (2025). Action repetition biases choice in context-dependent decision-making. Commun Psychol 3, 177. https://doi.org/10.1038/s44271-025-00363-x

