Emoções Secundárias: O Que a Culpa Está Tentando Evitar?

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Fonte: unsplash.com

Durante a internação da minha filha em uma UTI pediátrica, passei alguns dias intensamente envolvida em pensamentos e sentimentos de culpa. Revisava decisões, horários, sintomas anteriores e buscava identificar onde poderia ter falhado. Esse padrão se manteve por aproximadamente quatro dias. Foi apenas em um momento de pausa, durante um banho em troca de turno do hospital, que consegui discriminar algo relevante: aqueles pensamentos não estavam tentando descobrir a verdade, estavam cumprindo uma função. Era muito menos doloroso pensar sobre como eu poderia ter evitado aquilo tudo e retomar um pouco de controle do que digerir o medo de perder o que tenho de mais precioso.

Esse episódio ilustra o que, na clínica, frequentemente chamamos de emoção secundária.

Para compreender o conceito, é necessário diferenciar dois níveis de análise. O medo, naquele contexto, era uma resposta direta às contingências ambientais. Havia risco real. Do ponto de vista comportamental, trata-se de uma condição respondente eliciada pela ameaça percebida.

A culpa, por outro lado, não surgiu de maneira direta. Ela foi precedida por uma cadeia de respostas operantes verbais: revisão de eventos, formulação de hipóteses contrafactuais, autocrítica, história de rigidez com o próprio desempenho e reconstrução narrativa do passado. Essas respostas produziram uma consequência específica: redução momentânea da sensação de imprevisibilidade. Ao atribuir a mim mesma a responsabilidade pelo ocorrido, a situação deixava de ser completamente caótica e passava a parecer explicável. Essa redução transitória do desamparo caracteriza um processo de reforçamento negativo.

É nesse ponto que podemos definir operacionalmente emoção secundária: trata-se de uma condição emocional que emerge a partir de respostas operantes emitidas diante de uma emoção primária e cuja manutenção ocorre porque os comportamentos associados a ela reduzem o contato com estímulos privados mais aversivos.

No exemplo descrito, o medo foi primário e respondente. A culpa foi secundária no sentido funcional: dependia de mediação verbal e estava vinculada a uma classe de respostas que produzia esquiva experiencial do medo e da impotência.

But Men Must Work and Women Must Weep, 1883 por Walter Langley. Fonte: Birmingham Museums Trust

A ruminação integra essa mesma cadeia. Pensamentos repetitivos sobre o que poderia ter sido feito funcionam como tentativa verbal de organizar retrospectivamente um evento incontrolável. Embora raramente alterem as contingências reais, podem reduzir temporariamente a experiência de desamparo. Essa redução é suficiente para manter o comportamento, mesmo quando o custo a longo prazo inclui sofrimento prolongado.

Esse padrão não é aprendido no vazio. Ao longo da história de ensino, muitos indivíduos recebem reforçamento por assumir responsabilidade excessiva e pouca validação para expressar medo ou vulnerabilidade. Assim, a autocrítica pode ter sido modelada como resposta mais aceitável do que a admissão de impotência. Quando ocorre um evento altamente aversivo, o repertório historicamente reforçado é evocado.

Do ponto de vista clínico, a análise funcional das emoções secundárias desloca o foco da topografia da emoção para a função das respostas que a sustentam. A intervenção deixa de buscar a eliminação da culpa ou da ruminação como se fossem distorções internas e passa a investigar quais contingências estão mantendo essa classe de respostas.

No episódio relatado, a mudança não ocorreu porque o medo diminuiu. O que mudou foi a interrupção consciente da cadeia verbal que produzia a culpa como estratégia de organização. Discriminar a função permitiu ampliar escolha comportamental. Permanecer em contato com o medo foi assustador. O medo era intenso, direto e sem garantias. No entanto, tratava-se do sofrimento correspondente às contingências reais, e não de um sofrimento ampliado por camadas adicionais de autoinculpação que, em última análise, não eliminavam o medo, apenas o mascaravam temporariamente.

Ao suspender a ruminação, a dor não desapareceu. Mas deixou de ser multiplicada por narrativas que buscavam controle onde ele não existia. Havia medo, e havia amor e isso era suficiente.

Se existe algum aprendizado prático nessa experiência, ele é simples: enfrentar a emoção primária não a torna mais perigosa do que ela já é; apenas a torna mais honesta. E, talvez por uma coincidência que eu prefiro interpretar com leve humor clínico, minha filha recebeu alta da UTI no dia seguinte. Não porque eu tenha aceitado corretamente o medo, mas porque contingências médicas seguiram seu curso. Ainda assim, ficou a impressão supersticiosa de que parar de brigar com a emoção ajuda mais do que tentar substituí-la.

Ensinar análise funcional, nesse contexto, significa ensinar a identificar relações entre antecedentes, respostas e consequências também no campo das experiências privadas. Emoções secundárias deixam de ser tratadas como causas internas do comportamento e passam a ser compreendidas como produtos de histórias de reforçamento e esquiva aprendida.

Essa mudança de foco não elimina a dor, mas altera a maneira como o sofrimento é analisado e, consequentemente, como é manejado em clínica.

Sugestões de Leitura

Guilhardi, H. J. S. (2011). Análise comportamental do sentimento de culpa. Recuperado de https://itcrcampinas.com.br/pdf/helio/analise_comportamental_sentimento_culpa.PDF

Hayes, S. C., Wilson, K. G., Gifford, E. V., Follette, V. M., & Strosahl, K. (1996). Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 64(6), 1152–1168. https://doi.org/10.1037/0022-006X.64.6.1152

Como citar este artigo (APA):

de Lima, I. (2026, 13 de março). Emoções Secundárias: O Que a Culpa Está Tentando Evitar?. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/emocoes-secundarias-o-que-a-culpa-esta-tentando-evitar/

Escrito por:

Izabella de Lima

Psicóloga (UNESP), Especialista em Terapia Comportamental (ITCR), com Formação em Psicoterapia Analítica Funcional (IBAC). Pós-Graduanda em Neuropsicologia Clínica Comportamental (IBAC). Supervisora de estágio no Curso de Pós-Graduação em Análise Comportamental Clínica e Coordenadora do Núcleo de Ensino Personalizado (NEP) do IBAC. Supervisora clínica no IBAC.

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