E se, em vez de “consertar”, a gente ajudasse a construir?

Compartilhe este post

Na psicologia clínica, muitas abordagens ainda se baseiam em diagnósticos e tentam “consertar” comportamentos considerados problemáticos, como crises emocionais, isolamento, uso excessivo de telas ou autolesão. Mas e se a gente mudasse a pergunta?

E se, no lugar de focar no que está errado, a gente perguntasse: “Que alternativas reais essa pessoa tem?” ou “O que ela gostaria de fazer diferente na sua vida?”

Essa é a proposta da abordagem construcional, criada por Israel Goldiamond, um importante pesquisador da área da Análise do Comportamento.

fonte: unsplash.com

Uma outra forma de ver os comportamentos

A ideia central da abordagem construcional é simples, mas poderosa: em vez de tentar eliminar comportamentos, a gente busca construir novas possibilidades. Por exemplo, em vez de perguntar “como parar esse comportamento?”, perguntamos: “como podemos criar novos caminhos que façam mais sentido para essa pessoa?”

Isso significa entender que, muitas vezes, o comportamento que parece “errado” é, na verdade, a melhor solução que a pessoa encontrou até agora para lidar com uma situação difícil. O papel do terapeuta é ajudar a pessoa a encontrar outras formas de viver, com mais bem-estar e mais autonomia.

Um exemplo prático

Imagine uma adolescente que evita interações sociais e prefere ficar isolada. Uma abordagem tradicional pode tentar forçar essa exposição, fazendo ela interagir aos poucos.

Já a abordagem construcional pergunta:

  • Onde ela se sente mais segura para estar com outras pessoas?
  • Que tipo de interação faz sentido para ela hoje?
  • O que está faltando em sua vida que poderia tornar essas interações mais reforçadoras (agradáveis, interessantes, recompensadoras)?

Com isso, o foco não é forçar mudanças, mas ampliar as possibilidades reais de escolha e ação.

Uma abordagem transdiagnóstica

A proposta construcional é considerada transdiagnóstica, ou seja, ela não se prende a rótulos como “depressão” ou “transtorno de ansiedade”. Em vez disso, ela busca entender os processos comuns que mantêm o sofrimento, independentemente do nome dado a ele.

Isso quer dizer que, em vez de seguir protocolos fixos para diferentes diagnósticos, o terapeuta analisa o que mantém o comportamento atual e o que pode ser feito, naquele contexto específico, para criar alternativas mais saudáveis e funcionais.

fonte: unsplash.com

Terapia Baseada em Processos (TBP)

Essa forma de pensar combina muito bem com a chamada Terapia Baseada em Processos (TBP), um movimento recente da psicologia que propõe tratamentos mais flexíveis, personalizados e baseados em evidências. Em vez de seguir modelos engessados por diagnóstico, as TBPs procuram entender:

  • O que está por trás do sofrimento daquela pessoa?
  • Quais são os padrões que ela repete?
  • Quais são os reforçadores e valores que podem ser trabalhados?

A abordagem construcional é compatível com essa lógica, ao propor que o foco do tratamento seja ajudar a pessoa a construir repertórios novos, alinhados com o que ela valoriza — e não apenas controlar sintomas.

Uma abordagem que vai além dos rótulos

Muitas vezes, problemas como ansiedade, depressão ou fobias são agrupados em diagnósticos. A abordagem construcional propõe olhar além desses rótulos, investigando os processos que mantêm o sofrimento e o que pode ser feito para transformá-lo.

Essa forma de pensar combina com o que chamamos de Terapia Baseada em Processos: busca entender o que está acontecendo com cada pessoa, e adaptar a intervenção de forma única, sem seguir um modelo engessado.

Ferramenta prática: o Questionário Construcional

Uma das ferramentas que ajuda a colocar essa abordagem em prática é o Questionário Construcional. Com ele, o terapeuta e a pessoa atendida conseguem:

  • Identificar o que mantém o comportamento atual;
  • Descobrir o que realmente importa para aquela pessoa;
  • Criar, juntos, planos de ação baseados em seus valores, metas e possibilidades reais.

É uma forma colaborativa de construir intervenções mais humanas e eficazes.

Conclusão: da supressão à construção

A abordagem construcional é um convite a mudar a forma como enxergamos o sofrimento humano. Em vez de controlar sintomas, ela nos convida a construir novos caminhos, respeitando a dignidade, as escolhas e o contexto de cada pessoa.

Essa proposta é especialmente útil em tempos em que a psicologia busca ser mais flexível, inclusiva e centrada na pessoa — sem perder o rigor científico. O trabalho de Goldiamond segue atual e inspirador para quem deseja uma clínica mais ética, potente e verdadeiramente transformadora.

Referências

Goldiamond, I. (2002). Toward a constructional approach to social problems: Ethical and constitutional issues raised by applied behavior analysis. Behavior and Social Issues, 11(2), 108–197. https://doi.org/10.5210/bsi.v11i2.89

Layng, T. V. J., Andronis, P. T., Codd III, R. T., & Abdel-Jalil, A. (2021). Nonlinear Contingency Analysis: Going Beyond Cognition and Behavior in Clinical Practice. Routledge.

Como citar este artigo (APA):

Fonseca, S. A. (2025, 14 de novembro). E se, em vez de “consertar”, a gente ajudasse a construir? Blog do IBAC. https://ibac.com.br/e-se-em-vez-de-consertar-a-gente-ajudasse-a-construir/

Escrito por:

Samuel Araujo

Psicólogo (UESPI), Especialista em Gestão do Comportamento nas Organizações (OBM; iContinuum), Mestre e Doutorando em Ciências do Comportamento (UnB). Atua profissionalmente com ABA e OBM na intervenção e supervisão clínicas direcionadas às neurodiversidades. Pesquisa impulsividade e autocontrole no uso de mídias sociais, economia comportamental e análise do comportamento do consumidor.

Inscreva-se em nossa Newsletter

Receba nossas atualizações

Comentários

Posts recentes

psicologia clínica

Vídeogames na clínica?

Você já pensou que videogames poderiam ser usados como ferramenta terapêutica? Em vez de apenas serem vistos como passatempo ou até fonte de preocupação para

Atendimento via WhatsApp

Obrigado pelo feedback

Sua opnião é muito importante para nós!