A relação terapêutica como laboratório vivo: aprendendo na prática com a Psicoterapia Analítica Funcional

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Fonte: unsplash

Na maior parte das psicoterapias, a relação entre terapeuta e cliente é vista como um meio para que o trabalho aconteça — uma condição necessária, mas indireta. Já na Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), a própria relação terapêutica é compreendida como o principal espaço de mudança.

A sessão não é apenas um lugar para falar sobre dificuldades passadas ou expectativas futuras, mas um laboratório vivo de aprendizagem, no qual padrões de comportamento são evocados, observados e transformados em tempo real.

Esse pressuposto deriva da ideia central da análise do comportamento: o comportamento humano é sensível ao contexto e às consequências que produz. Assim, se a sessão de terapia se torna um contexto suficientemente semelhante ao da vida cotidiana — mas marcado pela segurança e responsividade do terapeuta —, então aquilo que o cliente aprende na relação terapêutica pode ser generalizado para outros vínculos importantes.

O que acontece no “laboratório vivo”?

Durante a interação com o terapeuta, é comum que o cliente apresente formas de agir que estão relacionadas a seus sofrimentos diários: esquiva emocional, dificuldade em confiar, ou medo de ser rejeitado. A FAP denomina esses comportamentos de Comportamentos Clinicamente Relevantes (CCRs).

No “laboratório vivo”, o terapeuta procura:

  1. Discriminar a ocorrência dos CCRs no aqui-e-agora;
  2. Evocar novos repertórios (como se abrir, confiar, pedir ajuda);
  3. Reforçar positivamente os CCR2s — comportamentos que sinalizam mudança e crescimento;
  4. Avaliar sua intervenção continuamente;
  5. Promover consciência (CCR3), ajudando o cliente a perceber, nomear e explicar os próprios padrões.

Essa forma de intervenção transforma a sessão em um espaço de prática direta, em que novas formas de se relacionar são experimentadas de forma segura e reforçadas no momento em que ocorrem.

Por que isso importa?

A literatura científica indica que a FAP promove ganhos significativos em repertórios interpessoais justamente porque vai além da narrativa: o cliente vivencia a mudança na sessão e aprende, na prática, a se engajar de maneira mais autêntica e eficaz com os outros.

Em resumo, a relação terapêutica, quando compreendida como contexto de contingências vivas, não é apenas pano de fundo, mas o coração do processo clínico na FAP.

Referências

Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (1991). Functional Analytic Psychotherapy: A guide for creating intense and curative therapeutic relationships. Springer.

Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follette, W. C., & Callaghan, G. M. (2009). A Guide to Functional Analytic Psychotherapy: Awareness, Courage, Love and Behaviorism. Springer.

Como citar este artigo (APA):

Xavier, R. N. (2025, 19 de setembro). A relação terapêutica como laboratório vivo: aprendendo na prática com a Psicoterapia Analítica Funcional. Blog do IBAC. https://ibac.com.br/a-relacao-terapeutica-como-laboratorio-vivo-aprendendo-na-pratica-com-a-psicoterapia-analitica-funcional/

Escrito por:

Rodrigo Xavier

Psicólogo (UFMS) e psicoterapeuta, Doutor em Psicologia Clinica (USP) com estágio sanduíche na University of Washington sob os cuidados dos Ph.D. Robert Kohlenberg, Mavis Tsai e Johnatan Kanter. Treinador certificado de FAP desde 2021. Líder de encontros do Projeto Global Viva com Consciência, Coragem e Amor desde 2018. Professor nos cursos de Formação em FAP e Terapia Analítico-Comportamental Infantil do IBAC.

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