A Psicoterapia Online Funciona com as Crianças?

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Como consequência da pandemia de COVID-19, muitos atendimentos psicoterápicos foram adaptados para a modalidade remota, se estendendo mesmo no mundo pós-pandemia. Esse tipo de atendimento, bem como o tradicional atendimento presencial, possui facilidades e limitações. No caso do atendimento remoto infantil, uma possível limitação se refere à dificuldade de observação do psicoterapeuta em relação ao comportamento verbal não-vocal da criança; como os movimentos corporais, que podem ser úteis, por exemplo, para identificar quais emoções do “clientinho” poderiam estar relacionadas a algum momento-chave da sessão. Sob uma outra perspectiva, o atendimento remoto oferece a possibilidade de observação ao vivo de parte da interação da criança com sua rotina. Nesta configuração, a criança pode, por exemplo, mostrar e usar seus brinquedos (dependendo dos objetivos psicoterapêuticos). Ademais, muitas vezes, há oportunidade para o/a profissional observar a dinâmica e o modo de funcionamento da casa no recorte temporal da sessão.

A psicoterapia com crianças, muitas vezes, necessita do apoio de recursos psicoterapêuticos, principalmente os lúdicos, para ser possível a coleta de informações e a intervenção terapêutica. Por isso, o atendimento online com essa população requer do/a profissional criatividade, adaptação e flexibilidade quanto à criação e uso desses recursos. De todo modo, não é a modalidade que irá definir a psicoterapia. O/A psicólogo/a irá utilizar da mesma ferramenta clínica (chamada de análise funcional) independente das sessões ocorrerem presencialmente ou remotamente.

Para ser possível o atendimento remoto, o/a psicólogo/a infantil pode se preparar de diferentes formas para cada caso, a depender dos objetivos psicoterapêuticos traçados, tais como:

(a) Escolher uma plataforma adequada que permita, por exemplo, o compartilhamento de tela, com o intuito de facilitar o uso de determinados recursos terapêuticos;

(b) Utilizar um computador ou celular com câmera e um fone de ouvido, além de estar com uma internet de boa conexão, orientando aos cuidadores da criança a fazerem o mesmo;

(c) Adaptar os recursos psicoterapêuticos físicos, como os baralhos terapêuticos, jogos, bonecos etc. para uso remoto, em frente a webcam. Caso seja necessário, há possibilidade de adaptar também as regras ou modificar o objetivo original da atividade, guiando para o alcance dos objetivos da sessão. O recurso, por exemplo, Baralho das Habilidades Sociais (Rodrigues & Folquitto, 2015), pode ser usado a partir da mudança das regras/formas de uso. Para ilustrar: ao filtrar as cartas relevantes para o caso, o/a profissional pode fazer um leque delas com uma das mãos. Ao mostrar à criança com as cartas viradas de costas para ela, o dedo indicador da outra mão do/a psicólogo/a pode flutuar por cima das cartas, indo e voltando, até ela dizer a palavra “stop” quando desejar (a carta é escolhida onde o dedo indicador parar). Após a escolha da carta, o terapeuta realizaria o trabalho necessário. Essa adaptação pode ser feita também com jogos de tabuleiro e outros brinquedos, inclusive com a possibilidade de abaixar a webcam para ficar bem à vista a mesa e poder ser feito alguma atividade para a criança observar.

fonte: unsplash.com

(d) Utilizar recursos artísticos, como músicas e trechos de filme ou desenho, relevantes para a demanda clínica e o cumprimento dos objetivos da sessão da semana;

(e) Explorar vídeos no Youtube em que um criador de conteúdo conte a história de diferentes livros infantis relevantes para a demanda clínica. Isto é interessante por facilitar para a criança a visualização do livro e das imagens, além de não haver necessidade de ter o material físico com o(a) profissional;

(f) Testar diferentes possibilidades de construir recursos psicoterapêuticos utilizando, por exemplo, a plataforma Canva ou PowerPoint. Os materiais que podem ser construídos são livrinhos, jogos de tabuleiro, fichas de registro, além de usar a ferramenta das plataformas para ilustrar alguma metáfora a ser contada;

(g) Buscar por sites que disponibilizam jogos online gratuitos (e.g., Uno), preferencialmente aqueles que possibilitem dois participantes jogarem juntos um contra (ou em conjunto com) o outro (o/a profissional e a criança ou a criança com algum outro participante, a depender da demanda clínica); utilizar a plataforma WordWall, sendo possível construir recursos online a partir de diferentes ferramentas, como roleta, caça-palavras jogo da memória etc. Nessa plataforma, ainda há possibilidade de adaptar ou utilizar recursos criados por terceiros. Para isto, basta ir à seção “comunidade”, ir no campo de busca e digitar o que procura (e.g., “palavras-cruzadas das emoções”). No atendimento, bastaria o/a profissional compartilhar a tela e usufruir do recurso. Por outro lado, há algumas atividades que são úteis para o “clientinho” interagir diretamente; por isso, há possibilidade de compartilhar o link da atividade com a criança e ela compartilhar a tela com o/a psicoterapeuta.

(h) Usar e, se necessário, adaptar, os brinquedos e jogos que a própria criança possui em seu espaço;

(i) Escolher atividades que não precisam de um material físico ou remoto, tais como: gincanas de encontrar um objeto com um formato ou cor específico, trava-línguas, fazer sons com o próprio corpo etc.

(j) Escolher atividades manuais, como origami, desenhar sem tirar o lápis do papel e mímica. Além disso, há possibilidade de compartilhar a tela com uma imagem com o alfabeto de libras e os significados de cada símbolo, e cada um tentar adivinhar qual palavra o outro está tentando comunicar.

Entre outros.

Portanto, a psicoterapia on-line com crianças funciona muito bem! Nessa modalidade, o/a profissional pode preparar os recursos psicoterapêuticos como apoio e realizar as intervenções adequadas para cada caso a partir da ferramenta clínica (análise funcional) que acontece independente da modalidade da terapia.

Conheça o Instagram @guiapraticodospequenos, perfil de educação para psicólogos infantojuvenis 🙂

Referência e dicas de leitura

Gadelha, Y. A., & de Menezes, I. N. (2004). Estratégias lúdicas na relação terapêutica com crianças na terapia comportamental. Universitas: Ciências da saúde2(1), 57-68. https://doi.org/10.5102/ucs.v2i1.523

Rodrigues, C. L., & Folquitto, C. T. (2015). Baralho das habilidades sociais: desenvolvendo as relaçõesNovo Hamburgo, RS: Sinopsys.

Ulkovski, e. P., da Silva, l. P. D., & Ribeiro, A. B. (2017). Atendimento psicológico online: perspectivas e desafios atuais da psicoterapia. Revista de Iniciação Científica da Universidade Vale do Rio Verde7, 59-68. http://periodicos.unincor.br/index.php/iniciacaocientifica/article/view/4029/3229

Escrito por:

Amanda Viana dos Santos

Psicóloga pela PUC Goiás e mestra e doutoranda em Análise do Comportamento pela UEL. Docente no curso de Formação em Terapia Analítico-Comportamental Infantil do IBAC. Gerencia o Instagram @guiapraticodospequenos

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