Sobre a Síndrome de Burnout ou esgotamento profissional

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E no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor

– Belchior

Desde o início da pandemia, os consultórios nunca estiveram tão cheios de pessoas com queixas relacionadas ao excesso de trabalho. Aqueles que puderam trabalhar em home office, por exemplo, perceberam que os limites do chamado “horário comercial” passaram a ser cada vez mais nebulosos – inexistentes, em alguns casos –, e se viram tendo que prestar contas aos superiores e atender a demandas, inclusive, de madrugada. O trabalho, que outrora era levado para casa, acabou fazendo com que a casa virasse um escritório de fato. Várias pessoas relatam que se sentem culpadas quando estão em casa e não estão produzindo, e o descanso parece não só não ter espaço nessa rotina acelerada e chega a ser visto como um privilégio.

Na sociedade contemporânea o dinheiro, que é um reforçador condicionado generalizado, permite com que os indivíduos tenham acesso à inúmeros bens materiais, experiências, enfim; e o trabalho remunerado, normalmente, é a forma com a qual se conquista esse dinheiro. Além disso, a frase de Benjamin Franklin que diz que o trabalho dignifica o homem parece reverberar até os dias atuais.

A sobrecarga de trabalho acaba levando o indivíduo à exaustão. Os altos níveis de estresse começam a comprometer seu sistema imunológico e a pessoa começa a adoecer. Relatos de alterações nos padrões de sono e apetite são comuns, assim como oscilações de humor, o que acaba comprometendo também as interações sociais – ou a pessoa está muito ocupada trabalhando, ou está muito cansada para interagir, ou quando interage se vê mais agressiva e intolerante com colegas, amigos, familiares.

A chamada Síndrome de Burnout ou síndrome do esgotamento profissional, descrita em 1974 pelo médico Freudenberger, tem sido um fenômeno laboral tão expressivo que foi inserida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) na nova Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11), que entrará em vigor no início no próximo ano. Ela é caracterizada pela sensação que o indivíduo tem de esgotamento devido a demandas de trabalho, associada a sentimentos negativos relacionados ao trabalho e redução de desempenho.

Observa-se ainda uma diminuição na quantidade de reforçadores presentes na rotina do indivíduo e um aumento do controle aversivo provenientes de cobranças excessivas, encurtamento de prazos, aumento do número de reuniões, dentre outros. Tudo isso faz com que a pessoa queira se afastar do ambiente de trabalho, ambiente este que pode passar a eliciar uma série de respostas emocionais, como raiva, irritabilidade, sensação de mal-estar, assim como taquicardia, sudorese, visão turva, dentre outros.

Preventivamente, o que pode ser feito: desenhar limites mais claros no ambiente de trabalho no que diz respeito a horários, prazos, duração do expediente e às expectativas que o empregador tem em relação ao trabalho a ser feito. Juntamente a isso é importante que a pessoa programe reforçadores que possam ser distribuídos ao longo do dia, de forma a transformar a rotina em algo mais palatável num primeiro momento, e gradualmente mais reforçadora on the long run (a longo prazo). Cuidados com a rotina de sono, alimentação e práticas de relaxamento podem ajudar a regular o sistema imunológico e permitem com que o corpo reestabeleça sua homeostase. Além disso, a prática de atividade física faz com que o indivíduo tenha acesso a serotonina, endorfina e dopamina e promove uma sensação fisiológica de bem-estar. A manutenção de uma rede de apoio social forte e robusta também é fundamental para que a pessoa esteja sempre amparada e assistida.

Sugestões de leitura:

Antunes, R. (2020). O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. 2 ed. São Paulo: Boitempo.

Benevides-Pereira, A. M. T (2002). Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Dejours, C. (2015). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho, A. I. Paraguay e L. L. Ferreira (trads.). São Paulo: Cortez.

Dejours, C. (2021). Psicodinâmica do trabalho: casos clínicos, V. Dresch (trad.). 2ª imp. Porto Alegre: Dublinense.

Lipp, M. E. N. (2010). Mecanismos neuropsicofisiológicos do stress: teoria e aplicações clínicas. 3 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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