Self contextual e conceitual: sobre o quê estamos falando?

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“Na vida cotidiana, damos um valor à nossa maneira de ver a realidade e nos apegamos à nossa identidade como se fosse algo imutável. Não nos damos conta de que no decorrer da vida vamos mudando, dependendo da relação que temos com as circunstâncias de cada momento. Os fatores emergentes (os agregados psicofísicos) que dão origem instantânea ao nosso ser como manifestação dessa relação, por sua vez, estão em permanente transformação. […] não podemos dizer sequer que somos os mesmos de ontem, apenas um dia mais velhos. Assim, fica muito pouco dos desejos, das tendências, preferências e repulsas de quando éramos pequenos. Por isso que, em um desejo de conservar a identidade, geramos dependência absoluta à nossa maneira de nos relacionarmos com a vida, pensando que esse apego garante a nossa imutabilidade. Ledo engano. Criamos um vício do nosso ego e, embora saibamos que muitas das nossas ações trazem consequências negativas, preferimos continuar a fazê-las e não perder o controle. Porém, a realidade em si nada tem a ver com nossa maneira fragmentada de vê-la. Percebemos isso quando soltamos o apego a essa identidade e podemos despertar para uma realidade muito mais ampla que a nossa estreita visão dela […].”

Esse trecho foi retirado do livro “Duvidar da Própria Compreensão”, do monge budista Densho Quintero. Apesar do viés zen-budista, o texto toca muito bem em um assunto bastante discutido e pesquisado nas Terapias Comportamentais Contextuais: nossos conflitos com o chamado “self conceitual”.

Nós, seres humanos, temos o anseio de organizar nossas experiências de maneira coerente. Você já se pegou ruminando por horas, buscando entender o porquê de algo ter acontecido? É sobre isso que estamos falando: para nós, as coisas precisam fazer sentido. O sem-sentido é desconfortável (ou aversivo).

Nessa busca por sentido, criamos conceitos e utilizamos eles para nomear o que percebemos — incluindo nós mesmos. Ganhamos nomes e adjetivos: somos introvertidos, extrovertidos, feios, bonitos, insuficientes, autoconfiantes, psicólogos, engenheiros….

E qual é o problema em organizar as coisas dessa maneira? Imediatamente, nenhum. Mas, conforme nos apegamos aos conceitos, eles tomam um controle significativo sobre nosso comportamento.

No momento em que nos rotulamos, passamos a investigar se aquilo realmente faz sentido e tiramos conclusões das situações que vivemos. Os conceitos que utilizamos para nos descrever, à proporção que são confirmados por experiências semelhantes, se tornam regras cada vez mais rígidas.

Uma vez estabelecidas, essas regras influenciam nosso comportamento inflexivelmente. Passamos a agir de maneira a confirmá-las (o anseio por coerência). Se realmente acredito que sou incapaz, deixarei de fazer atividades (incluindo aquelas em que eu sou indiscutivelmente talentoso). Deixando de fazer atividades, deixarei de vivenciar situações que me dão um senso de competência e me sentirei cada vez menos seguro. A crença (e os comportamentos governados por ela) se torna cada vez mais instalada no meu cotidiano.

Diante de todo esse problema gerado por regras, talvez seja útil nos lembrar: não somos uma coisa só. Somos mutáveis e adaptativos. Nosso comportamento varia de acordo com o contexto em que estamos. Podemos nos comportar de maneira quieta e tímida em uma situação, e extrovertida, dando gargalhadas, em outra.

Finalizo esse texto com uma nova regra (que talvez seja mais útil seguir de maneira flexível): não se apegue aos conceitos que você tem sobre si. Desapegando de conceitos, ficamos mais abertos às novas possibilidades e visões sobre nós mesmos. Variamos. E é pela variabilidade que aprendemos coisas novas, incluindo novas maneiras de agir.

Sugestões de leitura

Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2021). Terapia de Aceitação e Compromisso-: O Processo e a Prática da Mudança Consciente. Artmed Editora.

Quintero, D. (2022). Duvidar da Própria Compreensão: Indagações no Caminho Zen. Daissen.

Escrito por:

Gustavo Neves

Psicólogo (Faculdade Pitágoras de Poços de Caldas). Especialista em Análise Comportamental Clínica (IBAC), com formação em Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia de Ativação Comportamental (IBAC). Colunista no Blog do IBAC.

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