Precisamos repetir o óbvio: vacinas não causam autismo!

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O ano era 2004, e o jornal The Sunday Times apresentava ao mundo uma das mais importantes contribuições à saúde pública e ao Transtorno do Espectro Autista:

vacinas não causam autismo!

Esta ideia tão difundida, mesmo nos dias atuais, surgiu em 1998, quando o médico inglês Andrew Wakefield publicou um estudo preliminar na revista científica The Lancet, em que associou a vacina tríplice viral (MMR), utilizada para combater sarampo, caxumba e rubéola, ao Transtorno do Espectro Autista. Em seu estudo, a vacina tríplice viral causava uma grave inflamação intestinal, liberando “toxinas” na corrente sanguínea. Estas toxinas matavam neurônios, causando o autismo. Segundo Wakefield, das 12 crianças estudadas, 9 tinham desenvolvido autismo (Bellinghini, 2019). O efeito desta afirmação foi que, além de ganhar popularidade e publicidade de figuras públicas em todo o mundo, também motivou o surgimento de movimentos antivacinas que, até este momento, se servem do estudo como fonte de evidência, mesmo que seja amplamente desmentido pela comunidade científica mundial.

Apesar de inúmeras pesquisas científicas não encontrarem evidências que sustentem a ideia de que a vacinação esteja associada ao desenvolvimento do TEA, e que têm consistentemente refutado qualquer estabelecimento de causa-efeito entre as vacinas, especialmente a vacina tríplice viral, e o autismo. Ainda é preciso difundir essa informação entre a comunidade, dado que muitas famílias continuam sendo afetadas pela desinformação, e podem facilmente ser conduzidas por uma crença que além de ocasionar o contato de crianças não vacinadas com inúmeras doenças, também pode gerar uma consequência letal.

Em decorrência disso, abaixo estarão algumas informações que os profissionais de saúde, pais e educadores podem se abastecer para um diálogo respaldado na ciência ao entrarem em contato com informações falsas e que possam contribuir para a hesitação vacinal, comprometendo a imunidade coletiva e aumentando o risco de surtos de doenças evitáveis por vacinação.    

Adequadamente a palavra-chave desta afirmação “vacinas causam autismo” é FRAUDE. Isto significa que não havia somente problemas metodológicos no estudo de Wakefield, ou falhas dos instrumentos utilizados.

Na verdade, o estudo era uma fraude!

Além da amostra do estudo ser pequena e não representativa, não havia uma análise estatística adequada. E Wakefield ainda havia sido contratado por advogados, um ano antes da publicação, para produzir dados contra os fabricantes da vacina tríplice viral, para fins lucrativos por meio de um processo. Ao mesmo tempo, o médico também iria lançar uma vacina alternativa. Ou seja, não há ciência nesta condução, sequer dados erroneamente analisados. Há fraude de dados forjados por conflitos de interesse do autor. Há um crime que resultou em um desastre na saúde pública mundial.

Mas, afinal, como a vacina tríplice viral atua no organismo?

Segundo Pasternak (2019), a vacina é feita de agentes biológicos que irão produzir uma resposta imune no nosso organismo, ou seja, gerar anticorpos. Estes agentes biológicos são os que causam a doença, porém estão inativados ou atenuados de maneira que as vacinas possam causar uma resposta imune. Contudo, sem causar a doença. Além disso, as vacinas que estão disponíveis à população demoram entre 8 a 12 anos, visto que passam por uma extensa fase de teste para serem distribuídas a comunidade. Dessa forma, a segurança e eficácia das vacinas continuam sendo pilares fundamentais no seu desenvolvimento.

Estudos subsequentes não encontraram evidências que sustentem a associação entre vacinas e autismo, reforçando a segurança e a importância das vacinas na prevenção de doenças.

Apesar do desenvolvimento de estudos com rigor metodológico que refutem facilmente a relação entre vacina e autismo, como uma meta-análise publicada na Vaccine por Taylor, Swerdfeger e Eslick (2014), que investigou diferentes fontes de dados e estudos de uma amostra de 1 milhão de crianças, em que os dados mostraram que a vacina não está relacionada ao TEA. Ainda assim, é observado o efeito na disseminação de informação falsa e no reaparecimento de surtos de doença que estava em vias de ser erradicada, como o sarampo.

Também, diferente do estudo fraudulento realizado por Wakefield, um estudo (Bai, Kei Yip & Gayle, 2019) com base em dados populacionais de cinco países e uma amostra de 2.001.631 crianças. Dentre essas, 22.156 (1,11%) crianças foram diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista. Segundo os pesquisadores, a herdabilidade do TEA foi estimada em aproximadamente 80%. Ou seja, a variação na ocorrência do autismo na população é em grande parte devido a influências genéticas herdadas. Além disso, os pesquisadores Modabbernia, Velthorst e Reichenberg (2017) realizaram revisões sistemáticas e meta-análises de fatores de risco ambientais para o autismo, e as evidências atuais sugerem que vários fatores ambientais, incluindo vacinação e tabagismo materno, não estão relacionados ao risco de TEA.

Portanto, com base em uma extensa revisão da literatura científica disponível, é conclusivo afirmar que não há evidências substanciais que sustentem a associação entre vacinação e o desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista. Essa conclusão respalda as práticas de imunização recomendadas, garantindo a proteção da saúde pública. Logo, é fundamental basear as decisões relacionadas à saúde em evidências científicas sólidas na prevenção de doenças, bem como em seguir as recomendações de imunização, como uma proteção a saúde individual e coletiva.

Sugestão de leituras:

Vacinas não causam autismo:

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0264410X14006367

https://molecularautism.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13229-017-0121-4?optIn=false

Etiologia do autismo (causas genéticas, majoritariamente):

https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/article-abstract/2737582

Prática Baseada em Evidências para autismo: https://www.autismdiagnostics.com/assets/Resources/NSP2.pdf

https://ncaep.fpg.unc.edu/sites/ncaep.fpg.unc.edu/files/imce/documents/EBP%20Report%202020.pdf

Escrito por:

Luana Nascimento

Graduada em Psicologia (FAT); Pós-graduanda em Análise Comportamental Clínica (IBAC); Formação em Análise do Comportamento Aplicada (FAT); Formanda em Sexualidade Clínica (CRESCER); e Integrou a participação na Revista Poliglosa sobre práticas culturais feministas (Nuremberg, Alemanha).

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