O que é autogerenciamento?

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O termo “autogerenciamento” diz algo a você? Seu uso tem sido identificado na literatura das áreas de Psicologia, Análise do Comportamento, Educação, Saúde e Administração, relacionado a diferentes processos relevantes para pessoas e organizações – como equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, manejo dos próprios objetivos, e engajamento em atividades protetoras da própria saúde. Quem trabalha na área clínica poderá facilmente reconhecer esses três exemplos dados como frequentes demandas apresentadas ao longo do processo terapêutico. Até mesmo poderá identificar-se com essas demandas em sua própria vida! 

O que seria então “autogerenciamento”? O prefixo “auto” é (com perdão ao trocadilho) “auto” explicativo – refere-se a si mesmo. Enquanto “gerenciar”, para os dicionários de Português, significa algo na linha de “fazer a gestão”, “coordenar”, “administrar”. Já a literatura científica é um pouco mais descritiva ao considerar “autogerenciamento” um complexo processo de influir sobre as próprias atividades, de forma a gerar resultados mais desejáveis para si e para seu contexto – seja ele de vida pessoal, de saúde, ou profissional (Ferreira da Costa & Kienen, 2021). 

As autoras Ferreira da Costa e Kienen, através de uma revisão de literatura, propuseram uma interpretação analítico-comportamental do autogerenciamento (2021). A partir de seu trabalho, é possível traçar algumas relações interessantes entre a literatura analítico-comportamental sobre Autogerenciamento e a Análise Comportamental Clínica (ACC). Uma confusão que pode surgir e portanto já será abordada é entre os conceitos de “autogerenciamento” e “autocontrole”. Autocontrole refere-se, em resumo, a comportar-se de modo a aumentar a chance de que comportamentos reforçados por consequências de longo prazo sejam realizados, diminuindo a frequência de comportamentos de reforço imediato que competem com a obtenção de consequências atrasadas. Já o autogerenciamento é mais amplo do que isso e uma mera equivalência entre os conceitos não bastaria para explicá-lo. 

Enquanto processos de autocontrole com certeza pertencem ao processo de autogerenciamento, outros processos como autoconhecimento, definição de objetivos e metas e automonitoramento do próprio comportamento também pertencem (Ferreira da Costa & Kienen, 2021). Um dos principais motivos para pesquisar autogerenciamento por uma lente analítico-comportamental, segundo Ferreira da Costa e Kienen (2021), é a relação entre ter esse repertório bem desenvolvido e ser capaz de lidar com as exigentes demandas do mundo moderno impostas aos indivíduos. A maioria das pessoas adultas tem sido cada vez mais confrontadas com a necessidade de regular as próprias atividades, sendo a ascensão da popularidade do homeoffice e do ensino à distância contextos que permitem observar tanto os benefícios quanto as dificuldades consequentes dessas exigências. Além disso, é importante reparar como autogerenciamento vai muito além de um simples “gerenciamento de tempo”, envolvendo processos como estabelecer prioridades, por exemplo.

Muitos leitores deste blog são (ou foram, ou serão) psicólogos autônomos, que frequentemente brincam (ou desabafam) sobre as dificuldades de assumir, simultaneamente, responsabilidades por processos burocráticos, contábeis, secretariais, educacionais – além dos clínicos! Isso para enfatizar apenas o cotidiano profissional. Como você avaliaria a efetividade do seu autogerenciamento? Você identifica na sua história como seus repertórios de autogerenciamento foram moldados e desenvolvidos ao longo do tempo? Você sabe se déficits de repertório em algum ponto desse processo a atrapalham? Ferreira da Costa e Kienen (2021) convidam a pensar que o processo de aprender a gerenciar os próprios comportamentos é construído através da apresentação de uma série de amplas etapas sequenciais, sendo elas (resumidamente):

  1. Avaliar o próprio contexto de vida;
  2. Definir objetivos para si mesmo;
  3. Planejar mudanças de comportamento;
  4. Executar mudanças de comportamento;
  5. Monitorar (avaliar) mudanças de comportamento;
  6. Manter mudanças de comportamento.

Esse processo todo é um espelho de boa parte do trabalho do terapeuta comportamental, que através de suas análises funcionais, define objetivos para o processo terapêutico com o cliente, planeja, executa e monitora intervenções com o propósito de atingir os objetivos, e planeja a generalização dos ganhos terapêuticos (manutenção da mudança). Autogerenciamento talvez ajude a dar nome e especificidade ao que acontece quando além de fazer tudo isso, ensina-se o cliente a fazer por si. Esse é um importante compromisso ético do trabalho com psicoterapia, que envolve o desenvolvimento de comportamentos que tornem o engajamento da cliente nas atividades que são importantes para ela sustentável ao longo do tempo, mesmo após a finalização da psicoterapia.

Se essa for a intenção – desenvolver repertórios de autogerenciamento em clientes -, reconhecer a complexidade dessa classe de comportamentos e que pode haver relação de pré-requisito entre diferentes comportamentos que precisam ser desenvolvidos (alguns precisam ser apresentados antes e criando o contexto para a apresentação de outros) será chave para terapeutas. Facilitará, principalmente nos casos em que déficits de “autonomia” são perceptíveis e difíceis de modificar, o reconhecimento do que precisa ser trabalhado com o cliente e, portanto, o estabelecimento preciso de objetivos terapêuticos alcançáveis – que têm mais chance de produzirem reforçamento. Afinal, planejar que uma pessoa alcance o último degrau da escada sem percorrer o caminho até lá pode provar-se ineficaz e contraproducente.

Essa forma de analisar comportamentos complexos com escopo, profundidade e precisão, planejando seu ensino/aquisição, é característica de uma tecnologia de ensino originalmente brasileira, baseada na Análise Experimental do Comportamento (AEC), chamada Programação de Condições para o Desenvolvimento de Comportamentos (PCDC). Que tal atualizar-se e conhecer um pouco mais? Além da referência usada nesse texto, a leitura sugerida dessa semana inclui artigos sobre a história e as pesquisas desenvolvidas em PCDC, que poderão ser enriquecedoras a todos os analistas do comportamento e demais pessoas interessadas em aprendizagem que ainda não a conheçam. Ainda parece ser pequena a intersecção entre a PCDC e a área clínica. Isso talvez se dê pelo histórico da PCDC, muito relacionado a contextos acadêmicos de ensino, embora cada vez mais sejam animadoras as contribuições da área para contextos de saúde, treinamento profissional e até mesmo, comportamentos no trânsito (Kienen et al., 2021).

Convite! Em abril, será ofertado no IBAC um Minicurso sobre “Estabelecimento de objetivos terapêuticos” em que discussões como essa, sobre a aplicação das contribuições da PCDC aos desafios encontrados na clínica, serão realizadas. O Minicurso objetiva aprimorar a habilidade de estabelecer objetivos terapêuticos coerentes de psicólogos atuantes (ou que pretendem atuar) em psicoterapia.

Referências e Leituras recomendadas

Ferreira da Costa, E. N. & Kienen, N. (2021). Autogerenciamento: Uma interpretação analítico-comportamental. CES Psicología, 14(2), 20-47. http://doi.org/10.21615/cesp.5234 

Kienen, N. ., Panosso, M. G. ., Nery, A. G. S. ., Waku, I. ., & Carmo, J. dos S. (2021). Contextualização sobre a Programação de Condições para Desenvolvimento de Comportamentos (PCDC): Uma experiência brasileira. Perspectivas em Análise do Comportamento, 12(2), 360–390. Recuperado de https://www.revistaperspectivas.org/perspectivas/article/view/818/388

Nale, N. (1998) Programação de Ensino no Brasil: O Papel de Carolina Bori. Psicologia USP, 9(1),
275-301. Recuperado de https://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/107804. doi:
10.1590/psicousp.v9i1.107804

Escrito por:

Andressa Secchi Silveira

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Análise do Comportamento (PPGAC) na Universidade Estadual de Londrina (UEL), vinculada ao LaBori – UEL. Bacharela em Psicologia pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Especialista em Análise Comportamental Clínica pelo IBAC. Psicóloga (CRP 07/35022) e supervisora particular.

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