O que a série “Jovem Sheldon” nos ensina sobre famílias imperfeitas?

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Antes de iniciarem a leitura, adianto que este texto contém pequenos spoilers.

A série “Jovem Sheldon” (nome original: Young Sheldon) é uma série de televisão americana que é um spin-off da série The Big Bang Theory. Ela conta a história de vida de Sheldon Cooper, em sua infância e adolescência. Dentro do gênero de comédia, os episódios apresentam o dia a dia de Sheldon e sua relação com seus familiares, pessoas da escola e com a sociedade no geral.

Apesar do foco ser no personagem Sheldon, a série explora de forma aprofundada a dinâmica familiar e nas interações entre seus membros. Isso resulta em insights preciosos sobre a complexidade das famílias imperfeitas. A representação honesta dessas imperfeições em mídias desempenha um papel importante em ajudar outras pessoas a se identificarem com os personagens e as situações apresentadas. Isso é particularmente valioso, pois tende a quebrar a expectativa irrealista de alcançar o estereótipo da “família perfeita”, que é impossível de ser atingido. Assim, é oferecido um senso de validação e normalização dos desafios que podem surgir em qualquer família, desenvolvendo expectativas mais realistas sobre os filhos, além de si mesmo no papel de mãe e/ou pai.

A narrativa da série inclui um elenco diversificado de personagens, que vão além de Sheldon, como Mary Cooper, George Cooper, Connie, Sheldon Cooper, Missy Cooper, Georgie Cooper, Brenda, Billy, Jeff e Paige. A interação desses personagens revela valiosas lições sobre as dinâmicas de famílias imperfeitas, descritas a seguir:

Mary Cooper é mãe do Sheldon, Missy e Georgie e esposa do George Cooper. Ela é um retrato de uma mãe dedicada e amorosa, com uma forte base religiosa. Uma de suas principais características é a sua constante busca pelo equilíbrio entre as necessidades de Sheldon e as dos membros da família. Mary dedica extensos esforços para evitar julgamentos negativos por parte de outras pessoas, esforçando-se para ser vista como uma mulher, mãe e esposa exemplar. Entretanto, essa busca por perfeição, muitas vezes, implica ela a omitir (pequenos) acontecimentos problemáticos naturais, o que pode resultar na invalidação de sentimentos desagradáveis, tanto próprios quanto de seus familiares.

O seu perfil superprotetor em relação aos filhos ganha destaque, uma vez que há uma preocupação excessiva com o bem-estar deles e tenta orientá-los para fazer as melhores escolhas de acordo com sua própria visão. Embora suas intenções sejam nobres, essa atitude, por outro lado, tende fazer com que seus filhos omitam informações ou até mintam para evitar invalidações ou castigos.

Além disso, a personagem frequentemente coloca o foco na família acima de seus próprios interesses e necessidades, muitas vezes, negligenciando a si mesma. Sua dedicação à harmonia familiar é admirável, mas também apresenta desafios inevitáveis na interação entre os filhos e o marido. Mary nos lembra que, apesar das imperfeições e dos desafios (ainda que lutemos muito para que eles não ocorram), o amor e a dedicação aos membros da família são valores fundamentais que merecem nosso respeito e compreensão.

George Cooper, marido de Mary e pai do Sheldon, Missy e Georgie, é um personagem retratado como um homem que lida com as pressões de ser o principal provedor da família, além de colaborar para a harmonia da casa diante dos conflitos da família e os pessoais. Em contraste com a Mary, George é frequentemente mostrado como alguém que lida com as complexidades familiares de maneira mais realista ou pragmática, mesmo que não seja da forma mais eficaz grande parte das vezes. Por esse tipo de abordagem nas soluções dos problemas familiares, o personagem é visto, muitas vezes, como uma pessoa menos compreensiva e, muitas vezes, invalidante emocionalmente.

O personagem se esforça em prover o melhor que pode aos seus filhos, como levá-los em viagens curtas ou acompanhá-los em eventos significativos a eles. Como qualquer outra pessoa, há momentos que Geroge se sente sobrecarregado ou inadequado, assim, embora não consiga resolver muitos dos desafios familiares, seu esforço em tentar é louvável, especialmente por o personagem ter suas próprias frustrações e desafios pessoais, o que pode afetar a maneira como lida com as situações familiares de uma maneira mais eficaz e acolhedora.

Sheldon é um jovem com altas habilidades acadêmicas na área de ciências naturais e possui uma grande aliança de afeto com sua mãe, Mary. O personagem apresenta um padrão comportamental rígido, com comportamentos metódicos, compreensão literal das coisas e alto seguimento de regras para lidar com situações. Além disso, Sheldon apresenta um déficit no repertório de habilidades sociais e de regulação emocional, como a dificuldade de entender as nuances sociais e identificar emoções em si próprio e em outras pessoas, dificultando sua adaptação à diferentes ambientes, em especial os novos.

Ainda que Sheldon seja um jovem caricato e com uma dinâmica diferente comparado aos outros membros da família, todos esses membros demonstram amor e apoio a ele de maneiras únicas, ainda que seja um grande desafio lidar com o personagem. O apoio dos pais se revela principalmente em relação à educação e paciência por suas preferências e outros comportamentos serem fora da curva de uma criança/adolescente típica (ainda que não consigam compreender a razão para a ocorrência disto). Seus irmãos, ademais, o ajudam com a proteção na escola, introdução à vida real e companheirismo nas situações complicadas, em especial a Missy.

Missy, irmã gêmea de Sheldon, é uma personagem flexível, sociável e espontânea, contrastando com os comportamentos de seu irmão. Em especial na sua transição para a adolescência, a personagem apresenta uma típica impulsividade, característica típica nessa fase do desenvolvimento. Algumas ilustrações disso são nas ocasiões em que foge temporariamente de casa, se irrita facilmente com os comportamentos de cada membro família, além de momentos de tomar decisões perigosas, como dirigir um carro, beber e fumar, antes da idade permitida por lei.

No decorrer dos episódios, é possível observar e inferir que Missy, muitas vezes, se sinta negligenciada ou menosprezada pelos pais, ainda que estes não tenham a intenção para tal. Isso ocorre especialmente pelas necessidades peculiares e excêntricas que Sheldon demanda tempo e atenção deles. Com a melhor intenção, George, sem querer, invalida os interesses e preocupações de Missy (em especial quando se trata de questões mais tradicionalmente femininas), fazendo com que a personagem se sinta incompreendida e desvalorizada em certas situações. Porém, ainda sim, Mary tenta equilibrar a situação com atitudes de carinho e preocupação de maneira amorosa. Ademais, George se faz presente na vida de Missy principalmente a partir do apoio em suas atividades esportivas. O conflito típico entre irmãos também é presente, em especial com o gêmeo Sheldon, por conta da carência de certas habilidades sociais. Contudo, em momentos de necessidades pessoais um ou do outro, ambos se apoiam e tentam se ajudar.

Georgie é o irmão mais velho de Sheldon e Missy. Na série, o personagem é retratado como um adolescente comum, com grande interesse em relacionamentos amorosos e em ser independente financeiramente. O irmão mais velho, por possuir mais experiência e habilidades sociais, muitas vezes é visto sendo aquele que ajuda e dá conselhos aos irmãos mais novos, por exemplo, como mentir que está doente para faltar aula.

O personagem frequentemente quebra as expectativas da família quanto ao abandono dos estudos e à dedicação integral ao trabalho para ganhar dinheiro por conta própria e buscar seus próprios objetivos, ainda que o leve a morar em uma garagem ou temporariamente em uma van. Por ser frequentemente subestimado pelas suas baixas notas acadêmicas, ao longo da série, Georgie surpreende a todos com sua inteligência em empreendedorismo e negócios. Nisso, a família é desafiada a aceitar e apoiar Georgie, reconhecendo seus pontos fortes.

Além disso, há outros personagens envolvidos que colaboram na reflexão sobre famílias imperfeitas. Connie, mãe da Mary e avó dos jovens, demonstra que sua presença como rede de apoio é fundamental para as necessidades da família, como cuidar dos netos quando é preciso ou, até mesmo, auxiliar em seus momentos emocionalmente difíceis. Além disso, a própria relação da Mary e Connie nos traz pensamentos valiosos quanto a interação familiar: quando jovem, Mary se sentia pouco cuidada pela mãe devido sua pouca presença por questões de trabalho. Entretanto, mesmo com essa relação imperfeita na infância, atualmente estão resolvidas e próximas, considerando melhores amigas uma da outra.

A vizinha da família Cooper, Brenda, também é de grande relevância quando são abordados temas de criação de filhos: apesar de lidar com questões diferentes, Brenda retrata que cada um tem seus desafios na parentalidade. O pastor Jeff é outro personagem que destaca a imperfeição de famílias, em especial quando se divorcia de sua primeira esposa e quando seu primeiro filho nasce. Por fim, a personagem Paige pode também colaborar para nossa reflexão: uma criança com altas habilidades e de idade semelhante ao dos gêmeos. Ainda que seus estudos sejam avançados e tenha um ótimo coeficiente acadêmico, recebendo prestígio e inveja de Sheldon, Paige enfrenta diferentes problemas familiares, como o divórcio entre seus pais e a alta expectativa que as pessoas têm sobre seu desempenho e produtividade.

Portanto, mesmo diante dos conflitos decorrentes das imperfeições individuais de cada membro, ao longo da série, as soluções para esses problemas são alcançadas. Isso contribui para uma reflexão sobre as complexidades das relações familiares e, mais importante, como as famílias podem evoluir e se adaptar para melhor atender às necessidades de todos os envolvidos, mesmo quando confrontadas com desafios significativos. “Jovem Sheldon” nos apresenta a ideia inspiradora de que as famílias podem, sim, ser imperfeitas, mas ainda têm a capacidade de superar diferenças e adversidades quando se apoiam mutuamente.

Escrito por:

Amanda Viana dos Santos

Psicóloga pela PUC Goiás e mestra e doutoranda em Análise do Comportamento pela UEL. Docente no curso de Formação em Terapia Analítico-Comportamental Infantil do IBAC. Gerencia o Instagram @guiapraticodospequenos

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