O intrigante efeito dos eventos independentes da resposta

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Sabe aqueles momentos em que a gente recebe a ligação de um amigo que há tempo não conversávamos? Ou quando a gente simplesmente admira o recebimento de um “bom dia!” que pareceu tão espontâneo quanto o nosso espanto imediato? Ou quando recebemos um inesperado bilhete com palavras amigas de uma pessoa querida que a gente até duvida que se tratava de um dia comum (e não nosso aniversário)? Essas e outras situações semelhantes em que alguns eventos parecem ocorrer, à despeito do que estejamos fazendo ou que tenhamos feito, nos transporta para um tema intrigante: o efeito de eventos independentes da resposta.

Um dos aspectos interessantes desse tema é identificar que, em algumas circunstâncias, somos apresentados a eventos ambientais que não possuem qualquer relação funcional com alguma ação emitida. Isso tem relação com o que falávamos em outros posts ao longo do último semestre (como em Ano novo, vida nova (?!) e Meu pensamento causa o que eu acabei de fazer?), uma vez que acrescenta mais “caldo” à discussão sobre a noção de contingência/dependência entre eventos. 

Como estudantes da Análise do Comportamento, conhecemos que a relação funcional entre uma dada resposta (evento 1) e a consequência (evento 2) que a produz indica uma história de contingência entre esses eventos: quando evento 1 ocorreu, evento 2 foi sistematicamente produzido (Toscano e cols, 2018). Essa lógica que buscamos identificar em toda análise funcional é a base do que estudamos sobre os esquemas de reforçamento, um conceito na Análise do Comportamento que se refere aos critérios que especificam a produção do reforço (e.g., quantas respostas precisam ser emitidas? será um número fixo ou variável de respostas exigidas? qual o tempo mínimo para que uma resposta produza consequências? dentre outros critérios).

Estuda-se, mais frequentemente, as condições ambientais impostas por esquemas de reforçamento em que o estímulo estabelecido como consequência é produzido de forma contingente à ocorrência da resposta. Mas existem situações em que os estímulos são apresentados de forma total ou parcialmente independentes da emissão de uma resposta. Essas situações são especificadas nas condições de esquemas de reforçamento cuja regra de apresentação do estímulo consequente é apenas a passagem de tempo. Esquemas de tempo fixo (FT) ou esquemas de tempo variável (VT) são exemplos de esquemas de reforçamento em que (apenas) o tempo decorrido determina quando algum evento ocorrerá no ambiente em que o organismo estiver inserido (Ferster & Skinner, 1957; Meindl e cols, 2019). 

Podemos considerar uma situação hipotética de vida de um adolescente que recebe uma “mesada” mensalmente, sempre no primeiro dia do mês. Uma série de metas devem ser cumpridas ao longo do mês, o que é cuidadosamente supervisionado pelos pais. Portanto, o desempenho escolar e o cumprimento regular de algumas responsabilidades domésticas devem ocorrer sistematicamente; só assim o estímulo reforçador generalizado – mesada – seria apresentado, ainda que de forma atrasada, com o início do próximo mês. 

As características descritas previamente exibem as regras do procedimento de esquemas de reforçamento em que há apresentação contingente de alguma consequência, tal como ocorre em esquemas de intervalo ou de razão. O que poderíamos supor da frequência das respostas elencadas no desempenho escolar e no cumprimento de afazeres domésticos? Se o estímulo dinheiro for um reforçador generalizado, provavelmente observaríamos uma alta e consistente frequência das respostas envolvidas com a sua produção. 

Supondo que tais comportamentos em destaque no exemplo acima nunca ficassem sob controle das consequências naturais passíveis de serem produzidas, como ficaria a frequência desses comportamentos tão logo alterássemos o esquema de reforçamento para um esquema de tempo (e.g., FT)?

Pensemos agora em outro contexto. Apenas pelo simples fato de existir como membro do grupo familiar, esse adolescente recebe uma certa quantidade de dinheiro, periodicamente. Contudo, o seu desempenho na escola e seu empenho na realização de tarefas domésticas não determinam a ocorrência rigorosa do evento mesada todo início de mês. 

Contrário ao primeiro exemplo, essa nova situação exibe um procedimento estabelecido por um esquema FT, em que após um tempo fixo decorrido, uma dada consequência irá ocorrer, independente das respostas emitidas ao longo desse tempo. Fazendo uma análise semelhante, o que poderíamos supor da frequência das respostas indicadas após essa mudança? Um dos critérios fundamentais que caracterizam o reforçamento é a apresentação contingente de uma consequência após emissão de uma resposta. Caso a apresentação do estímulo não siga tal critério, as respostas não produzirão mais a ocorrência do estímulo que as mantinham em alta frequência. Em decorrência dessa alteração na relação funcional, a frequência das respostas tende a diminuir com o passar do tempo (Meindl e cols, 2019;  Slocum e cols, 2018; Vollmer e cols, 1999).

O processo comportamental destacado acima é a principal característica ocorrida no padrão de comportamentos submetidos a uma mudança na contingência, indo de uma apresentação contingente para uma apresentação não contingente dos estímulos que antes funcionavam como reforçadores. A frequência da resposta que produzia o antigo reforçador tende a diminuir, isso porque deixa de haver relação de dependência entre eventos resposta e consequência. 

Os estímulos deixam, com isso, de produzir mudanças na frequência de algum operante. Porém, podem exercer outras funções, induzindo respostas emocionais, estabelecendo condições de controle de estímulos para outras respostas etc. Como esses eventos, quando apresentados de forma independente, contribuem com a redução de padrões de respostas que os produziam, intervenções utilizando reforços não-contingentes (do inglês, noncontingent reinforcement – NCR) têm sido apresentadas como uma das principais estratégias para elaborar reduções de respostas desafiadoras, agressivas e autolesivas em contexto aplicado. 

Sobretudo quando aliadas a um procedimento de extinção operante para essa mesma categoria de respostas, tem-se observado que – após identificada com precisão a relação funcional que tais respostas mantém com estímulos reforçadores – o NCR produz redução consistente na frequência das respostas. Fica explícita, com isso, a relevância social da estratégia, sobretudo em situações cujo treino por reforçamento diferencial (DRA) não tem apresentado bons resultados (Horr & Michael, 2020).

Quando a redução da resposta é uma classe de respostas ditas desafiadoras, não parece haver uma desvantagem clara, embora haja uma discussão interessante sobre os critérios de integridade dos tratamentos com NCR (Vollmer, 1997). Por outro lado, eventos independentes podem ocorrer em situações em que não há necessariamente uma resposta desafiadora, tal como destacado inicialmente no post. Cotidianamente, existem diferentes situações em que somos expostos a eventos independentes, ou seja, mudamos de um contexto em que respostas antes produziam alguns estímulos específicos para um contexto em que as mesmas respostas agora são seguidas de extinção e, eventualmente, com uma maior ou menor frequência, os estímulos “reforçadores” passam a ser apresentados independentemente da ocorrência de alguma resposta específica.

Considera-se que esses eventos independentes da resposta, ao mudar a relação funcional, mudam também outro importante aspecto ambiental conhecido pelo nome de operação motivadora. Se anulamos a relação de contingência, porém, continua a apresentação do estímulo independentemente do que o organismo faça. O mesmo organismo poderá sair do estado de privação para um estado de saciação quanto à exposição àquele estímulo reforçador.  E, como talvez não seja surpresa para nenhum de nós, organismos saciados, é um aspecto ambiental ligado a uma baixa probabilidade de que respostas ocorram (i.e., desmotivação). 

Alguém aqui poderia se questionar: “Ah!! Então quer dizer que, atenção e o afeto, dados de forma livre, a parceiras/os românticas/os podem produzir uma redução na frequência das respostas que antes produziam esses mesmos estímulos?” Sobre essa reflexão, considerando tudo que indicamos acima, podemos sugerir que sim.

“Ah, então minhas queixas do desinteresse dela/e na relação são realistas: apresentei reforços livres e fui trouxa entregando tudo de mão beijada?” Quanto a essa última reflexão é mais prudente sugerir que não. Embora a saciação esteja ligada à redução na frequência de respostas, nem toda redução na frequência de respostas é um efeito direto de mudanças nas operações motivadoras, sobretudo quando resultante de NCR.

Além disso, o contexto com eventos independentes são importantes para formação de diferentes aspectos do desenvolvimento pessoal, como no estabelecimento de repertórios que podem envolver o autocuidado. Como bem explica Guilhardi (2002, 2013), os efeitos de contingências com eventos independentes (ou reforços livres) são importantes por participarem de contextos que tendem a promover o que conhecemos por autoestima. “A pessoa que convive com reforços livres sente-se amada por aquele que lhe dá o reforço. Sentir-se amada é o primeiro e essencial estágio para posterior generalização em que a pessoa sente que se ama: a gênese da autoestima são relações sociais afeto” (p.10).

Os repertórios de pessoas com baixa autoestima exibem um padrão em que reforços generalizados (carinho e afeto) foram consistentemente produzidos em esquemas contingentes e sob condições muito específicas. Assim, como enfatiza o autor, a pessoa passa a ser refém da forma como seria desejável agir socialmente, esforçando-se para agradar o outro. Diferentemente, viver em um ambiente familiar cujo afeto e carinho são apresentados pela simples condição de “estar no mundo” favorece, por exemplo, o desenvolvimento de repertórios sociais pouco mediados pela aprovação como consequência fundamental.

Sem dúvida é, no mínimo, curioso pensar sobre esses efeitos de eventos independentes da resposta. O principal objetivo em considerar as mudanças de procedimento e de processo comportamental nesses casos resulta na possibilidade de considerá-las ao avaliar, não apenas processos de redução de frequência (quando ocorrem), mas também de pensar formas alternativas de implementação de estratégias para redução de padrões indesejáveis. Em “cenas de um próximo post” poderemos retornar a esse curioso efeito dos eventos independentes, pensando exclusivamente nos aspectos aplicados referentes à manutenção da integridade dos tratamentos. Fiquem ligados!

Escrito por:

Ítalo Teixeira

Bacharel em Filosofia e Psicologia. Mestre em Ciências do Comportamento

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