O Comportamento Sexual é Inato ou Aprendido?

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Em 1996, Mallot fazia o questionamento se o comportamento sexual, inclusive os papéis de gênero (feminino e masculino) seriam herdados ou aprendidos. De acordo com o autor, ao contrário do que se propõe no senso comum, parece haver pouca relação entre o sexo masculino ou feminino e o papel de gênero desempenhado socialmente. Contudo, uma análise a partir dos três níveis de variação e seleção se faz necessária para a compreensão de qualquer comportamento, inclusive dos comportamentos sexuais (Skinner, 1953/1985).

Dentro de uma perspectiva evolucionista e, consequentemente, filogenética, os conceitos ‘papel de gênero’ e ‘sexo biológico’ recebem significados diferentes. Enquanto o primeiro se relaciona com padrões comportamentais designados culturalmente ao que é masculino ou feminino, o sexo biológico é compreendido como características fisiológicas que diferenciam homens (machos) e mulheres (fêmeas). De qualquer modo, independentemente do sexo, homens podem apresentar comportamentos considerados femininos e mulheres podem apresentar comportamentos considerados masculinos dentro de uma perspectiva cultural sem que haja uma mudança biológica em sua sexualidade, ou seja, o sexo biológico e suas características continuam intactas independente da forma como o indivíduo possa vir a se enxergar (Menezes, Brito & Henriques, 2010; Malamuth, 1996).

Ainda de acordo com Menezes, Brito & Henriques (2010) existem diferenças relacionadas à constituição cerebral de cada sexo que influencia o comportamento sexual, social e principalmente parental de homens e mulheres. Ou seja, meninos apresentam maior probabilidade de se comportar de forma mais agressiva, utilizando força física em suas brincadeiras, enquanto meninas parecem demonstrar maior preferência por brincadeiras sociointerativas e de cooperação. Tal diferenciação possui uma função evolutiva importante, uma vez que mulheres são responsáveis pela gestação e primeiros cuidados da prole (uma possível explicação evolucionista pela preferência por atividades sociointerativas), enquanto homens são responsáveis por prover e proteger sua prole (uma possível explicação a partir da teoria da evolução pela preferência por atividades mais agressivas e de proteção).

No que se refere à dominação de homens diante de mulheres, Buss (1996) utiliza uma explicação evolucionista que converge com a teoria feminista de que os indivíduos do sexo masculino controlam recursos no mundo todo, controlam a sexualidade e a capacidade reprodutiva das mulheres, enxergam mulheres como propriedade privada que podem e devem ser usadas e controladas, e que, infelizmente, algumas mulheres participam da perpetuação da sua própria opressão. Mais uma vez cito Simone de Beauvoir, que afirmou em 1969 que “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

Apesar da explicação a partir da teoria da evolução do comportamento masculino e feminino, tanto a masculinidade quanto a feminilidade (enquanto conceitos relacionados ao gênero), para além dos cuidados parentais, fazem parte de uma relação biossociocultural com critérios principalmente definidos a partir das práticas culturais de cada sociedade (Lippa, 2005). Desta forma, é possível compreender que a bagagem genética impulsiona determinados comportamentos de acordo com o sexo (exemplo: agressividade em homens); porém, a organização social patriarcal parece ser um dos grandes fatores que reforça a emissão de tais condutas de acordo com o gênero imposto socialmente (Rodrigues, 2020; Smuts, 1996), chancelando a convergência teórica entre a teoria da evolução e o feminismo proposta por Buss (1996).

Essa dominação do sexo masculino permite afirmar que homens têm ocupado espaços considerados masculinos há muitos anos e nos últimos anos os homens também vem ocupando espaços femininos, o que mais uma vez reforça a afirmação de Buss (1996) acerca do controle do sexo masculino diante do sexo feminino.

Desta forma, fica evidente que a discussão herdado versus aprendido está longe de chegar ao fim, até porque a busca por tendências genéticas relacionadas à homossexualidade, heterossexualidade, transexualidade, transgeneridade, entre outras buscas voltadas para a compreensão do comportamento sexual continuarão a ser realizadas e seus resultados, a depender da base de pesquisa, serão tão ambíguos que as pessoas poderão concluir aquilo que desejarem, isto é, aquilo que é mais compatível com sua cultura e história de vida (Mallot, 1996).

Além do mais, esse debate acerca dos comportamentos sexuais apresenta implicações políticas importantes (Mallot, 1996), já que políticas públicas dependem em partes do resultado de pesquisas científicas. Um dos problemas relacionados à isso se refere a criação de políticas públicas baseadas em achismos, ao invés de discussões pautadas em argumentos científicos. Por fim, se faz necessário lembrar que “enquanto posições políticas e julgamentos morais estiverem permeando a construção de hipóteses científicas, será difícil alcançar uma verdadeira ciência do comportamento humano” (Hattori & Yamamoto, p. 106, 2012).

Referências

Beauvoir, S. (1970). O segundo sexo: Fatos e mitos. Difusão Europeia do Livro. (Trabalho original publicado em 1949).

Buss, D. M. (1996). Sexual Conflict: Evolutionary Insights into Feminist and the “Battle of the Sexes” (chapter 11). Em: Sex, Power, Conflict: Evolutionary and Feminist Perspectives (eds. D. M. Buss; N. M. Malamuth). New York: Oxford University Press, 296-318.

Hattori, W. T.; Yamamoto, M. E. (2012). Evolução do Comportamento Humano: Psicologia Evolucionista. Estudos de Biologia, 34(83), 101-112. doi: 10.7213/estud.biol.7323

Lippa, R. A. (2005). Subdomains of Gender-Related Occupational Interests: Do They Form a Cohesive Bipolar M-F Dimension? Journal of Personality, 73, 693-730. doi: 10.1111/j.1467-6494.2005.00326.x

Malamuth, N. M. (1996). The Confluence Model of Sexual Aggression: Feminist and Evolutionary Perspectives (chapter 11). In: Sex, Power, Conflict: Evolutionary and Feminist Perspectives (eds. D. M. Buss; N. M. Malamuth). New York: Oxford University Press, 269-295.

Mallot, R. W. (1996). A Behavior-Analytic View of Sexuality, Transsexuality,Homosexuality, and Heterosexuality. Behavior and Social Issues, 6(2), 127-140. doi: 10.5210/bsi.v6i2.288

Menezes, A. B.; Brito, R. C. S.; Henriques, A. L. (2010). Relação entre Gênero e Orientação Sexual a partir da Perspectiva Evolucionista. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 26(2), 245-252. https://doi.org/10.1590/S0102-37722010000200006

Rodrigues, B. B. (2020). O Comportamento Sexual é Aprendido? A Diferença entre Homens e Mulheres no Uso dos Aplicativos de Relacionamento. 1ª ed. Curitiba: Appris.

Smuts, B. (1996). Male Aggression Against Women: An Evolutionary Perspective (chapter 10). In: Sex, Power, Conflict: Evolutionary and Feminist Perspectives (eds. D. M. Buss; N. M. Malamuth). New York: Oxford University Press, 231-268.

Skinner, B. F. (1985/1953). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

Escrito por:

Ana Clara Almeida Silva

Psicóloga, Doutoranda e Docente do curso de Pós-Graduação em Análise Comportamental Clínica e no curso de Formação em FAP do IBAC.

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