Ciência: O antídoto para os tratamentos “curativos” no Transtorno do Espectro Autista

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Nas últimas décadas, houve um aumento na incidência do Transtorno do Espectro Autista (TEA). De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, 2010), entre 1993 e 2003, ocorreu um aumento de 800% na incidência dos casos de TEA. Esse notável crescimento, associado a uma falta de respostas específicas sobre a causa, foi como uma alavanca para originar um mercado que se serve das mais estarrecedoras pseudociências, com direito à palavra “cura”. Isso ocorre embora haja uma concordância científica de que o TEA não é uma doença, mas um transtorno do neurodesenvolvimento, sendo caracterizado pelo comprometimento na comunicação social e por comportamentos repetitivos ou restritivos (APA, 2014). A palavra “cura”, amplamente difundida, representa uma das questões críticas e alarmantes na intervenção atualmente.

Apesar de não haver evidências científicas que validem inúmeras “curas” que brotam de charlatões nas redes sociais, ainda entramos em contato com uma gama de pseudociências que asseveram um “tratamento curativo”, por vezes perigosos e até letais. Um exemplo é o caso da Solução Mineral Milagrosa (MMS). Jim Humble, um antigo garimpeiro estadunidense, atestava com veemência que havia descoberto o MMS, um produto comercializado como medicamento e que apresenta semelhanças com a água sanitária, em razão da sua composição utilizar dióxido de cloro, clorito de sódio e pó cítrico (utilizado em alvejantes à base de cloro). A solução causa uma descamação da parede do intestino, que Humble atribuía a parasitas que estavam no organismo causando o TEA, HIV, câncer etc. (Santos, 2023). Não demorou muito para a solução ser popularizada e ganhar incontáveis adeptos em todo o mundo.

Uma vez que muitos pais de crianças com autismo se encontram desesperados por respostas e portanto vulneráveis às pseudociências, há uma inclinação a adotarem esses métodos como soluções rápidas e curativas. Segundo Metz, Mulick e Butler (2005), os pais precisam lidar com informações conflitantes e perspectivas concorrentes de profissionais, além da quantidade de informações inadequadas sobre a causa do autismo. Isso contribui para a exposição de crianças em numerosas intervenções que não são respaldadas por evidências científicas sólidas. Além disso, a internet leva muitos pais a entrar em contato com esses tratamentos “curativos” que não foram submetidos a estudos científicos rigorosos. No entanto, muitas histórias pessoais (Deu certo para mim!) supostamente corroboram com as intervenções e favorecem a escolha de alguns familiares.

Segundo Favell (2005), os pais são mais atraídos para abordagens não documentadas, assim como as intervenções rápidas e fáceis, visto que as terapias com suporte científico, além de apresentar uma progressão mais lenta no desenvolvimento – diferente dos tratamentos de “cura” que são alegados como rápidos e milagrosos – também demandam um entendimento sobre metodologia de pesquisa que, muitas vezes, se distanciam da realidade de alguns familiares. Entretanto, é importante acentuar que as pseudociências, além de serem danosas, “gastam inutilmente tempo e recursos monetários limitados, elevando falsamente esperanças e expectativas. Distraindo e desviando os esforços eficazes” (Metz et al., 2005, p. 263).

Diante do que foi discutido, apresento a vocês uma lista de perguntas desenvolvidas por Celiberti, Buchanan, Bleecker, Kreiss e Rosenfeld (2004) que podem nortear e facilitar o contato de familiares, educadores e profissionais de saúde com tratamentos baseados em evidências científicas:

1. Em primeiro lugar, quais pesquisas estão disponíveis na literatura profissional que confirmam a eficácia dessa abordagem? Existem pesquisas que não apoiam a eficácia dessa abordagem?

2. A literatura publicada representa pesquisa objetiva e empírica (ou seja, conduzida cientificamente e baseada em dados)?

3. Quais áreas de funcionamento e comportamentos específicos são alvos dessa abordagem? Em outras palavras, como exatamente esse tratamento afetará seu aluno/filho com autismo?

4. Existem efeitos adversos associados a essa abordagem de tratamento?

5. Existem escolas e agências que utilizam essa abordagem específica e estão comprometidas com tratamentos baseados em evidências científicas?

6. Cada indivíduo com autismo recebe o mesmo tratamento? Se não, como esse tratamento será personalizado individualmente e com base em quais fatores? Em outras palavras, como essa abordagem de tratamento pode ser ajustada para atender às necessidades do seu aluno/filho?

Em síntese, como membros da comunidade científica e profissionais, temos a responsabilidade de criar condições para que a população possa entrar em contato com as terapias baseadas em evidência científica. Afinal, em um mundo em que as pseudociências ganham popularidade rapidamente, a metodologia científica permanece como o melhor antídoto que possuímos.

Para mais informações, acesse o Instagram: @psiluanascimento

Indicações de leituras:

Centers for Disease Control and Prevention. (2010). Autism and Developmental Disabilities Monitoring (ADDM) Network. https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/addm.html

Celiberti, D., Buchanan, S., Bleecker, F., Kreiss, D., & Rosenfeld, D. (2004). The road less traveled: Charting a clear course for autism treatment. In Autism: Basic information (pp. 17–31). Robbinsville, NJ: Autism New Jersey.

Metz, B., Mulick, J. A., & Butler, E.M. (2005). Autism: A late 20th century fad magnet. In J. Jacobson, R. Foxx, & J. Mulick (Eds.), Controversial therapies for developmental disabilities: Fad, fashion, and science in professional practice. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum.

Escrito por:

Luana Nascimento

Graduada em Psicologia (FAT); Pós-graduanda em Análise Comportamental Clínica (IBAC); Formação em Análise do Comportamento Aplicada (FAT); Formanda em Sexualidade Clínica (CRESCER); e Integrou a participação na Revista Poliglosa sobre práticas culturais feministas (Nuremberg, Alemanha).

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