A ansiedade como queixa clínica

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O Brasil é o país em que mais pessoas sofrem de ansiedade no mundo, segundo a OMS. Essa também é uma das queixas mais frequentes em consultórios de psicologia. Mas afinal, como identificar a ansiedade? Como ela aparece na clínica?

Conforme o DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição), há diversos subtipos de Transtornos de Ansiedade, que compartilham características de medo e ansiedade excessivos. Pois bem, o primeiro estaria associado a respostas emocionais de luta ou fuga diante de uma ameaça real ou percebida. Já a ansiedade seria a antecipação de uma ameaça futura, preparação para um perigo, incluindo aqui comportamentos de cautela ou esquiva.

Embora a definição desse tipo de manual seja importante, principalmente para a comunicação entre diferentes áreas profissionais, aqui nos interessa saber como a análise comportamental clínica enxerga o fenômeno. Skinner (1953/1965) já havia apontado que “a ansiedade é uma questão importante na psicoterapia” e de fato é, tendo em vista todo o desconforto experienciado pelas pessoas que sofrem com isso.

É caracterizada, geralmente, como um estado emocional desagradável, voltado para o futuro, desproporcional à realidade, embutidos de componentes respondentes (taquicardia, hiperventilação, tremores, tensão muscular, sudorese, etc). Pode ser acompanhado de perdas comportamentais no sentido de habilidades sociais, dificuldade para dormir, problemas na concentração, interferências no dia a dia e na qualidade de vida. São percebidas com frequência respostas de fuga e/ou esquiva na tentativa de controlar esses eventos futuros tidos como aversivos. Em geral, os relatos acerca disso são permeados de angústia, medo, insegurança, mal-estar, etc.

Ainda com toda a caracterização do termo ansiedade, nota-se que o conceito não é tão preciso assim. No próprio meio da Psicologia e, inclusive da Análise do Comportamento, é uma palavra destinada a uma série de situações distintas. Skinner (1953/1965) alertou: “O termo meramente classifica um comportamento”. Isso significa que ele, por si só, não diz nada a não ser sinalizar inúmeras possibilidades. Como sabemos, não é causa de comportamento, mas sim o próprio comportamento. Então quando um cliente em consultório fala de ansiedade, precisamos identificar de quais comportamentos emitidos por ele está se referindo. Ao mesmo tempo que precisaríamos compreender o que os controla e os mantém. Sabendo disso, ao mencionar “pessoas ansiosas”, estamos rotulando alguém com uma grande diversidade de comportamentos relacionados à ansiedade que não necessariamente estão sendo emitidos.

A cautela se aplica neste sentido de compreender individualmente o padrão comportamental desejado. Então essas “pessoas “ansiosas” podem se comportar de maneiras distintas e variadas, a depender da sua história de vida, na tentativa de evitar uma determinada ocasião a qualquer custo devido ao próprio acontecimento temido/esperado ou aos sintomas e sentimentos aversivos relacionados a ele. Inclusive, muitas vezes pode ser extremamente adaptativo agir assim. Mas outras pode atrapalhar no dia a dia e na exposição a contextos importantes na vida e é aí que se torna uma queixa no consultório. Nas sessões, é comum que os clientes relatem situações que não sabem lidar, dificuldade em esperar por algo (mesmo que seja por algo reforçador), desconfortos fisiológicos, comportamentos que comprometem o cotidiano e elevado grau de sofrimento.

Nota-se então a importância de olhar as particularidades que chegam à clínica, pois é muito natural (e adaptativo, até) que tenhamos comportamentos tidos como ansiosos, ao mesmo tempo que precisamos identificar quando isso se torna queixa a ser trabalhada na psicoterapia.

Bibliografia:

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