O Vestido da Vingança e o Efeito Proteu

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Londres, 1994. Dois acontecimentos na noite de 29 de junho abalam a realeza britânica.

O então Príncipe Charles admite em entrevista em rede nacional que havia sido infiel a sua esposa, Princesa Diana, durante o casamento. A admissão da traição caiu como uma bomba entre os súditos e entre a família real. Um escândalo! Como um herdeiro do trono poderia trair a linda princesa aclamada pelo povo? A essa altura, o casal já havia se divorciado, e Charles havia escolhido a companhia de sua ex-namorada Camilla Parker Bowles, com quem é casado até hoje (Você vê The Crown?).

Mas, o segundo acontecimento ganhou mais repercussão. Logo em seguida à reportagem, Diana, Princesa de Gales, ícone de beleza e estilo das décadas de 1980 e 1990, aparece em um jantar para arrecadar fundos com um look ousado e elegante: um tubinho preto, de ombros de fora. Atemporal, o vestido trazia a mensagem de confiança, de poder e de sensualidade e ficou conhecido como Revenge Dress, ou o Vestido da Vingança.

Mostrando que se importava pouco com o que havia acontecido mais cedo e ciente de que todos os olhares estariam voltados para ela, buscando qualquer reação à entrevista, Diana foi à festa sorridente, com passos firmes e segura de sua autoimagem. Nada de ficar chorando em casa, remoendo a traição e com pensamentos autodepreciativos. Diana buscou um outfit indefectível que expressasse a mulher forte e decidida que ela era (ou gostaria de ser) e foi para a frente das câmeras.

Se você já teve que se preparar para encontrar um/uma ex, pode entender o que Diana sentiu naquela noite.

A partir daí, Diana assumiu protagonismo social e distanciou-se significativamente da família real para dedicar-se a seus projetos, sendo cada vez mais aplaudida pela mídia.  

As roupas nos transformam em quem queremos ser. Talvez sejam operações motivadoras bem poderosas para evocar certas respostas operantes, tanto em quem usa quanto em seus interlocutores. Quando Diana vestiu o vestido da vingança, respostas de firmeza ao andar, olhar para a imprensa, postura corporal foram evocadas e ao mesmo tempo, a imprensa e demais convidados também tiveram respostas operantes verbais e não verbais, como elogiar e olhar com admiração, cumprimentar a princesa com respeito, e escrever reportagens que a favorecessem.

Toda roupa transmite uma mensagem. Não é à toa que magistradas usam toga, que advogadas usam terno, médicas e dentistas usam jaleco. Essas roupas eliciam reações e evocam respostas nas outras pessoas, inclusive para influenciá-las diante de certas situações.

Um estudo bem antigo, de 1955, conduzido por Lefkowitz e colaboradores no Texas, investigou as reações das pessoas quando um pedestre atravessava a rua no sinal fechado e fora da faixa. Em metade das ocasiões, o pedestre estava bem-vestido, com um paletó, gravata e sapatos bem lustrosos. Na outra metade, o pedestre estava com jeans sujo e sapatos rasgados.

Resultado: quando o pedestre estava bem-vestido, ele foi de 3 a 5 vezes mais seguido por outros pedestres que atravessavam a rua em local não permitido do que quando estava com roupas mais gastas. As roupas podem ter passado uma mensagem de status social – e se alguém de alto status comete uma infração, então eu, pobre mortal, estou liberada para fazer o mesmo.

Agora, olhe para você. O que você está usando, enquanto lê esse texto? Como você se sente com sua roupa? O que ela diz sobre você? Durante os primeiros meses de pandemia, as pessoas que tinham reuniões online frequentemente usavam apenas uma camisa ou blusa social e ficavam de bermuda, moletom ou pijama na parte que ninguém via. A prática ficou conhecida como “roupa de Zoom”. Será que o desempenho era igual, melhor ou pior do que quando as pessoas vestiam a roupa de trabalho por completo?

Hajo Adam e Adam Galinsky já pesquisavam esse assunto desde 2012, quando eles trouxeram a expressão “enclothed cognition”, algo como “cognição vestida” para descrever o impacto e a influência que as roupas têm sobre os processos psicológicos do usuário. Em um experimento, foi solicitado à metade dos participantes que usasse um jaleco para fazer um teste de atenção. A outra metade dos participantes poderia usar suas próprias roupas. Na tarefa, participantes com jaleco cometeram apenas metade dos erros em comparação aos que não utilizavam jaleco.

Se uma pessoa usa uma camiseta branca básica da Riachuelo ou a mesma camiseta branca básica da Gucci, será que ela se sentiria diferente sabendo da marca? Outro experimento dos mesmos pesquisadores investigou o framing dado à roupa. Um terço dos participantes usou o que foi chamado de “jaleco de médico”, outro terço usou o que foi chamado de “avental de pintura”, enquanto outro terço só via um jaleco sobre a mesa experimental. Todos os jalecos eram absolutamente iguais, a diferença estava apenas no nome. Confirmando a hipótese, o desempenho na tarefa foi melhor para quem usou o “jaleco de médico”, se comparado a que usou o “avental de pintura” ou apenas viu o jaleco sobre a mesa.

Mas talvez não sejam só as roupas que evocam reações. No mundo online, nós podemos mudar bem mais do que nossas roupas. Podemos colocar um filtro no Instagram e criar personas diferentes, podemos colocar uma foto enigmática no status do WhatsApp, podemos criar um avatar completamente incomum para ser nossa representação digital. Podemos customizar um corpo diferente, com poderes especiais, e escolher todos os atributos: cores e formatos dos olhos, da pele, dos cabelos, forma física, altura, tipos de roupa, estilo.

Pesquisadores identificaram que mudanças na imagem do avatar podem influenciar a forma como o usuário se comporta tanto no mundo digital como no mundo real. Esse efeito é chamado de Efeito Proteu, termo que veio do nome do deus grego que tinha a habilidade de se transformar. Usuários de ambiente online podem agir de acordo com as expectativas e estereótipos determinados pelos seus avatares.

Em uma das pesquisas, Nick Yee e colegas atribuíram a participantes avatares atraentes (de acordo com testes preliminares para avaliação dos avatares). Com ajuda de equipamentos de realidade virtual, os participantes se viam com seus avatares e podiam interagir com outros humanos neutros confederados na pesquisa. Aqueles participantes que receberam avatares atraentes andaram mais próximos de seus interlocutores, conversaram mais e também falaram mais sobre suas próprias vidas do que participantes que receberam avatares menos atraentes.

Parece que as nossas auto representações, sejam elas na forma física, pelas roupas e estilo que escolhemos, seja na forma digital, pelos avatares e imagens que publicamos, definem parte do nosso comportamento. Embora o estilo e os avatares sejam construídos por nós mesmos, eles também mudam a forma como nos comportamos.

As pessoas vestem as roupas, as customizam, e são modificadas pelas consequências do seu estilo. Nada é mais Skinneriano do que isso.

Para saber mais:

Adam, H., & Galinsky, A. D. (2012). Enclothed cognition. Journal of experimental social psychology48(4), 918-925. https://doi.org/10.1016/j.jesp.2012.02.00

Lefkowitz, M., Blake, R. R., & Mouton, J. S. (1955). Status factors in pedestrian violation of traffic signals. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 51(3), 704–706. https://doi.org/10.1037/h0042000

Yee, N., & Bailenson, J. (2007). The Proteus effect: The effect of transformed self-representation on behavior. Human communication research33(3), 271-290. https://doi.org/10.1111/j.1468-2958.2007.00299.x

Yee, N., Bailenson, J. N., & Ducheneaut, N. (2009). The Proteus Effect: Implications of Transformed Digital Self-Representation on Online and Offline Behavior. Communication Research, 36(2), 285–312. https://doi.org/10.1177/0093650208330254

Escrito por:

Patrícia Luque

Supervisora de Estágio no IBAC. Psicóloga clínica. Doutora em Ciências do Comportamento e Mestre em Psicologia pela UnB

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