Ignorar ou não as birras de crianças?

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Uma criança possui poucos anos de experiência com o mundo, por isso, seu repertório em lidar com frustrações ou outras emoções intensas é, naturalmente, limitado. A aprendizagem de regulação emocional é constante, perdurando até a idade adulta. Quando a criança age de uma maneira socialmente indesejável, como dar birras (que geralmente envolve gritar, chorar, bater o pé etc.), ela está tentando resolver uma determinada situação-problema. É o que há de disponível em seu repertório para tal. O choro, entre outras respostas que configuram a birra, geralmente é a forma que encontra para comunicar ao outro suas emoções intensas e desconfortáveis que genuinamente está sentindo em uma dada situação.

A partir da noção de que o ambiente, em especial o social, contribui para o desenvolvimento de certos comportamentos da criança, e de que ceder às atitudes consideradas socialmente indesejáveis é uma forma de fortalecê-las, um cuidador pode optar por “ignorar” esses comportamentos, como no caso das birras. Contudo, a conduta de ignorar as birras de crianças se configura como prejudicial em termos de desenvolvimento e aprendizagem, uma vez que essa estratégia não ensina comportamentos alternativos em certas situações problemáticas ou estressantes. Portanto, não é suficiente para diminuir ou eliminar as birras futuras.

Um dos principais papéis dos cuidadores da criança é, com muita paciência, ensiná-la a habilidade de regulação emocional e atitudes prossociais. Esse tipo de investimento de tempo ocorre tanto para a prevenção quanto para a remediação da birra. Importante lembrar que não existe uma “receita de bolo” ou um “manual de instruções” para lidar com as birras de crianças. As estratégias variam de acordo com cada caso, contexto e dependem de uma observação sensibilizada do que a criança em questão necessita aprender: regular suas emoções e/ou aprender certos comportamentos diante de certas situações. Assim como até quando adultos estamos constantemente aprendendo a regular emoções e habilidades para lidar com eventuais adversidades da vida, é previsto que crianças não vão saber lidar de forma salutar ou assertiva com todas as emoções desconfortáveis em qualquer situação. Então birras, em certa frequência, podem ser consideradas previsíveis.

É completamente desejável que o responsável acolha a criança, especialmente em seus momentos de crise. Isso não significa concordar ou discordar da situação, mas sim compreender o que a criança está sentindo, validar seus sentimentos e dar oportunidade para que expresse seus pensamentos, sem cercá-la de julgamentos ou outras coerções. O intuito é o adulto ajudar a criança a se relacionar e reagir de outras formas com as emoções intensas que certas situações lhe provocam. Acolher a criança nesses momentos não a deixa “mimada”, muito pelo contrário: na verdade, ensina a habilidade de resolução de problemas.

Para tanto, dependendo do caso, algumas estratégias podem ser colocadas em prática, tais como: com o intuito de ensinar a expressar vocalmente suas emoções, o responsável pode ajudá-la a identificar, nomear e, então, expressar suas emoções. Por exemplo, em vez de quebrar intencionalmente os objetos da casa para demonstrar ao seu cuidador que está sentindo raiva, a criança pode expressar vocalmente “estou com raiva”. Além disso, essa estratégia também ensina a criança a aprender a identificar que tipo de vivencias e situações lhe geram certos efeitos no seu “mundo interno”, auxiliando-a no processo de autoconhecimento, colocando-lhe em melhor posição para atuar de forma mais efetiva sobre si e sobre o mundo.

Outra estratégia é ensinar aproximadamente a criança a respiração diafragmática (leia aqui o passo a passo), que possui o objetivo de relaxar o corpo e os sintomas de estresse diminuírem. Esse treino pode ser realizado por meio do lúdico, como pedir para que cheire uma florzinha (imaginária ou real) até a “barriga crescer” e depois soltar devagar o cheirinho para o mundo; ou pedir para que se deite de barriga para cima com um bichinho de pelúcia pequeno que goste em cima de seu umbigo, e solicitar para que brinque de levantar e abaixar a pelúcia usando somente a respiração “na barriga”.

Há também a possibilidade de ser usado o “Pote da Calma” (leia aqui o passo a passo), que pode ser usado como um apoio para realizar a psicoeducação das emoções com a criança. A purpurina se movendo dentro do recipiente pode simbolizar os pensamentos e emoções turbulentas, mas, à medida que esperamos um pouquinho para tomar alguma ação, os pensamentos e emoções, assim como a purpurina, se assentam. Além disso, o material pode distrair a criança da situação estressante e permitir que, quando mais calma, consiga se comunicar melhor e ouvir com mais atenção o adulto para ambos buscarem solução para o problema em vigor.

Não esgotando possibilidades, outra forma trazida aqui como ilustração é o uso da estratégia da “bolha de sabão” (leia aqui o passo a passo), com o intuito de manejar a respiração e acalmar o corpo que está estressado. Isso porque necessariamente é preciso puxar, segurar brevemente e soltar devagarzinho o ar ao soprar as bolhas. Depois de dominar essa atividade diante de momentos de estresse, incentive a independência da varinha de bolhas, soprando bolhas imaginárias.

Há alguns outros aspectos que os cuidadores podem não ouvir nas birras das crianças. Como visto, as birras podem ser um modo de comunicação que a criança encontrou para expressar alguma necessidade. O motivo da birra (ou o que ela está tentando comunicar) varia de criança para criança e, por isso, as maneiras de reação dos adultos podem ser diferentes.

  • Se a birra ocorre com o intuito de comunicar ao cuidador que somente agindo dessa forma consegue sua atenção (ainda que por meio de brigas ou broncas), uma alternativa seria o cuidador revisar a sua rotina, de modo que haja pequenas porções diárias de atenção à criança, que pode levar de 30 segundos a 5 minutinhos (saiba algumas possibilidades aqui).
  • Se acontece para comunicar que as regras da casa não estão claras e não são seguidas do modo consistente, então, agir dessa forma pode ser um modo fácil de conseguir coisas que se deseja. Uma alternativa poderia ser revisar as regras da casa, de modo que sejam criadas em consenso e que sejam curtas, claras e diretas, sinalizando as consequências positivas de segui-las.
  • Se o comportamento indesejável ocorre para comunicar que não gostou de algo que aconteceu, uma alternativa poderia ser ensinar como expressar nossos sentimentos e fazer pedidos de forma socialmente aceita – esse ensinamento pode ocorrer por meio de instruções, modelos e até mesmo pela vivência na prática da criança; entre outras possibilidades de colocar limites com amor (leia aqui algumas considerações sobre limites em crianças).

Face ao que foi exposto, lidar com “birras” de crianças transcende o simples “ignorar”. Até mesmo como forma de ficar mais claro para qual caminho seguir, vamos tentar ouvir melhor que necessidade a criança está tentando comunicar?

Sugestões de leitura:

Martin, G., & Pear, J. (2009). Modificação de Comportamento: o que é e como fazer. São Paulo: Rocca.

Souza, T. L. C., & Alvarenga, P. (2018). Contribuições da análise do comportamento para a compreensão da socialização emocional infantil. Acta Comportamentalia: Revista Latina de Análisis de Comportamiento26(3), 379-392.

Escrito por:

Amanda Viana dos Santos

Psicóloga pela PUC Goiás e mestra e doutoranda em Análise do Comportamento pela UEL. Docente no curso de Formação em Terapia Analítico-Comportamental Infantil do IBAC. Gerencia o Instagram @guiapraticodospequenos

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