Futuro do subjuntivo e a falácia da chegada

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Futuro do subjuntivo: tempo verbal que indica que uma ação que

ainda não aconteceu no futuro, mas poderá acontecer.

Quando eu for

Quando tu fores

Quando ele for

Quando nós formos

Quando eu fizer

Quando eu terminar

Quando eu conseguir

Quando eu formar

Quando eu tiver

Quantas vezes escutei no consultório alguém conjugando o futuro do subjuntivo? Não sei… inúmeras. Nessa semana mesmo, o cliente Albatroz me diz assim:

– Tenho certeza de que quando eu terminar esse mestrado, a vida vai ser outra. Aí sim, vou conseguir me engajar na atividade física e comer direito…

A outra cliente, Bem-te-vi, me falou na quarta-feira:

– Então… decidi voltar a estudar para concurso. Tenho certeza de que quando eu passar, vou me sentir mais segura e a autoestima vai voltar. Vou ter novos amigos. Pode ser até que eu arrume um namorado quando eu começar a trabalhar.

E mais uma, a Cotovia, só para fechar a semana, me falou:

– Não vejo a hora de me mudar para a cidade Azul. Vou para a praia todo dia, vou correr. Quero trabalhar só de tarde, das 14 às 20h que rende mais. De manhã fico livre para praticar atividade física, talvez um curso de artesanato. E de noite, posso dormir cedo, para aproveitar a praia. A cidade Azul vai ser tudo!

Você já deve ter encontrado clientes parecidos na sua prática clínica. A verdade é que Albatroz, Bem-te-vi e Cotovia estão infelizes com o ponto em que se encontram no presente do indicativo! Então passam a sonhar com o futuro, com uma possibilidade de a vida ser melhor e todos os problemas que ocorrem no presente se resolverem. Afinal é melhor ser infeliz com esperança do que sem ela.

E é então que nasce uma linda ilusão: a de que uma vez que tenhamos alcançado um marco, um objetivo ou um sonho, finalmente estaremos próximos da nossa felicidade total. É quando vamos nos sentir plenos e realizados. Nossa hora vai chegar!  Acontece que quando de fato alcançamos esse patamar tão sonhado, a felicidade não chega de maneira tão plena como a princípio pensamos. Descobrimos então que não há um pote de ouro no final do arco íris.

A essa ilusão, o professor de psicologia positiva em Harvard Tal Ben-Shahar deu o nome de Falácia da Chegada. Ele próprio era atleta profissional de squash e ele achava que se sentiria bem depois de ganhar um jogo. De fato, quando a vitória vinha, ele sentia alguma alegria, mas não tão grande como ele inicialmente achou que sentiria. E isso se repetiu por muitos anos.

Mas alguns estudos já mostraram que nós humanos não somos tão eficazes para fazer boas previsões. Nem sobre nossos estados emocionais, nem sobre nossas habilidades, nem sobre o futuro.

Daniel Gilbert vem pesquisando já há alguns anos previsões afetivas, ou seja, o quanto conseguimos antecipar como nos sentiremos no futuro.

Por exemplo, você prefere sentir o gosto de muitos pregos enferrujados ou um vinho branco suave? Reflita….

Ainda que você não tenha nunca mastigado pregos enferrujados (espero de coração que não), você consegue imaginar esse desprazer gustativo e escolher o vinho branco sem pensar duas vezes, mesmo não sendo fã de vinhos. Ou seja, conseguimos imaginar a experiência sensorial que teremos de forma bem natural.

Mas quando se trata de prever nosso próprio prazer diante de uma experiência subjetiva, as coisas não são tão claras.

Por exemplo, a Cotovia já esteve na cidade Azul. Nas ocasiões anteriores, ela teve uma boa experiência. Por isso, ao pensar novamente na cidade Azul, ela supõe que a experiência vai se repetir. Mas diversos estudos já mostraram como nossos julgamentos é repleto de vieses (veja meus posts anteriores para conhecer alguns deles).

Gilbert e colaboradores pediram a participantes que previssem o quanto gostariam de comer espaguete à bolonhesa no jantar do dia seguinte ou no café da manhã do dia seguinte. Os resultados mostraram que o nível atual de fome das pessoas influenciou fortemente suas previsões, mais do que a hora do dia em que comeriam o espaguete. Em outras palavras, as pessoas com fome achavam que gostariam de comer espaguete no café da manhã do dia seguinte e as pessoas saciadas imaginavam que não gostariam de comer espaguete no jantar do dia seguinte.

Em outro estudo, participantes deveriam prever como se sentiriam no dia seguinte à vitória ou derrota de seu time de futebol. Antes das previsões, um grupo descreveu detalhadamente as atividades do dia. Os resultados mostraram que os participantes que não foram solicitados a descrever o dia esperavam ficar muito felizes se seu time ganhasse e muito infelizes se perdesse, mas que aqueles que foram instruídos falar sobre o dia fizeram previsões emocionais muito mais moderadas – e essas previsões mais moderadas revelaram-se mais precisas.

Segundo Gilbert, nosso problema é que a imagem que criamos em predições sobre eventos futuros é fortemente contaminada pelo contexto atual que vivemos. E, além disso, ela não leva em conta o momento temporal ainda não vivido.

Quando pensamos no futuro, temos uma tendência a achar que apenas algumas coisas vão acontecer. Normalmente, focamos nas coisas boas. Cotovia vai mesmo conseguir ir para a praia todos os dias? E nos dias de chuva e frio? Estudos mostraram que as pessoas superestimam o quão felizes seriam se mudassem para a Califórnia ou se tornassem ricas, porque suas previsões desses eventos incluem características dos locais como sol e dinheiro, mas falham em incluir eventos incidentais, como tráfego e impostos.  

E o Albatroz? Será que quando o mestrado acabar ele vai ser feliz, finalmente? Sem falar na Bem-Te-Vi, que está prevendo que a vida será mais fácil depois do concurso, mas ela vai precisar trabalhar um bocado, antes e depois de passar.

Talvez milhares de coisas aconteçam. Algumas boas, outras, não sei…

Um dos nossos papéis na clínica, como psis, é ajudar @ cliente a conjugar mais verbos no presente e não apenas no futuro. Porque, como diria John Lennon,

a vida é aquilo que acontece enquanto você faz planos”.

Para saber mais:

Gilbert, D. T., & Wilson, T. D. (2009). Why the brain talks to itself: sources of error in emotional prediction. Philosophical transactions of the Royal Society of London. Series B, Biological sciences, 364(1521), 1335–1341. https://doi.org/10.1098/rstb.2008.0305

Shilton. A.C (2019) You Accomplished Something Great. So Now What? The New York Times. https://www.nytimes.com/2019/05/28/smarter-living/you-accomplished-something-great-so-now-what.html

Wilson, T. D., & Gilbert, D. T. (2005). Affective Forecasting: Knowing What to Want. Current Directions in Psychological Science, 14(3), 131-134. https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005.00355.x

Escrito por:

Patrícia Luque

Supervisora de Estágio no IBAC. Psicóloga clínica. Doutora em Ciências do Comportamento e Mestre em Psicologia pela UnB

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