Comportamento Verbal e Sentimentos: Quando a Armadilha se Perfaz no Consultório

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Não há um consenso sobre os motivos que levam as pessoas a buscarem ajuda psicológica, mas é quase unânime que há uma frequência na queixa. Talvez, uma das lamúrias mais comuns que psicólogos, e futuros psicoterapeutas, ouvirão pode resumir-se a: “Me sinto profundamente mal”; “É um choro do nada”; “Uma tristeza sem fim”. E, obviamente, tais frases vêm acompanhadas da “autointervenção”:

“Eu busquei a terapia porque quero parar de sentir-me desta forma, quero parar de me sentir triste! Somente assim eu conseguirei ser capaz de realizar as coisas que não posso fazer neste momento por causa da tristeza, ansiedade e depressão”.

Certamente é difícil entender que sentimento não causa comportamento, até mesmo para os psicólogos (Sidman, 1989/2001).

À vista disso, a discussão central desta narrativa serão as armadilhas sentimentais e linguísticas – que podem ser evocadas e propiciadas pela construção profissional e por relatos de clientes – no processo de intervenção terapêutica. É basilar compreender a teoria e os conceitos da Análise do Comportamento para não cairmos nas armadilhas que poderão permear a nossa atuação; visto que o comportamento verbal comum antecede o comportamento verbal científico, e os termos que os sentimentos podem propiciar em um ambiente terapêutico para psicólogos evidentemente têm potencialidades para penetrações mecanicistas e unilaterais, em que as definições carecem de uma descrição científica. Em contrapartida, com os princípios científicos talvez comecemos a entender que as questões não vêm da lógica, mas das leis comportamentais (em que a consciência é medular e indispensável).

Assim, por mais que sejamos direcionados pela comunidade verbal que rege as nossas crenças, abstrações e percepções, não deveriam ser elas a permear a qualidade que implica diretamente no contorno do desenvolvimento de uma vida que valha a pena ser experenciada. Antes, precisamos compreender a construção do termo dentro das variadas áreas em que foi formulado para evitarmos qualquer contaminação em uma análise contextual, relacional e multideterminada.

Se adentrarmos em um recorte da história da humanidade, avistaremos que as emoções têm sido analisadas por filósofos, psicólogos, neurocientistas e antropólogos como causas, mediações ou efeitos de outros fenômenos psicológicos. O que, por si, já é uma divergência acerca do que compreendemos pela perspectiva do Behaviorismo Radical. Entretanto, por mais que nesta leitura você possa olhar com lucidez para a temática, se evocássemos o passado, descortinaria que antes de chegarmos à ciência do comportamento, fomos modelados por essas construções advindas da nossa comunidade verbal para a descrição do comportamento nos termos da linguagem comum. Portanto, não estamos isentos de um risco na descrição e compreensão; e, principalmente, na nossa atuação.

Pode parecer “apenas uma questão de semântica” ou “coisa de analista do comportamento que mantém-se preocupado com uma mera reformulação cosmética nas suas definições comportamentais. Tinha que ser coisa de analista mesmo!”. Porém, falha-se em reconhecer as profundas consequências de optarmos por esse discurso. Talvez a explicação mais tangível do nosso cuidado aos termos, é dada pela possibilidade de indicar uma causalidade, nos encorajando a esquecer de que estamos descrevendo o comportamento e a assumir que estamos dando um tratamento causal. Como efeito, a nossa sensibilidade ao controle ambiental fica perdida, a possibilidade de adaptação às contingências que perfazem a vida dos nossos clientes são nubladas, e a constância das mudanças são atribuídas ao acaso, ao desejo, ao meu “eu” interior, à força de vontade, ou a qualquer entidade metafísica.

Nesse sentido, ao modificarmos o “falar sobre” – não apenas em sua topografia, mas alinhada a uma concepção funcionalista -, a ciência do comportamento nos orienta para o estudo de processos, ao invés de estruturas. Para uma visão interativa entre organismo e ambiente. Para uma visão do comportamento como efetivamente é: Somos um ponto de confluência de uma pluralidade de variáveis que se relacionam entre si, incluindo o passado e o presente, o organismo e o ambiente; que sinalizam a luz para indivíduos que seguem a ignorância do controle ambiental, da coerção e das práticas que anunciam uma vida sublinhada pela coercitividade.

Desse modo, o cerne da nossa intervenção não está em processos mediadores que assombrosamente são delineados como estruturas causais e como explicações. Afinal, o amor, ou melhor, o comportamento de amar, ou mesmo a vontade que o cliente anseia em sentir, não é mediação para a ação. É um produto da interação entre as necessidades que foram fixadas filogeneticamente, sejam comportamentais ou fisiológicas, e as influências ambientais. Assim sendo, os sentimentos e os comportamentos são ambos causados pela história genética e ambiental em conjunto com a situação presente (Sidman, 1989/2001).

Mas, afinal, o que nós, enquanto analistas do comportamento, precisamos entender para uma aplicabilidade estrita a nossa área e sem constructos hipotéticos e fantasmagóricos, atribuindo a eventos imateriais o status de agente controlador do comportamento? (Sidman, 1989/2001). Primariamente, que estejamos atentos à descrição semântica determinada pelas práticas culturais. Nesse sentido, o critério para nomearmos com precisão o que é o sentimento, seria identificarmos as contingências operantes e respondentes que lhe dão origem.

Mas não deixemos escapar que as emoções alteram a predisposição para ações. Assim, por exemplo, uma pessoa que está sentindo amor tem mais probabilidade de dizer que ama alguém, de abraçar ou acariciar. Amar alguém, portanto, aumenta a disposição daquele que ama a fazer as coisas que a pessoa amada aprecia ou gosta que sejam feitas. Dessa forma, sendo um indicativo das contingências que estão em vigor e dando possibilidades para entendermos as contingências que os evocam e o eliciam.

Em harmonia com um sistema complexo que chamamos de ser humano, em que existe uma história elaborada – e em grande parte singular e desconhecida – que nos beneficia com certa individualidade, seguramente não somos afetados do mesmo modo pelas contingências; mas, ainda assim, somos afetados por uma confluência de muitas variáveis (Sidman, 1989/2001). Que estejamos afiados para identificá-las e abrir mão de uma causalidade mecanicista e para reconhecermos as relações funcionais entre os eventos que nos contornam.

Por fim, trazemos uma opinião que não está apoiada na literatura conceitual ou experimental, mas que pode trazer consequências devastadoras da visão internalista do sentimento: a felicidade como o propósito de uma vida. Por que tantos parecem tão ansiosos para, até que enfim, viverem apenas em pleno júbilo e felicidade? É nesse recorte permeado pela cultura que está armadilha: uma compreensão utópica e impossível de ser alcançada da condição humana. Ao estabelecermos a felicidade como meta, os sentimentos desagradáveis (inerentes a nossa existência) passam a ser compreendidos como algo que deva ser ceifado ou evitado continuamente. Tal perspectiva conduz a uma busca pelo inalcançável, um desligamento do presente, e uma alienação na construção de nossos propósitos existenciais.

Produzindo muitas formas de viver adoecedoras em si mesmas, o discurso da “felicidade plena” de uma sociedade capitalista voltada para o consumo torna obscura a nossa própria existência em uma fuga constante da tristeza e angústia, ocasionando na transformação de humanos em manequins ou espantalhos. Portanto, temendo-nos aos novos arranjos e à aceitação (não passiva), podemos estar presos a uma busca desenfreada, que certamente recortará uma grande parte da nossa experiência de estarmos vivos.

Livros sugeridos:

Sidman, M. (1989/2001). Coerção e suas implicações. Trad. M. A. Andery & T. M. Sério. Campinas: Livro Pleno.

Skinner, B. F. (1957/1978). O Comportamento Verbal. Trad. M. da P. Villalobos. São Paulo: Cultrix: Universidade de São Paulo.

Skinner, B. F. (1969). Contingencies of reinforcement: A theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Escrito por:

Luana Nascimento

Psicóloga pós-graduanda em Análise Comportamental Clínica no IBAC.

Paulo Henrique do Carmo

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia.

Escrito por:

Colaboração

Textos produzidos com autoria de colaborador(a) do IBAC

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