Afinal, como gênero e sexualidade se diferenciam?

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Começarei contando uma história em que tive participação anos atrás:

Quando meu primo tinha uns dois ou três anos, ele recebeu de Natal um kit de cozinha de brinquedo na cor rosa. Minha tia nos mandou um vídeo dele brincando com a panelinha e falando que estava fazendo ovo mexido. Isso fez minha avó se mostrar muito insatisfeita. Isso porque quem deu o presente havia sido um outro primo que se declarou abertamente homossexual para a família faz anos. Mais tarde, quando ela veio me mostrar o vídeo achando que eu ainda não tinha visto, disse que não gostou que meu primo tenha ganhado “um presente de menina”. E disse que estava com medo de seu neto “virar gay”.

Sim, minha avó foi homofóbica e machista em sua maneira de se expressar. Machista de um jeito velado e homofóbica de um jeito escancarado.

Prateleiras de uma loga de brinquedos, com brinquedos de cozinha nas cores azul e rosa.
foto por Ana Carolina Moreno, publicada no G1

Se você que está lendo não conseguiu identificar o teor homofóbico e machista, deixarei mais claro: ao expressar o medo de que o neto seja gay e usar a palavra “virar”, ela expressou o incômodo que sente ao ter contato com uma pessoa homossexual, como se ter uma orientação sexual diferente da heterossexual fosse algo anormal, e também indicou que ser homossexual é uma escolha. Ademais, ao dizer que receber um jogo de cozinha e panela de brinquedo na cor rosa é um “presente de menina”, ela deu a entender que somente uma menina pode possuir objetos na cor rosa e que somente ela pode brincar com utensílios de cozinha, indicando que “coisas de menino” não têm a ver com essas. Esse tipo de fala reforça que a mulher nasceu nesse mundo para performar o papel de dona de casa e performar o “feminino”, não o homem. E também indicou que, se o homem chegar a performar papéis somente das mulheres e a feminilidade, “ele automaticamente se tornará gay”.

Okay, e por que estou contando essa história da minha família? Porque existe uma realidade nela que se repete em diferentes contextos e com pessoas de diferentes idades. E é sobre essa realidade que intenciono falar aqui: as diferenças entre gênero e sexualidade e a falta de informação existente sobre elas. Já ouvi pessoas que nasceram dos anos 2000 em diante e também antes disso confundirem os conceitos. Não que isso seja culpa delas. Muitos atos de machismo e LGBTfobia vem de pessoas que não tem acesso à informação ou somente tem acesso a notícias que enquadram a população de mulheres e de pessoas LGBTQIAPN+ sob uma ótica negativa. Essa variável não justifica os atos preconceituosos e violentos; porém, nos ajuda a compreender onde devemos intervir para que a situação mude, mesmo que de maneira lenta.

Antes de falarmos sobre as diferenças entre gênero e sexualidade, portanto, precisamos entender que gênero é diferente de sexo.

Segundo o Sociology Reference Guide (2011), Guia de Referência da Sociologia em uma tradução literal, sexo se refere ao conjunto de aspectos biológicos sobre ser “macho” e “fêmea”. Sob essa ótica, podemos falar da perspectiva genética da composição de cromossomos; ao mesmo tempo, falar sobre órgãos reprodutivos que são as características sexuais primárias e também sobre as secundárias: as diferenças que ocorrem em corpos de ambos os sexos durante a puberdade. E podemos nos referir igualmente às pessoas intersexo que possuem aspectos biológicos de ambos.

Já gênero, ainda de acordo com o Sociology Reference Guide (2011), é definido pela identidade de gênero e o papel de gênero aprendido. Ao usar as palavras “aprendido” e “identidade”, nos referimos à construção social, cultural, psicológica e comportamental que uma pessoa é submetida enquanto cresce e se define. Aqui falamos, então, da educação e criação advinda de cuidadores primários e de como essas pessoas influenciaram a construção das identidades de gênero, assim como socializações dentro do ambiente escolar, contato com mídias sociais, os ensinamentos da cultura do país em que nasceu e reside e os papéis de gênero determinados por eles, entre outros fatores.

A conclusão a que chegamos ao diferenciar gênero de sexo é que uma pessoa pode nascer com aspectos biológicos de um sexo e, à medida em que cresce e tem experiências de vida, pode se identificar com papéis e expressões de gênero que não são relacionados ao sexo com que nasceu. Isso porque aspectos culturais e sociais indicam fortes estereótipos, normas e padrões sobre as performances de “ser homem” e “ser mulher” e há pessoas que não se identificam com esses. Eis a existência de pessoas transgênero.

Uma forma prática de falar sobre isso é eu me expor novamente aqui. Sou uma pessoa que nasceu com características sexuais femininas e que foi socializada como mulher pelas pessoas ao meu redor desde que nasci. Eu me identifico com o papel de gênero feminino; porém, não performo as feminilidades estereotipadas pelas variáveis culturais. Em outras palavras, não me comporto de maneira delicada, não faço minhas unhas e nem vou ao salão de beleza com frequência, eu falo alto e solto gargalhadas que chamam atenção, não sou magra… e a lista continua. Eu continuo sendo mulher, mas performo uma maneira minha de ser mulher – o que não me torna uma pessoa trans.

Agora que compreendemos o que é gênero e como se diferencia de sexo, falemos finalmente sobre sexualidade.

Para defini-la, trago os conhecimentos de Colling (2018), que diz que as sexualidades dizem respeito às práticas sexuais das pessoas, isto é, às maneiras de expressar desejo e prazer, e como elas se identificam no que tangem essas práticas. E é nessa identificação que trazemos a noção de “orientação sexual”. O uso da palavra “orientação” é usada para se opor à ideia de “opção” e estabelecer que a sexualidade de uma pessoa não é determinada por escolhas. Em contrapartida, a orientação sexual diz respeito ao desenvolvimento das sexualidades ao longo da vida de uma pessoa e caracteriza quais práticas sexuais ela irá se engajar (Diana, 2023). Em termos simples, a orientação sexual se refere à atração que uma pessoa pode sentir e essa atração pode ser de pessoas do mesmo gênero, de gêneros diferentes e outras, assim como pode haver nenhuma atração (Jesus, 2012).

Trago meu primo de três anos novamente para exemplificar. Se sua sexualidade de fato fosse construída para que ele se atraia por pessoas do mesmo gênero que ele, ou seja, meninos, e homens futuramente, não serão as panelinhas e fogõezinhos na cor rosa que irão determinar isso. A orientação sexual dele, na verdade, não vai ser determinada por papéis de gênero e nem a identidade de gênero que ele vá se identificar – até porque ele pode crescer e compreender que nem menino ele é. Do mesmo jeito que eu ser bissexual não depende de eu ser mulher. Meu primo continuará se identificando com o gênero masculino e sentirá atração por homens, nesse cenário hipotético. O medo que minha avó sentiu, portanto, tem base somente nas informações errôneas e noções deturpadas sobre gênero e sexualidade, bem como é altamente influenciado por regras advindas da sociedade patriarcal em que vivemos.

Para resumir, e finalizar, gênero e sexualidade são nomes dados a duas dimensões da existência humana que são diferentes, mas se relacionam de maneira direta e, por isso, são tão facilmente confundidas. É por isso que Colling (2018) diz em seu texto:

“Nas nossas vidas concretas, nossos gêneros são sexualizados e nossos sexos são generificados” (2018, p. 41).

Pois nos atraímos sexualmente por pessoas que tem identidades de gênero e essas identidades são construídas a partir de papéis culturais de gênero determinados por conceitos criados sobre os sexos.

Para aprofundamento:

Colling, L. (2018). Gênero e sexualidade na atualidade. Salvador: UFBA, Instituto de Humanidades, Artes e Ciências; Superintendência de Educação à Distância. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/30887

Diana, J. (2023). Orientação Sexual. Toda Matéria, [s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/orientacao-sexual/. Acesso em: 24 ago. 2023.

Jesus, J. G. (1012). Orientações sobre a população transgênero: conceitos e termos. Brasília: Autor. Disponível em: https://www.scribd.com/document/87846526/Orientacoes-sobre-Identidade-de-Genero-Conceitos-e-Termos

Sociology Reference Guide (2012). Gender Roles and Equality. California, New Jersey: Salem Press.

E as contas de Instagram: @familiaspeladiversidadeoficial , @movimentocorpolivre , @apenascup e @nohs.somos.

Escrito por:

Ana Katarine Santos

Psicóloga. Formada em Análise Comportamental Clínica (IBAC). Líder do capítulo de Brasília do Projeto Global “Viva Com Consciência, Coragem e Amor” da Mavis Tsai, PhD. Ativista dos movimentos anti-racista, feminista e LGBTQIAPN+. Uma das coordenadoras do SIG sobre FAP da ACBS Brasil. Terapeuta comportamental contextual que trabalha primariamente com Psicoterapia Analítico Funcional (FAP) e com a base teórica da Teoria de Quadros Relacionais (RFT), bem como Terapia Feminista, Terapia Afirmativa e Terapia Comportamental Integrativa de Casal.

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